| UM ELEFANTE NA SALA DE ESTAR
Chega às locadoras Elefante, de Gus Van Sant, radiografia seca e cruel do universo escolar
por Luiz Andreghetto (
luiz_andreghetto@hotmail.com )

dolescentes de uma high school americana envolvidos em um cotidiano acadêmico de tédio e passividade poderiam resultar num filme enfadonho e desnecessário. Mas não nas mãos Gus Van Sant, diretor americano que possui em seu currículo os excelentes Drugstore Cowboy (1989), Garotos de Programa (1991), Um Sonho Sem Limites (1995) e Gênio Indomável (1997). Van Sant sabe como ninguém mostrar juventude no cinema, sem maniqueísmo, despida de qualquer máscara ou artificialidade. Uma juventude em constante mudança, que, por toda sua filmografia, trafega em estradas e ruas que assumem uma função de complemento metafórico muito importante.
E é através de uma rua que somos iniciados e transportados ao ambiente opressivo e claustrofóbico escolar em Elefante. O que, em outros filmes do diretor, serve como função de libertação (as viagens de Drugstore Cowboy, o final de Gênio Indomável) ou como perdição (as incertezas de River Phoenix em uma highway americana em Garotos de Programa), em Elefante a estrada/rua serve como condutora inicial à tragédia.
A tragédia é o massacre em Columbine, em 1999, em que dois alunos atiraram em várias pessoas dentro da escola e depois se mataram. Mas o filme vai muito além disso, fazendo uma radiografia de todo o universo escolar, imparcialmente, sem julgamentos morais, éticos ou sociais. É uma ambigüidade que está no estranho título, com dois possíveis significados: algo tão difícil de ser ignorado quanto um elefante na sala de estar ou uma referência a uma antiga parábola budista, onde três cegos apalpam, cada um, uma parte de um elefante, e afirmam compreender o animal como um todo, baseando-se na única parte tocada.
Diferente de Tiros em Columbine, documentário de Michael Moore, que sai do universo escolar e vai até o mundo buscar respostas para o acontecido, Elefante fixa seu olhar no centro de toda a tragédia. São nos corredores e nos arredores da escola que Van Sant posiciona sua câmera-testemunha e a deixa ali, pronta para flagrar todo o cotidiano e a indiferença desses adolescentes. Filmado em uma high school de Portland, Oregon, Van Sant usa os próprios alunos da escola, escolhidos entre diversos testes, como protagonistas do filme, sendo que cada um empresta seu próprio nome ao personagem, criando uma tênue linha entre realidade e ficção.
Numa narrativa fragmentada, a câmera-cúmplice de Van Sant acompanha cada um dos personagens com tamanha proximidade que é impossível não se sentir dentro da escola. São longos travellings e planos-sequência que nos faz caminhar lado a lado com cada aluno-personagem, sendo que é dessa aproximação seca e não-crítica, que resulta angústia e estranheza das cenas finais: somos jogados em meio ao tiroteio com toda a impotência e crueldade que a situação permite.
Van Sant não procura uma resposta fácil. Ou melhor, não procura resposta nenhuma, para a motivação e ação/reação dos garotos-atiradores. Seria culpa do vídeo-game violento que eles jogam? Do documentário sobre Hitler que assistem? Da facilidade para adquirir armas de fogo? Nada disso. Para Van Sant não existe culpado ou inocente, apenas uma história pra ser contada, da qual cada um pode e deve tirar suas próprias conclusões, ficando a cargo do espectador decidir e procurar as razões, se é que existem, para tanta brutalidade e violência.  |