| RAROS COMPASSOS
Muitas das primeiras canções de Tom Jobim são ainda “inéditas de sucesso”
por Marcelo Xavier (
marcelo@rabisco.com.br )

uma definição bem simplista, podemos dizer que a música de Tom Jobim teve duas fases bem distintas em sua trajetória, separadas historicamente pelo advento da Bossa Nova e da parceria de sucesso com Vinícius de Moraes, no fim dos anos 50. A primeira compreende o período em que o compositor trabalhou como artista da noite e como produtor musical nos selos Continental e Odeon, respectivamente. Por fim, a velha Bossa Nova lhe traria a celebridade ao mesmo tempo em que o investia como cantor, já que cantar baixinho agora era moda. Era questão de tempo: com o sucesso obtido com a apresentação no Carnegie Hall, em 1962, Jobim debutou em disco para o mundo com o álbum The Composer of Desafinado (1964, lançado aqui pela Elenco). Essa fase vai do auge do sucesso da Bossa Nova no mercado norte-americano e culmina na quadrilogia Wave (1967), Tide (1971), Matita Perê (1973) e Urubu (1976), além de outros trabalhos similares durante os anos 60 e 70. Estes trabalhos pouco conhecidos do público - mais afeito a “Garota da Ipanema” - passeiam da “bossa” tradicional ao “samba progressivo”. Ironicamente, Jobim, que desdenhava qualquer rotulação de sua música ou qualquer separação entre o espaço erudito e popular, se tornou cativo da padronização do tipo de música que ele consolidou no estrangeiro. A sua carreira seguiu pelos anos 80 e 90, porém todos os fundamentos da sonoridade do mestre estão nestes discos. No entanto, não poderíamos compreender o Tom de “Chega de Saudade” sem conhecer os seus primeiros (com) passos como músico.
Correndo contra o aluguel
No começo da década de 50, o jovem Antônio Carlos era um mero pianista entre tantos que tocavam em boates à noite. Depois de abrir mão de um futuro como arquiteto, ele resolveu cair na noite para tentar a vida como músico. Ao mesmo tempo, ele estudava harmonia, examinava partituras de clássicos de Custódio Mesquita, ouvia discos do Bando da Lua, Sïlvio Caldas e Orlando Silva. Por essa época, ele casou pela primeira vez. Foi morar num quarto-e-sala em Copacabana. A vida nos “inferninhos” nasceu pela necessidade de pagar o aluguel. Tudo Azul, Clube da Chave, Michel, Acapulco, Farolito, Mandarim, Dominó, Vogue, e muitas outras. O vencimento de aluguel aparecia inexoravelmente no fim do mês. Porém, mesmo assim, foi uma meio romântica. Enfiado num terno azul da Ducal, ele aparecia de noite, e via o sol nascer no Posto 6 centenas de vezes, depois de encarar um bife com ovo do Far West, ao voltar para casa. Ele surgia ao romper da aurora, e Teresa Hermanny, sua primeira esposa, ia suportando aquilo. Ao mesmo tempo em que ele adquiria vivência como músico, levava uma vida diferente do resto dos mortais comuns, enquanto apostava corrida contra o fim do mês (nem tanto).
Tom agüentou aquela vida avessa até 1952. Foi quando ele conseguiu um emprego na Continental, cujo diretor artístico não era ninguém menos que o célebre Braguinha, o João de Barro. Na gravadora, ele tinha a função de arranjador. Lá conheceu Radamés Gnatalli. Da mesma forma que Radamés, Jobim tinha uma raiz erudita e sabia que, para viver, devia descer ao rés do chão do que era moda no rádio: beguines, sambões, serestas, toadas, emboladas, modas, valsas e outras bossas. Como os cantores não sabiam ler partitura, a função dele agora era traduzir aqueles pensamentos musicais para a pauta. Com toda aquela carga de informação que ele havia acumulado desde as primeiras lições com Lúcia Branco e o maestro “prafrentex” Hans-Joachim Koellreuter e a lide de trabalhar com canções de outros autores, ele deu de compor. Foi a partir de um arranjo que ele fez para Dick Farney que o compositor criou coragem para tal empresa. Ernâni Filho foi primeiro a registrar uma canção de Jobim, “Pensando em Você”, naquele ano.
Como ele não se julgava cantor - ainda mais no tempo em que a voga eram os gogós dos ídolos de auditórios de rádios, como Jorge Goulart, Marlene, Emilinha Borba, Lúcio Alves e Gilberto Milfont, muito antes de vozes pequenas e sem vibrato, como João Gilberto -, Jobim as compunha, e cedia a canção para vários cantores. Porém, muitos cantores do cast da Continental era tão ecléticos quanto obscuros. E, como eles foram esquecidos pelo tempo, muitas das criações de Tom foram relegados ao ostracismo. Se não as canções, pelo menos, os arranjos originais. Aliás, muitas daquelas canções que hoje pertencem ao espólio musical da Bossa Nova eram pequenas peças obscuras, registradas em discos de 78 rotações por cantores também desconhecidos, mas que, se reunidas em mosaico, podem dar uma idéia do contexto de onde nasceu o movimento propagado a partir de “Chega de Saudade”, em 1958, e que ganharia o mundo.
Teresa da Praia
Seu primeiro grande sucesso apareceu em agosto de 1954, “Teresa da Praia”. Feita em parceria com Billy “Samba Triste” Blanco, este samba-canção se tornou famoso principalmente porque fazia menção à rivalidade existente entre as macacas de auditório (um parêntese: quem inventou essa expressão foi César de Alencar) de Dick Farney e Lúcio Alves - que, na verdade, eram bons amigos. Para consagrar essa “união”, os dois, que também eram, na época, artistas da Continental, gravaram-na juntos. O arranjo, também de autoria de Tom, já trazia toda a influência musical que ele demostraria nos anos seguintes. O curioso é que, ao mesmo tempo em que “Teresa da Praia” representava o auge daquela “rivalidade” entre Lúcio e Dick, ela já apontava, de certa forma, para a o ocaso daquele paradigma musical em que os dois eram os maiores nomes. Aquele estilo que mesclava a seresta com o samba-canção, com letras soturnas e de dor-de-cotovelo, com direito a solos escandalosos de trompete ou discretos, com guitarra do legendário band-leader “Stan Kenton”, órgãozinho lounge estilo Walter Wanderley e muita sanfona, que era a maior coqueluche entre os jovens, naquela época.
A letra (“arranjei novo amor no Leblon/ que corpo bonito/ que pele morena/ que amor de pequena/ amar é tão bom...”) mostra os dois contando vantagem em suas conquistas amorosas. E se Copacabana era a “Princesinha do Mar”, o romântico bairro do Leblon era a “meca do sexo à milanesa”. No fim, ambos descobrem que falam da mesma garota, e concordam juntos que ela não pode ser “de ninguém”. A “Teresa” citada na letra, é claro, não é referência à esposa de Tom...
“Teresa da Praia” o transformou em compositor profissional. Logo, Jobim emprestava suas composições a dezenas de cantores e cantoras da Continental, de vários estilos, alguns conhecidos (Agostinho dos Santos, Sylvia Telles, Pery Ribeiro, Helena de Lima), outros nem tanto (Carlos Augusto, José Orlando, Sônia Dutra e Diana Montez). A maior parte dessa material (todos os fonogramas originalmente registrados em 78 rotações) foi compilada pela Revivendo, de Curitiba, especializada em catalogar gravações da Velha Guarda. Entre 1999 e 2000, a gravadora lançou em CD a caixa Raros Compassos, que revela o Tom Jobim antes da revolução da Bossa Nova, quando ele vivia no limiar entre a antiga e o “dolce stil nuovo” da MPB, sendo que ele seria, num espaço de quatro anos, o mentor dessa mudança.
Muitas das primeiras composições de Jobim (ate 1956) são totalmente “inéditas de sucesso”, como ele as catalogaria. Em sua totalidade, são parcerias com Newton Mendonça, Billy Blanco, Dolores Duran ou criações só dele. Como “Oficina”, cantado por Cauby Peixoto, “Sem Você”, com Carlos Augusto, e “Esquecendo Você”, com Ana Lúcia. Com Dolores, mais sucessos: “Por Causa de Você”, com Vera Lúcia ou “Estrada do Sol”, com Maria Helena Raposo. Dentro do gênero cheio dos chavões de fins de caso, corações partidos e solidões imensas, ele ainda era obrigado a resistir às inovações de suas músicas do “amor, do sorriso e da flor”. Jobim, que definia a Bossa Nova como mais “positiva”, mesmo não admitindo a antítese daquela música “de garçonniére” que tocava no rádio nos anos 50 e que vendia disco, sabia diferenciar os dois estilos muito bem, já que ele nasceu deles. Claro, também tinha consciência que era uma questão de sobrevivência. Não teria sucesso como compositor erudito ou instrumental, naquele tempo. Isso não quer dizer que houvesse qualquer demérito naquelas músicas - todas rescindem o talento de Tom. Mas demonstram que ele soube se adaptar perfeitamente.
Inéditas de sucesso
Com seu quase irmão, o pianista Newton Mendonça, ele podia escrever letras mais “modernas”. Apesar da parceria compreender poucas canções, todas são conhecidas, como “Desafinado” e “Meditação”. Morto em 1960, Mendonça, que era um homem reservado e que preferiu permanecer como pianista da noite, pôde ver o seu primeiro êxito como compositor na parceria com “Foi a Noite”. Com arranjo de Tom e regência de Léo Peracchi (já pela Odeon), faria sucesso na voz de Sylvinha Telles (arranjo de Peracchi, no melhor estilo Nelson Riddle), ganhando, depois inúmeros registros. Aloysio de Oliveira, que trabalhava com Jobim na gravadora, revelou que essa música seria o seu primeiro contato com a Bossa Nova. De tão “moderna”, “Foi a Noite” não teve catalogação definida. Podia ser um bolero, um samba-canção, um beguine. Helena de Lima (mais identificada com os sambas de Ataúlfo Alves), Osny Silva e Maria Helena Raposo também gravariam “Foi a Noite”.
A partir de então, Tom disseminaria com ligeira sutileza a sua Bossa Nova nos discos que produzia, com intérpretes que eram (definitivamente) o último grito do samba-canção. Muitos de seus números mundialmente conhecidos, como “O Grande Amor”, “Outra Vez” ou “Estrada Branca” (gravada por Sinatra, com arranjo de Eumir Deodato) quase sempre vinham à luz na voz de Mara e Cota, ou em versões instrumentais de Severino Araújo, entre outros. Mário Reis, velho cantor dos tempos da “Era do Rádio” e talvez um dos primeiros a cantar “baixinho”, também gravaria Jobim. Por outro lado, numa rápida olhada em Raros Compassos, podemos perceber que muita coisa “inédita de sucesso” ficou para trás. Algumas instrumentais, como “Domingo Sincopado”, “Coffee Delight” ou “Moonlight Daiquiri” dificilmente seriam atribuídas ao compositor. Outras são irreconhecíveis só pelo título: “Samba não é Brinquedo” (parceria com Luiz Bonfá), “Descendo o Morro” (com Billy Blanco), “Amor sem Adeus” (com Bonfá), por exemplo, ainda carecem de versões “modernas”.
Além das “inéditas de sucesso”, a maior parte de Raros Compassos é constituída de clássicos - gravados por diversos autores e com arranjos idem. Um exemplo é a instrumental de “Só em Teus Braços/Discussão”, com a veterana pianista Carolina Cardoso de Menezes, outra remanescente dos tempos da Velha Guarda. O grande “boom” de Tom Jobim é, sem dúvida, a música de Orfeu da Conceição. Compostas em parceria com Vinícius de Moraes, elas trariam o compositor ao estrelato. “A Felicidade”, “O Nosso Amor”, “Frevo de Orfeu”, todas ganhariam inúmeras versões em disco e inaugurariam a parceria com o Poetinha. Da pena de ambos, brotariam sucessos como “Por que tinha de Ser”, “Sem Você”, “Eu Sei que Vou Te Amar” e “Só Danço Samba”. Embaladas em arranjos pré-bossanovistas, elas mostram indubitavelmente o papel convincente que João Gilberto iria desempenhar, pouco tempo depois, ao se tornar o maior intérprete de Tom. Antes de João, a música jobiniana sequer parecia ser o que conhecemos hoje, e talvez não tivesse a projeção que teria com ele.
Pernada na era boleiral
Aquém do estilo intimista da Bossa Nova, em Raros Compassos podemos exemplificar versões incomuns de Roberto Paiva (outro veterano sambista, de voz baritonada) e o barítono Vicente Celestino cantando “Se Todos Fossem Iguais a Você”, Mara e Cota arranhando uma versão tenebrosa de “Eu Sei que Vou te Amar”, ou Isaurinha Garcia “berrando” “Meditação”. Outras fazem um vôo rasante na ainda imberbe Bossa Nova, como Claudette Soares com “Vivo Sonhando”, Ana Lúcia, com “Água de Beber” ou “Perdido nos Teus Olhos”, com Dick Farney. Porém, nada dava mostras do que o violão de João Gilberto seria capaz de fazer, ao se tratar de canções com a marca registrada de Jobim. Para se ter uma idéia, depois de João, tudo o que ele fez coube certinho no rótulo BN. De “S’Wonderful” (como brincava Jobim nas entrevistas, depois da versão de João Gilberto) na voz do violonista baiano, ou até mesmo “Querida”, um fox-trote que consta no último álbum de Tom, Antônio Brasileiro, de 1994.
Tudo, é claro, passaria pela certidão de nascimento da velha Bossa, nas faixas do antológico Canção do Amor Demais. Arranjado por Jobim, composto só com músicas da grife “Tom/Vinícius”, o melhor da dupla até então dava uma “pernada na era boleiral” (como disse Rogério Duprat) dos anos 50 e ganharia vida nova na voz clara e suave de Elizeth Cardoso. Entre elas, as belíssimas “Luciana”, “Serenata do Adeus” (só de Vinícius) “Caminho de Pedra”, “Eu Não Existo sem Você”. Na gravação de “Outra Vez” (só de Tom), o violão de João Gilberto se insurgia e a Bossa Nova agora alcançava a visibilidade necessária para dar uma guinada na carreira de Tom, de diretor artístico para o Papa do movimento. O maior exemplo dessa mudança estava em “Desafinado”. Composta em tom de galhofa com Newton Mendonça, ambos tentaram conseguir alguém que se habilitasse a registrá-la. Tom sugeriu presenteá-la ao então popular radialista César de Alencar que, mesmo não sendo cantor, faria sucesso com ela, dado a sua popularidade como homem de auditório e de multidões.
Newton Mendonça não gostou nada da sugestão - como se fosse uma tentativa desesperada ou “populista” de oferecer pérolas aos porcos, e a apresentou para Ivon Curi, que na época ainda tinha pinta de chansonieur francês. Ele a encheu de elogios, mas disse não. Numa última cartada, convidaram Lúcio Alves, Luís Cláudio e João Gilberto na casa de Tom, na Nascimento e Silva, a ouvi-la, e encontrar um intérprete definitivo.
Adivinhem quem a gravou?
Discografia:
Raros Compassos (volumes 1, 2 e 3). Vários. Revivendo, 1999-2000
Amor de Gente Moça. Sylvia Telles. EMI/Odeon, 1959-1995
Canção do Amor Demais. Elizeth Cardoso. Festa/Polydor, 1958
Chega de Saudade. Vários (coletânea feita por Ruy Castro). EMI, 1995 |