| REALEST NIGGAS
Chamar As Branquelas de racista é tão pouco criativo quanto suas piadas
por
Marcel Nadale(
marcel@rabisco.com.br )
 ifícil acreditar que As Branquelas seja o destino final (ou ao menos o mais recente) daquela mesma marcha de um milhão de negros que Martin Luther King liderou supostamente rumo a Washington, na década de 1960. Mas sim. Numa lógica não menos infeliz que todo o filme, As Branquelas é o reverso do reverso do reverso da conscientização da comunidade negra, quarenta anos depois, em resposta ao politicamente correto que engessou a verdadeira sensibilidade étnica. Mas os Irmãos Wayans ainda não são bons comediantes o suficiente para entender que ser politicamente incorreto nem sempre é o mesmo que ser crítico. Ou sequer cômico.
Marlon e Shawn Wayans deveriam discursar com conhecimento de causa. São humoristas negros que dificilmente conseguiram uma chance na mesma Hollywood branca e endinheirada que retratam em As Branquelas . Nem todos podem ser Will Smith. Só conseguiram respeito quando arregaçaram as mangas e tiraram da cartola, eles mesmos, o roteiro de Todo Mundo em Pânico , a mais bem sucedida franquia cômica até agora nesta década. Pouco tempo depois, tiveram de abdicar do controle criativo da série, mas, lição aprendida, tentam agora emplacar com um novo veículo exclusivo para seu humor – uma escatologia mirada nos mesmos adolescentes que viram Todo Mundo em Pânico e que afoga um mínima a tentativa de discutir as relações entre negros e brancos na embolada sociedade americana.
A estrutura, se não é nova, é ao menos bem intecionada. Assim como Garota Veneno e Sexta-Feira Muito Louca , As Branquelas insere-se no revival das “comédias de troca de corpos”, um subgênero que sumiu lá pela década de 80, depois que a fórmula desgastou-se sem mais conseguir cumprir uma proposta séria de promover a tolerância social. Marlon e Shawn vivem dois agentes do FBI que, para desbaratar um caso de seqüestro, passam-se por jovens herdeiras esnobes num fim de semana em um point litorâneo da alta sociedade. De uma tacada só, precisam aprender a se comportar como: a) brancos; b) mulheres; c) ricos – uma última faceta menos explorada nas piadas, mas que é a que joga a mais truculenta pá de cal sobre a ideologia do filme.
As relações inter-raciais hoje são muito mais complexas do que Martin Luther King jamais previra. Mais fácil seria se permanecesse apenas a oposição evidente entre racistas e não-racistas. Se há, hoje, exemplos mesmo que pontuais de uma troca mais intensa e sincera entre negros e brancos, menos intermediadas por preconceitos, existe, paralelamente, uma mera apropriação de comportamentos e signos culturais, que se passa por “tolerância” ou mesmo “admissão igualitária”, mas que é superficial. A mídia, que talvez foi a mais forte ferramenta de exposição do negro na sociedade americana, acabou por também reduzi-lo de figura ideológica nula a consumidor ativo. O negro é o que veste, canta e dirige. A piada recorrente mais engraçada do filme são os dois protagonistas, vestidos como branquelas, tentando não passar vergonha diante das amigas quando toca no rádio a melosa e ultra-WASP “A Thousand Miles”, de Vanessa Carlton. A turma toda só acerta o ritmo quando, em seguida, surge um hip-hop carregado de suíngue e gíria: “Realest Niggas”.
E, se o negro é o que veste, canta e dirige, então brancos também podem ser negros pela mera intervenção do cartão de crédito. É interessante notar como os protagonistas de As Branquelas desconhecem a música “de brancos”, mas suas amigas embarcam fácil no rap “de negro”. Outros comportamentos culturais “de negro” são cômicos porque geram no público constrangimento, mas não nos demais personagens. É engraçado ver duas supostas donzelas dançando break numa festa de grã-finos, mas, entre os próprios, os passos vulgares e difíceis são admirados como verdadeira personalidade. Enfim, estamos no reino dos “pretty fly for a white guy”, como diria a canção do Offspring.
A pregação pela tolerância entre homens e mulheres é não menos rasa e unilateral que a de Garota Veneno . No mínimo, recomendável, mas sem muita diversão que não apele para alguma piada homofóbica. Muito mais interessante e pouco abordada é, enfim, a distinção que se faz entre o que é “ser rico” e o que é “ser pobre”. Não se engane: o pecado capital de As Branquelas é, simplesmente, não ter graça nenhuma. Mas nem mesmo ideologicamente o filme se redime, quando tão prontamente coloca o negro de volta ao seu papel subserviente, enquanto os brancos são definidos como patrão quase a prori . É quando retornam os ares de uma herança escravocrata que o filme se embanana todo para esconder. Os personagens de Shawn e Marlon são agentes do FBI exclusivamente em seus distintivos – não agem, jamais, como profissionais dignos e orgulhosos, com um salário respeitável melhor do que muito branco por aí. Basta darem de cara com os brancos (mesmo colegas) para que assumam imediatamente aquela postura Netinho de Paula que o brasileiro, aliás, adora. É somente aí que o filme chega a ter alguma ressonância com o público brasileiro, porque, de resto, nossa dinâmica muito peculiar entre negros e brancos não suporta as mesmas tais piadas de conteúdo comportamental-cultural.
Seria, então, As Branquelas , racista? No caldeirão cultural americano, em que o negro foi absorvido ao menos como um trendsetter desprovido de alma e história política, fica difícil dizer. Mas nas suas primeiras cenas, aí sim não há dúvida: antes de assumirem o disfarce de brancas, Marlon e Shawn passam-se por latinos, com direito até mesmo a diálogos em spanglish que recitam “Guantanamera” e “La Bamba”. É o estereótipo mais dolorido, de uma parcela da população que, prevê-se, superará a negra até 2025, e que nem de longe tem a mesma migalha de respeito e reconhecimento que esta. Quem sabe viria aí uma interessante continuação e uma nova franquia para os irmãos Wayans afinal.
|