| EU GOVERNO PELO MACHADO
Conan ressuscita nas mãos da Dark Horse depois de ter sido esquecido pela Marvel
por
Darlon Carlos (
darloncarlos@yahoo.com.br )
 ão importa o que o mundo fez de você, importa o que você faz com o que o mundo fez de você. Com estas palavras, Jean-Paul Satre levantou uma celeuma: o que vem primeiro, a essência ou a existência? O meio determina o que uma pessoa vai ser? Até hoje estas questões provocam discussões variadas e encontram eco no relançamento, pela Mythos Editora, da revista em quadrinhos de Conan, o personagem imortalizado no cinema por Arnold Schwarzenegger. A revista conta os primórdios do bárbaro, desde que deixou as florestas escuras de sua terra natal para se tornar um dos mais conhecidos e requisitados guerreiro do seu tempo.
O roteiro é de Kurt Busiek e a arte, de Cary Nord e Thomas Yeates, baseados nas histórias, personagens e conceitos criados por Robert E. Howard. O brilhante Howard nasceu em 22 de janeiro de 1906 em Peaster, no Texas. Era filho de um médico andarilho que se ausentava de casa por longos períodos e de uma mãe, dona de casa, que sempre incentivou a carreira literária do filho, uma rapaz solitário que passava horas e horas sozinho ou em companhia dos livros. Por isto, sempre foi visto como esquisito, sendo perseguido na escola, um dos motivos que o levou a condicionar o corpo com exercícios rigorosos e lutas de boxe. Queria tornar-se uma pessoa dura que sabia como se defender sozinho.
Os paralelos com as origens do próprio Conan - o bárbaro melancólico que parte em busca de riquezas para se tornar um rei que não teme nem deve favores a ninguém - vão ainda além. Robert cresceu em uma cidade tomada pela febre do petróleo. De um dia para o outro o lugarejo passou a ser infestado por prostituas, cafetões, ladrões, empresários gananciosos, jogatina e os demais marginais que surgem com a consolidação desse submundo ilegal. Na mente de qualquer criança este cenário teria um grande impacto. Obvio que podemos ver, na obra de Howard, essa visão pessoal, do que passou, de sua filosofia, do sonho americano.
Embora pregue o triunfo de Conan numa alegoria às oportunidades do sonho americano, Robert não tinha uma percepção adocicada da vida. Para ele, o barbarismo era o natural do ser humano e não a civilização. Suas definições à respeito desta questão são polêmicas e vagas, difíceis de ser transcritas. Há quem sequer acredita que ele tenha desenvolvido sua opinião lógica completamente. Quando debate o barbarismo, não aborda uma violência sem limite onde todos são mortos por meros caprichos, mas sim uma forma de se defender das arbitrariedades perpetradas pelos homens.
Todos falam dos ataques terroristas dos palestinos, mas poucos falam dos ataques dos judeus; lamentam o que aconteceu em 11 de setembro nos EUA, mas não falam do que eles fizeram em países soberanos como El Salvador, Nicarágua, Cuba, Chile e Brasil; a elite brasileira fala da violência das favelas, mas não comenta a miséria que lá se instala em grande parte pela desigualdade social promovida pelo sistema econômico em voga; condena-se o Movimento dos Sem Terra com suas invasões, mas não o acúmulo de terra nas mãos de poucos; rechaça-se os manifestos pelas cotas universitárias para negros, mas não a falta de membros desta raça em bancos universitários. Então em suma, o que é barbarismo?
Não chamaram Malcolm X de bárbaro por defender o direito dos afro-americanos; Martin Luther King por ter um sonho; Karl Max e Friedrich Engels por quererem a socialização das riquezas; Gandhi por querer a independência do seu pais; Zumbi dos Palmares por morrer ao defender asua liberdade. Todos estes homens foram chamados de bárbaros! Mas hoje, são chamados de quê? Talvez o que o criador de Conan quis mostrar é que em alguns momentos, quando uma parcela da sociedade cria barreiras altas e densas para mudanças que irão ajudar o povo, surgem homens que tem que se colocar na brecha da história e forçar uma ruptura. Raspar o fino verniz que cobre a civilização.
Howard cometeu suicídio em 11 de junho de 1936, depois que sua mãe, que sofria de tuberculose, entrou em coma irreversível. Tinha 30 anos de idade. Antes de cometer tal ato, que acabou com uma carreira de 12 anos, escreveu seu último dístico: “Tudo feito e acabado, ergam-me então até a pira. O festim acabou e a chama das lâmpadas expira”. Esperamos, sinceramente, que Deus, a quem Conan chamava de Crom, o tenha levado em segurança pelo vale da sombra da morte, tenha feito uma mesa entre os seus inimigos, enchido o seu cálice até transbordar, ungido a sua cabeça com óleos aromáticos e lhe dado a paz em sua montanha. |