| O NÓ GÓRDIO DE OLIVER STONE
Ao invés do imperialismo contemporâneo, Alexandre prefere ser vítima do psicologismo moderno barato
por Marcel Nadale (
marcel@rabisco.com.br )

eza a lenda (e, em torno de Alexandre, tudo é lenda e a lenda é tudo) que, numa de suas jornadas de conquista, o macedônico encontrou um nó que tornara toda uma cidade perplexa. Dizia-se impossível desfazê-lo. Alexandre então puxou a espada e cortou-o em dois, num exemplo cabal de que os grandes gênios não pensam (ou precisam pensar) como as pessoas comuns. Gênio ou não, o diretor Oliver Stone também teve de desatar sua cota de nós górdios para trazer às telas a cinebiografia Alexandre , um projeto que, supostamente, sempre lhe foi muito querido há vários anos. Em primeiro lugar, porque o recorte sobre o personagem era complicadíssimo – uma vida intensa cujo pouco que se sabe provém de registros quase tão mitológicos quanto históricos. Segundo, porque a produção, sabia-se, seria muito dispendiosa. Terceiro, porque, quando a grana pintou, veio junto outro projeto similar, capitaneado por Baz Luhrmann, recém-afamado pelo sucesso de Moulin Rouge , e que traria Leonardo DiCaprio como protagonista.
Gênio ou não (e vão-se muitos anos desde Platoon ou Assassinos por Natureza ), Stone seguiu os passos de seu personagem-tema. Abriu a ferro e fogo seu próprio caminho. Rascunhou o roteiro com os próprios punhos e insistiu, mesmo diante da concorrência de Luhrmann, em um viés não tão comercial, que não omitiria a bissexualidade do conquistador. O resultado que chega aos cinemas brasileiros no dia 14 é controverso. A coragem de Stone evitou a assepsia que acometeu Tróia , esmagado pelo esforço apócrifo de Wolfgang Petersen de evitar tanto as referências mitológicas da Ilíada quanto as insinuações gays entre Aquiles e Pátroclo – uma farsa várias vezes denunciada nos paralelos que Alexandre traça em sua relação com Hefastion. No entanto, quando Alexandre não ocupa suas três horas e meia de projeção derramando sob a tela milhares de guerreiros em batalhas épicas, tentando esquizofrenicamente ser Tróia (que, por sua vez, queria ser O Senhor dos Anéis ), o que lhe resta é justamente e tão somente o amor devotado que liga o conquistador a seu general e colega de infância. Evidente, sim. Forte o suficiente para guiar a trama, não.
Biografias são presas fáceis para o escopo limitado de Hollywood. Entender um ídolo significa encaixá-lo, à força bruta, num molde de psicologismos viciados. E, se ele for grande demais, como Alexandre o era, para encaixar-se, então deve-se desmontá-lo, parte por parte, em esquetes espaçados e vazios, até trazê-lo à estatura do homem moderno e medíocre. Anthony Hopkins, como Ptolomeu, é o narrador da história, mas quem a tece, segundo o roteiro, é Olímpia, a personagem de Angelina Jolie. Poderosa, obstinada, manipuladora e opressora, a Olímpia de Alexandre é uma mãe judia digna de Woody Allen. Faz a cabeça do filho desde cedo: ele nasceu para ser o Sol que iluminará toda a humanidade. Para Alexandre, o pequeno, a mãe é um desígnio pesado com o qual literalmente compartilha a cama, enquanto o pai, o rei Felipe II (Val Kilmer), é uma figura distante, cujas exigências jamais podem ser alcançadas. E, assim, insidiosamente, eis que a mais banal e caquética fórmula para justificar uma tendência homossexual recua de Freud all the way até a Antiguidade Clássica.
Com sua psiquê devidamente estabelecida, Alexandre pode crescer até se tornar o lauto Colin Farrell, cuja paixão incompleta por Jared Leto o impele a buscar satisfações sempre vazias. A conquista do fim do mundo é subseqüente, um alento fugidio, porque o horizonte sempre lhe escapa mais além. A guerra é movida pelo amor. Não mais é um artifício sociológico coletivamente construído e analisado – um pecado inimiaginável para um diretor com uma filmografia como a de Stone. A guerra só ganha as verdadeiras cores do cineasta, por assim dizer, na última e mais sangrenta batalha de Alexandre, que ele perde. Algumas semanas depois, morre, não sem antes testemunhar o falecimento do seu amado Hefastion. A edição dá entender, mais uma vez, que estamos diante de um filme de amor.
Stone é autor de duas outras cinebiografias, JFK e Nixon , ambas sobre presidentes americanos. Se Alexandre for, como ele alega, um projeto realmente antigo, acalentado desde a infância, então é de se discutir se Nixon e Kennedy, em cujos mandatos houve enorme expansão imperialista dos EUA, eram reflexos piorados do sonho de Alexandre. Porque, se há um resquício de discussão política em Alexandre e que talvez justifique o desprezo temático pela abordagem do belicismo, é o da conquista não pela arma, mas pela cultura. Em tempos de Bush e Bin Laden, o filme reverbera a assimilação cultural, e não a xenofobia, como a condição para um mundo unificado – mas tudo, contraditoriamente, dentro da vigente falácia da conquista da paz pela guerra. Os nós górdios de Stone foram desatados, só que aí ficaram as pontas soltas de uma lógica que, tampouco quanto a paixão do macedônico, não consegue justificar a existência do filme. |