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BIENAL PROMOVE DISCUSSÃO SOBRE JORNALISMO CULTURAL
Seminário debate papel do jornalista e do crítico de arte na veiculação da cultura para a população
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br )
os dias 30 de novembro e 1º de dezembro aconteceu o Seminário sobre Jornalismo Cultural no Porão das Artes do Pavilhão de Exposições da Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, zona sul da capital paulista. O evento gratuito foi organizado pela Fundação Bienal de São Paulo, em conjunto com a Associação Brasileira de Escolas de Comunicação Social (ABECOM) e o Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), aproveitando o espaço aberto com a realização da 26º edição da Bienal de São Paulo. Jornalistas e professores da área debateram quatro temas em torno do jornalismo cultural: jornalismo especializado e crítica da arte; jornalismo e difusão cultural; jornalismo e política cultural; e tendências do jornalismo cultural.
O seminário foi dividido nesses quatro temas por dois dias, sendo dois debates a cada dia, realizados no período da noite. Poucas pessoas compareceram ao local, predominantemente jornalistas e estudantes de comunicação, sendo desejo dos organizadores a participação da população também, como dizia no documento colocado no site da Bienal: “O evento é gratuito e aberto ao público em geral”. Os encontros tiveram sempre três palestrantes do meio jornalístico e acadêmico e um debatedor de alguma universidade que fazia o trabalho de provocador e, também, de mediador entre a platéia e os convidados. E foi num ambiente acolhedor e sereno, por conta do pequeno e quase vazio auditório, que o debate sobre a crítica da arte no jornalismo cultural começou.
Crítica da Arte?
A primeira mesa do seminário foi composta por Maria Cecília Garcia, jornalista e professora doutora do curso de Jornalismo no Mackenzie, Fábio Cypriano, doutor em Comunicação e Semiótica e jornalista da Folha de S. Paulo , além de professor de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), e Luis Antônio Giron, jornalista de cultura da revista Época e doutor em Artes Cênicas. O debatedor foi o jornalista e professor de Jornalismo e de Pós-Graduação da ECA/USP, José Coelho Sobrinho, também presidente da ABECOM. Garcia trabalhou com a perspectiva de conceber a crítica como outra forma de criação, como outra forma de arte, estabelecendo um diálogo entre as duas consciências, isto é, criador e crítica. “O crítico auxilia o público a compreender a obra, compondo um verdadeiro ‘triáologo' entre o artista, a crítica e o público”, considerou. Para ela, a aura está tanto em quem cria quanto em quem contempla a obra de arte, pois esta elabora relações diferentes das que o artista percebeu. “As pessoas devem ser educadas a ver e conhecer arte”, clamou.
Já Giron comentou que as colocações feitas por Garcia se enquadrariam no ideal de como deveria ser a crítica de arte nos periódicos culturais, alertando que esta não é a realidade atual. “Eu percebi que a crítica não é uma profissão e sim uma atividade. A vejo como uma luta, um serviço de resistência e não para formar as pessoas. Ela é incapaz de formar alguém”, observou. Ele não vê com otimismo o papel da crítica hoje, por conta do interesse mercadológico das empresas. “Tudo é produto hoje. Arte e crítica são produtos e mercantilização. Vemos tanta manipulação da informação que eu não acredito na crítica hoje”, afirmou. Segundo ele, acontece um progressivo “banimento do raciocínio” por causa dos chamados “embargos” ocorridos dentro das redações. “Censura tem agora outro nome, é o embargo. Não sejamos ingênuos de pensar que a liberdade de expressão nas empresas é repleta”, acusou.
Na explanação de Cypriano, entre outras coisas, ele acredita ser preciso repensar a função do crítico, alegando que ela mudou dos anos 50 para cá. De acordo com o debatedor, as instituições se banalizam para acessar os jornais e atingir o público massificado. Citando o exemplo de uma obra austríaca de um fusca pendurado pelo teto e exposta na 26º Bienal das Artes no mesmo local, Cypriano chama a atenção para qual tipo de reflexão aquilo remete, lembrando que tal imagem foi destaque em vários veículos de comunicação. “Para a Bienal o importante é aparecer na mídia. Então, fazem um outdoor medonho com uma mulher quase nua lá (sic) para chamar a atenção das pessoas, só que aquilo não tem nada de Arte Contemporânea”, criticou. Ele crê ser possível unir nas matérias jornalísticas informação e crítica: “Você leva a informação objetiva e dá pistas para leituras que a pessoa pode fazer. É uma forma híbrida de fazer e faço assim na Folha de S. Paulo”, explicou.
Difusão Cultural?
No segundo tema do dia, a discussão sobre difusão cultural no jornalismo se voltou para como essa informação sobre cultura deve ser passada para o público. Os palestrantes foram o jornalista e atual executivo de cultura da revista Veja , Carlos Graieb, o jornalista há mais de 34 anos e atual chefe de reportagem e pauta do programa Metrópolis , da TV Cultura, Lázaro de Oliveira, além do também jornalista e atual editor da revista Imprensa , Renato Moraes. A debatedora foi a doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, professora das Faculdade Integradas Rio Branco, Maria Alice Carnevalli.
Oliveira começou falando que como a arte é encarada como mercadoria, os jornais não costumam difundir a informação e sim divulgá-la, dando maior atenção a circuitos mais estritos, sem ampliar a visão cultural do público brasileiro para outras formas de cultura. “Os novos não aparecem na mídia, só há espaço para aquilo que já é conhecido”, apontou. Moraes leu um texto longo e cansativo na sua explanação, a respeito de sua vida e trabalho, repleto de citações “caetanianas” e de pensadores e escritores mundiais, portanto, não vale a pena cansar o leitor e reproduzir o texto. A não ser quando ele polemizou com Graieb ao citar que na Veja não há mais editores cobrindo todos os temas semanalmente, fato que gerou um certo mal estar na mesa e uma polêmica interessante ao debate.
Graieb acredita que as empresas estão fazendo o papel de transmitir a informação sobre cultura. Apesar disso, na visão dele, há dois perigos enfrentados pelo jornalismo cultural: “O primeiro é de ser cooptado pelo marketing da indústria cultural, isto é, das grandes editoras, gravadoras e TVs. O jornalista precisa ficar atento para a pressão em que ele se vê abarrotado de CDs, livros e releases . O outro é ceder a um certo populismo cultural, um bom mocismo, ao dizer que a produção cultural brasileira é melhor que ‘os lixos feitos lá fora'. Não é só porque é nacional que é melhor que o norte-americano”, colocou.
Políticas e Tendências?
No dia 1º de dezembro o debate alcançou a esfera política e os rumos do jornalismo cultural no Brasil. A discussão ficou em torno de como fazer para que a cultura chegue a todas as camadas da população e como lidar com a relação Estado versus Imprensa nesse trabalho da difusão das políticas públicas pela mídia. A reportagem do Rabisco não conseguiu acompanhar todo o debate, mas percebeu um clima mais ameno na discussão do que no dia anterior. Em seu encerramento, o jornalista e diretor de redação da revista eletrônica Cultura e Mercado , Israel do Valle, citou o escritor Monteiro Lobato, que começou a vender seus livros numa rede de açougues à época famosa para criticar a falta de criatividade dos artistas em conseguir atingir o público, ressaltando a necessidade de buscar outras ferramentas de comunicação. “É preciso relativizar a importância dos canais existentes nos veículos de comunicação, é preciso dar maior valia para outras formas para alcançar mais pessoas”, alertou. Além dele, participaram da mesa o repórter de cultura do jornal O Estado de S. Paulo , Jotabê Medeiros, e o jornalista e mestre em artes, além de ser crítico de arte e professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Oscar D'Ambrozio. Os debatedores vieram da Universidade São Judas e eram o jornalista e doutor em Ciências Sociais Luis Mauro Sá Martino e a doutora em Comunicação e Semiótica Maria Teresa Santoro.
O último debate do seminário foi sobre as tendências do jornalismo cultura, montando um panorama do cenário atual e perscrutando algum caminho futuro. Entre os palestrantes estavam o jornalista e doutor em teoria literária Adriano Schwartz, a atriz e doutora em Comunicação e Semiótica, professora de História da Arte e de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, Marlene Fortuna, o artista e professor do Depto. de Artes Plásticas da ECA, o mestre em Filosofia Marco Gianotti, além do debatedor Bernardo Issler, coordenador do mestrado da Cásper Líbero.
Scwartz começou dizendo que a tendência atual do jornalismo é de crise em todas as editorias, afirmando que a parte de cultura precisa de “bons repórteres” e não somente de críticos: “Hoje as funções de ambos estão confundidas entre si”, disse. Outro ponto levantado na exposição, Schwartz questiona a influência do texto jornalístico no gosto das pessoas: “Quando saiu o último livro do Sidney Sheldon ( Quem Tem Medo do Escuro? , 2004) eu fiz questão de ler e fazer uma crítica para a Folha. Achei o livro horrível e fiz uma resenha bastante crítica. Ela foi publicada na no dia do lançamento do livro e ainda ficou uns 3 dias na página principal da UOL e mesmo assim o livro foi logo para os mais vendidos. Ou seja, nada que se faça vai mudar a vendagem”, justificou.
Fortuna relacionou o jornalismo cultural a duas questões: o jornalismo direcionado às massas, com mais imagem e menos texto, mais sensacionalista, com mitos breves e maior efemeridade, e outro mais restrito, com menos imagem, mais texto, sem sensacionalismo e efemeridade, sem a brevidade nos mitos. Para isso, ela fez uma viagem na Grécia antiga e buscou na fonte de cada palavra os significados para traçar esse paralelo. Para ela, o problema está em que as pessoas só percebem as coisas massificadas. “Podemos ler tudo, desde que tenhamos consciência das coisas. Acontece que dão atenção a muitas coisas banais”, lamentou.
Gianotti encerrou as considerações da noite ao comentar sobre a desigualdade profunda entre os jornalistas jovens que são destinados a cobrir a editoria de cultura e encaram entrevistas com artistas muito experientes. “Essa necessidade capitalista de passar a informação o mais rápido possível para superar a outra empresa faz o jovem jornalista simplificar suas idéias, podendo levar a uma qualidade inferior da informação”, falou. Durante sua apresentação a energia elétrica da região do Ibirapuera sofreu 5 quedas, comprometendo as palavras de Gianotti, que ficou furioso. “Agora é questão de honra você concluir professor”, disse o debatedor Issler. Era o gerador que demorava para retomar a energia da Bienal. Ao apagar das luzes do seminário, a chuva e o vento frio acompanharam todos que iam para casa após dois dias de reflexão sobre os rumos do jornalismo cultural brasileiro.
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