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24 de dezembro a 2004 a 8 de janeiro de 2005

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CATARSE PAULISTANA
Novos dramaturgos, resgate de autores, lei de fomento e fortalecimento de grupos revigoram teatro da capital
por Washington Calegari ( wocalegari@uol.com.br )

enômeno quase inevitável de fim de ano é a sedução pelas listas de melhores e dos piores. Ainda mais para jornalistas e críticos do que quer que seja. Para isso também existem os prêmios e coisa e tal. Mas o esforço é sempre válido, especialmente quando à viagem crítica e afetiva pelos espetáculos teatrais mais marcantes da temporada paulistana de 2004, por exemplo, se agrega um balanço da evolução do teatro como um todo, suas conquistas políticas, carências e o apoio do poder público. Nesse último ponto, há bons motivos para São Paulo respirar mais aliviada, com o anúncio do artista plástico Emanoel Araújo, atual presidente do Museu Afro-Brasileiro, para a Secretaria Municipal de Cultura da gestão José Serra. Araújo se mostra aberto a dar continuidade às políticas culturais que deram bons resultados no secretariado de Celso Frateschi, sob a gestão Marta Suplicy.

Entre essas políticas, certamente se destaca a Lei de Fomento ao Teatro, que tem sido, nos últimos três anos, fundamental para o fortalecimento de grupos e o surgimento de novas companhias - apoio historicamente decisivo no incentivo a propostas que, não necessariamente, sejam de caráter comercial, mas que proponham reflexões, abram espaço para o surgimento de novos nomes e, mais ainda, possibilitem um trabalho mais intenso de formação de público. Em todos esses aspectos, São Paulo tem o que celebrar. E o saldo da efervescência cultural só pode ser positivo, também, no que se refere à qualidade da produção.

Inovação

Trabalhos inovadores, seja na dramaturgia, na temática ou na direção, se destacaram em São Paulo em 2004. Agreste e Aldeotas são dois expoentes disso. Trazem, ambos, o sertão para os palcos, e exploram a força e ao mesmo tempo a fragilidade das linhas de valores que supostamente divisam universos e paixões. O primeiro espetáculo, indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2005 nas categorias autor (Newton Moreno), diretor (Marcio Aurélio) e ator (João Carlos Andreazza), constrói e desconstrói linguagens e cenários com recursos simples como seus personagens. Expõe a secura comunicativa e o desconhecimento do próprio corpo num casal em que a esposa, após a morte do marido, descobre que ele era, na verdade, uma mulher. Um amor movido pela ingenuidade, e a partir de então atormentado pelo preconceito da sociedade patriarcal nordestina.

Mais do que as indicações ao Shell 2005 - para autor e ator (Gero Camilo), direção (Cristiane Paoli-Quito) e iluminação (Marisa Bentivegna), Aldeotas tem em comum com Agreste a sensibilidade na costura das situações. Mas, dessa vez, o preconceito se quebra e se converte, de maneira desinibida, em horizontes mais promissores para a amizade e o amor. No texto, Levi e Elias se reencontram e desfiam suas recordações de infância na fictícia cidade de Coti das Fuças. Memórias degustadas de boca cheia e coração aberto, na descoberta de que a amizade reserva surpresas e pode sempre superar as diferenças.

O sertão também desembarcou na cidade em Tauromaquia, da Cia. Teatro Balangan, sob direção de Maria Thaís. Direção de arte primorosa, como lembra o crítico Sérgio Salvia Coelho, num jogo de luzes e figurinos que faz do ambiente rude e seco um protagonista, ao lado da exuberância e investidura dos intérpretes. Novos capítulos da vida sertaneja se alinham ainda no Oficina Uzyna Uzona, que fez temporada relâmpago dos três espetáculos surgidos até o momento da transposição para o teatro de Os Sertões, de Euclides da Cunha, e se concentra nos ensaios da quarta peça dessa empreitada, que deverá estrear em março.

Nascimentos e resgates

O Oficina abriu alas este ano, em espaço alternativo dentro do seu teatro, para o resgate de um importante dramaturgo nacional, Zé Vicente, numa montagem quase claustrofóbica de O Assalto - que rendeu elogios quase unânimes tanto aos intérpretes, Haroldo Ferrari e Fransérgio Araújo, quanto à direção de Marcelo Drummond. Para 2005, o grupo planeja montar o primeiro texto de Zé Vicente, Santidade. Jorge Andrade, grande nome do teatro paulistano nos anos 50 e 60, também teve sua obra revisitada, com a remontagem de A Vereda da Salvação no Espaço Galpão 5 e a leitura dos alunos da Escola de Artes Dramáticas da USP para Pedreira das Almas. Já Nelson Rodrigues, grande marco da moderna dramaturgia brasileira, com seu Vestido de Noiva, em 1943, não ficou de fora: A Falecida, A Serpente e O Beijo no Asfalto receberam novas montagens este ano.

Se os velhos autores são resgatados, os novos também cavam seus espaços. Mário Bortolotto (O Que Restou do Sagrado), Newton Moreno, Gero Camilo, Samir Yazbek (A Máscara do Imperador) e Luis Alberto de Abreu estão entre os que ganharam vulto nos anos recentes. Este último, vencedor do Prêmio Shell de melhor autor por Borandá, estreou também Eh, Turtuvia com sua Cia. Fraternal de Artes e Malas Artes, que, instalada na periferia de São Paulo, onde desenvolveu, por três anos, um trabalho de popularização do teatro, se consolida como companhia de sucesso no teatro narrativo e no estudo do imaginário popular brasileiro.

2004 foi ainda o ano do resgate de um importante momento do teatro, com o projeto comemorativo dos 50 anos do Arena - espaço atualmente sob ocupação da Cia. Livre, que promoveu ciclos de depoimentos e debates sobre o antológico grupo de mesmo nome e remontou Arena Conta Danton, um dos espetáculos mais criativos, vibrantes e povoado de talentos da temporada - em particular a direção e as criativas soluções cênicas de Cibele Forjaz e as performances viscerais do elenco.

Boas surpresas

A experimentação deu o tom de gratas surpresas deste ano, como as peças De 4, O Que Morreu Mas Não Deitou e Cacos de Vidro no Jardim Molhado - esta, construída em processo colaborativo, marca do Teatro da Vertigem. Grata surpresa também foi ver a outrora arrebatada Denise Stoklos fazer-se imóvel, em Olhos Recém-Nascidos, para dominar a cena apenas com sua expressão facial, sua voz, ironia e humor. Experimentar novamente da energia do Folias D’Arte, da premiada Otelo, em Nada Mais Foi Dito Nem Perguntado, pelo vigor de texto, direção e elenco na abordagem do universo judiciário. E degustar a sutileza e inteligência da direção de Renata Melo e a versatilidade dos atores, especialmente Cláudia Missura, em Turistas e Refugiados.

Por fim, o cinema visitou o teatro em Os Sete Afluentes do Rio Ota, de Robert Lepage, naquele que se sagrou um desbunde cinematográfico-teatral, encorpado por elenco primoroso, sob direção de Monique Gardenberg. Sete histórias, diferentes países, dezenas de personagens, alguns com trajetórias interligadas, abordadas com humor, lágrimas ou simplesmente silêncio. Retrato supra-teatral de uma época marcada pela guerra (as histórias se iniciam após o lançamento da bomba de Hiroshima) e de pessoas que, como bem lembrou o crítico teatral Michel Fernandes, se deparam com possibilidades diversas de “renascer das cinzas”.

Em tempo: a leitura do Oficina para O Assalto, texto que chegou a ser censurado pela ditadura militar, sobre a relação de um bancário que se apaixona pelo faxineiro do banco em que trabalha, ajudou a definir um fenômeno notável de 2004: as peças que abordam o homoerotismo abundaram. Inclusive qualitativamente. Foram mais de dez textos, muitos deles em cartaz simultaneamente, dentre os quais se destacam ainda Agreste, O Encontro das Águas, Transex (inspirada nos transexuais e travestis da Praça Roosevelt), e Galeria Metrópole, que fala da relutância de um senhor homossexual em ir à Parada Gay com a sobrinha lésbica.

A força que vem do Rio

Foi grande e boa a leva de espetáculos visitantes em 2004. E boa parte dos que vieram do Rio estão entre as melhores peças da temporada paulistana: Ensaio Hamlet, O Que Diz Molero, Veneza, A Aurora da Minha Vida e os musicais Missa dos Quilombos, Orlando Silva e Ópera do Malandro. Ensaio, sob direção de Enrique Diaz, ótimo exemplar de um teatro experimental que, além de virar Hamlet do avesso, investiga com grande criatividade o próprio fazer teatral. Molero, dirigido por Aderbal Freire-Filho (vencedor do Shell 2004 de melhor diretor no Rio), expressão do romance-em-cena que não distingue rubricas de falas e vomita, com perspicácia e competência, as desventuras de instigantes personagens. Já os três últimos espetáculos são releituras de textos e figuras consagrados da história brasileira, de grande apelo popular. Mantêm com louvor a tradição carioca na realização de musicais.

Já Veneza, do argentino Jorge Accame, premiada com o Shell 2004 de cenário e iluminação, deixou sua marca, para este jornalista, como a experiência teatral mais lúdica e emocionante do ano. Uma dona de bordel cega, interpretada por Laura Cardoso, sonha em reencontrar aquele que foi seu grande amor da juventude na famosa cidade italiana. E é para lá que parte a imaginação de todos na condução de uma bela história, na qual as fronteiras entre realidade e ficção inexistem, assim como aquelas que se imagina haver entre a vida e a arte. Para quem faz o teatro brasileiro, embora em cidades com São Paulo a situação esteja melhor, 2004 comprovou: ao menos para os que pretendem viver de teatro, essa tarefa ainda é, em si, uma verdadeira arte.