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24 de dezembro 2004 a 8 de janeiro de 2005

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LULA DIVERSO
Entreatos retrata bastidores da eleição e revela as semelhanças entre o Luiz Inácio sindicalista e presidente
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

que passa na cabeça de uma pessoa em lançar um filme sobre uma campanha presidencial dois anos após ela ter acontecido? Essa é uma das pergunta mais comuns e um dilema que João Moreira Salles, diretor de Entreatos, passou a ter de lidar ao decidir retratar os últimos 30 dias da corrida eleitoral para a presidência do então candidato pelo Partido dos Trabalhadores Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse questionamento é respondido assim que o cinéfilo, ativista político ou curioso vê as primeiras cenas do filme. Os momentos mais espetaculares e grandiosos de uma campanha eleitoral, como os comícios e as grandes movimentações populares, são deixados de lado para privilegiar os momentos simples antes desses acontecimentos. Detalhes dispersos no limbo foram captados pelo diretor de fotografia Walter Carvalho e pelo próprio Salles. É um filme de espera em hotéis, viagens de avião, instantes antes das gravações de programas eleitorais, transformando o bastidor em peça primordial. “O filme é que dá importância a esses momentos. É exatamente o oposto das cenas públicas”, revela Salles em entrevista à Agência Brasil. Mas não era para ser assim.

Salles conta que a idéia inicial era filmar o cotidiano dos dois candidatos que disputaram o segundo turno, ou seja, além de Lula, o candidato do PSDB, José Serra. Esse trabalho seria divido entre ele e o diretor Eduardo Coutinho, mas este último recusou-se a seguir nessa linha e externou seu desejo de fazer um documentário com os ex-metalúrgicos do ABC paulista. Essa idéia foi sugerida também pelo próprio Lula, alegando que sua campanha era histórica e que para entender o Lula de hoje era preciso conhecer o sindicalismo. E foi o que concordaram e fizeram Coutinho e Salles: Coutinho partiu para o âmago do movimento operário do fim da ditadura, época em que uma greve em São Bernardo parava o país, relatada por pessoas que viveram aqueles dias na película Peões. Salles seguiu Lula durante as eleições para tentar redescobri-lo em tanto tempo de história e registrar os principais momentos de sua quarta candidatura eleitoral para presidente da República. Do material de Entreatos ficaram registradas 240 horas com tudo o que foi possível gravar de 25 de setembro a 27 de outubro de 2002.

Entreatos é um filme que retrata as diversas faces de Luiz Inácio Lula da Silva. Nos revela muito um Lula mais próximo daquele dos sindicatos e de sua vida das lutas no final da década de 70. Isso é visto principalmente no retrospecto crítico que ele faz de sua vivência naquele período, revelando não ter saudade da fábrica e discorrendo sobre o PT que ajudou a formar e liderou à condição em que está hoje. Além disso, Lula se mostra um verdadeiro personagem, contando histórias de seu tempo de fábrica, piadas, provocando gargalhadas às pessoas em sua volta. E antevê-se, também, Presidente da República, um Lula de bom gosto, que afirma gostar de usar terno e gravata e expõe um lado ponderado e pragmático que poucas pessoas conhecem ou quiseram conhecer.

Há pouca intervenção da direção do documentário, que somente observa o dia a dia do então candidato, como no momento em que ele recebe a confirmação oficial, pela televisão, de sua vitória, filmado pela Mariana, filha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Lula se mostra bastante à vontade em seu personagem, nada muito forçado ou clichê, mas com plena naturalidade. O filme não é sobre a intimidade de Lula, não mostra muitos detalhes recônditos de sua vida. Mas, por um outro lado, Entreatos é intimista, principalmente nos momentos em que ele discute sobre os rumos do PT e do movimento dos trabalhadores. Inclusive na perspectiva de Lula cumprir seu objetivo de alcançar o poder e querer governar para todos, ainda que conformado de que nem tudo é possível realizar.

Esse debate em torno do PT e de Lula - apesar de não direcionar os caminhos do documentário, pelo fato de permanecer como pano de fundo da história -, se mostra o mais importante e essencial para as pessoas compreenderem o rumo tomado pelo partido desde seus primórdios. Isso personificado na pessoa de Lula, o grande líder do partido e representante maior desse movimento que chegou ao comando do país, ao ponto dele próprio dizer ser, sem qualquer falsa-modéstia, a maior liderança do Brasil hoje. Ali, ele reconhece muito mais a importância das bases da Igreja Católica e do sindicalismo na formação do partido do que a esquerda intelectualizada ou a revolucionária, que também participaram ativamente da construção do PT nos primeiros anos, sendo desarticulada aos poucos para focar o projeto político de Lula e do seu campo conservador: a chegada ao poder pela via democrático-burguesa, objetivo nunca escondido por eles.

Por isso mesmo que, quando ele reafirma seu obejtivo no próprio documentário, passa a assumir o posicionamento do núcleo do PT atual que dirigiu o partido durante esses anos e que possuía o desejo de melhorar as coisas dentro do sistema atual que hoje é o capitalismo. Lula diz não gostar de rótulos: é um mero cidadão, como qualquer outro brasileiro Silva que está por aí, batalhando por uma vida melhor, e não pelo movimento socialista que tentaram associar ao PT por todos esses anos. Ocorre que não há mais como relacionar PT com ruptura, como o próprio diretor Salles pensa agora: “O verdadeiro Lula é um que se parece muito com o Lula de 79 e de 80. Tem alguns traços essenciais para você compreender o Lula de 2002 que você encontra no Lula de 79 e de 80. O pragmatismo é um deles. A maneira não dogmática de ver o mundo e as pessoas é outro. O Lula era muito duro, mas ele sentava com o patrão. O patrão era um adversário, não era um inimigo. É diferente. O Lula de 2002 não tem inimigos. Tem adversários, mas não tem inimigos”, enxerga Salles. Em certo sentido, Entreatos é uma auto-crítica histórica do PT e de Lula, realizada por ele 25 anos depois, com toda a pedra, flor e espinho vivida no caminho durante esse período.