| PASSAPORTE NA MÃO
Eis um novo tipo de reality show: o reality turismo de The Amazing Race
por Marcel Nadale(
marcel@rabisco.com.br )

ntre os muitos cômicos conselhos de etiqueta que Danuza Leão oferece em seu livro Na Sala com Danuza está o de que você jamais deve importunar ninguém com álbuns, filmes ou slides de sua última viagem a turismo. “Afinal, a quem interessa uma viagem, a não ser a quem a fez?”, conclui. Está correta. E é sob esta lógica que o canal por assinatura AXN consegue humilhar, impiedosamente, com um único programa de uma hora semanal, toda a programação marqueteira de canais de turismo como o Discovery Adventure: o reality show The Amazing Race.
Reality show, não. Como diria o Emmy (que The Amazing Race venceu, derrotando fortes adversários como O Aprendiz e Survivor): reality competition. O que interessa, aqui, não é a intimidade de duas dúzias de aspirantes a celebridade, e sim a astúcia e a manha para vencer uma excruciante corrida ao redor do mundo. São doze duplas que seguem pistas como numa caça ao tesouro, passando por diversos países, cumprindo provas típicas individuais ou coletivas. A cada episódio precisam atingir um último pit-stop pré-determinado. Quem chegar ali na lanterninha, está fora da brincadeira.
“It’s the vacations from hell”, escreveu um dos críticos à época em que o programa estreou na CBS americana. Isso sim é que é realidade: desde quando suas férias se parecem com os paraísos pintados nos catálogos das agências de turismo? Especialmente quando se tenta conhecer muitos lugares em pouco tempo, como naqueles pacotes que ensardinham a Europa em 30 dias, o passeio se torna uma corrida implacável - a disputa pelas passagens mais baratas, os micos para economizar alguns trocados, as crescentes rusgas com o colega de viagem, aquela encomenda que te garantiram que era superfácil de encontrar, a localização daquele ponto turístico secreto “imperdível” que seu irmão recomendou.
Se você se interessar por The Amazing Race como uma competição, vai achar por quem torcer (os palhaços de circo? Os gays casados? O casal que namora há 12 anos e ainda é virgem?). Se preferir assisti-lo como um alívio cômico, com certeza também vai dar risada. Mas, se tentar encará-lo como um programa de turismo, vai quebrar a cara. Nesta quarta edição, a gincana já passou por países como Itália, Holanda, França, Áustria e Índia, mas quem os experimentou, de fato, como diz Danuza, foram os participantes, não os espectadores. O corre-corre impede a postura contemplativa, mas volta e meia há verdadeiros testes de autêntica “imersão cultural”: ter de encarar, por exemplo, um grotesca lavanderia popular num dos bairros mais pobres de Mumbai; ou ser amarrado à pá de um moinho em Amsterdã; ou negociar pelas labirínticas e fedidas vielas de Veneza - tudo em busca da pista que vai indicar o próximo destino. O translado mundial não tem fim.
Quem banca o agente de viagens é Jerry Bruckheimer, um desses fantásticos produtores por vocação, cuja produção maciça no cinema (sucessos como Rei Arthur e Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra) e na TV (C.S.I. - Crime Scene Investigation) ao menos o gabaritam como um perfeccionista que sabe mixar aventura e drama. The Amazing Race parte para a reta final em janeiro, mas deve ganhar reprises na grade do AXN. Quem não quiser perder, é só sintonizar no canal às 20h da terça-feira. E boa viagem!
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