| COM O DISCO ARRANHADO
André Takeda deixa as referências pop de lado e decepciona com o ingênuo e repetitivo Cassino Hotel
por Fábio Freire (
fabio_fcosta@hotmail.com )

ara algumas pessoas, envelhecer não é um processo fácil, muito menos tão natural assim. Se ver como um adulto com responsabilidades e uma rotina quase sempre tediosa e massacrante significa deixar para trás mais do que simples festas, badalações e a irresponsabilidade segura do conforto da casa dos pais. Por tudo isso, fazer trinta anos não é apenas uma passagem, mas uma despedida lenta e confusa da juventude, da incerteza em relação ao futuro e, em alguns casos, dos próprios sonhos. Claro, a chegada das rugas e da calvície também não ajudam muito nessa complicada transição. A pressão do sucesso imposto pela sociedade só torna as coisas ainda piores. O medo se mistura à nostalgia e o vazio anda de mãos dadas com a melancolia.
Cassino Hotel (Ed. Rocco, 194 págs), novo romance do escritor gaúcho André Takeda, retrata exatamente esse universo. No dia do seu aniversário de 30 anos, o guitarrista João Pedro se olha no espelho e não se reconhece. Seu sonho de se tornar um rockstar ficou perdido em algum lugar no meio do caminho. Sua relação com os pais e os amigos de adolescência não existe mais. Agora, tudo que lhe resta é um caso mantido às escondidas com uma popstar filha de um famoso cantor sertanejo. Diante do vazio que lhe toma conta da alma, só resta a João Pedro voltar para sua terra natal, Porto Alegre, e enfrentar os fantasmas do passado: a morte da irmã, a traição do seu melhor amigo Matheus com sua namorada Letícia e o abismo sentimental que o separa do pai. Como cenário para esse acerto de contas, um hotel à beira da praia do Cassino e um navio encalhado bem no meio do mar.
Autor dos ótimos Clube dos Corações Solitários e sua continuação Quando Eu Tiver 64 , lançado apenas para download em seu site e também disponibilizado em forma de blog , André Takeda se arrisca mais uma vez no campo minado da literatura pop. A tarefa, cumprida com louvor nos trabalhos anteriores, aqui, se mostra um pouco mais árdua e não tão bem sucedida. Com uma premissa interessante, Takeda escreve um livro envolvente, ligeiro e agradável de se ler, mas peca por não desenvolver sua história a contento. Cassino Hotel parece escrito às pressas, sem o devido cuidado necessário para que o drama de João Pedro não soe superficial e forçado. E é exatamente isso que acontece.
Apesar de lermos o livro com interesse até o seu desfecho, o uso de alguns recursos narrativos dispensáveis só atesta a fragilidade da história. Algumas frases que encerram os capítulos são completamente desnecessárias e beiram o clichê. A utilização de um mecanismo metalingüístico (João Pedro lembra a todo instante que não passa de uma personagem de um livro) pode até parecer um diferencial, mas esbarra na falta de uma justificativa plausível para que seja inserido no texto. O ritmo do livro também é quebrado com uma ruptura temporal confusa e longa, já perto de seu final.
Outro problema é a ingenuidade da história. Tudo bem que o protagonista é imaturo e não sabe como agir, a não ser fugindo e se entregando às drogas (clichê básico), mas as personagens que o cercam agem de forma tão pré-fabricada que fica difícil acreditar que elas são pessoas e não estereótipos. Eis aqui mais um pórem: Takeda se entrega às fórmulas com uma facilidade embaraçosa e suas críticas ao mundo superficial e selvagem da fama e do jornalismo marrom se tornam artificiais, funcionando apenas como pano de fundo para uma trama que, no fim, se mostra tola.
Gravidez indesejada, cegueira, complexo de culpa e amor reprimido se misturam de tal forma que a sensação de estarmos diante de um dramalhão cresce a cada página lida. A repetição de determinados temas (filho em conflito com pai, o reencontro com um amor ferido do passado) parece nos mostrar que o autor é limitado em termos literários. João Pedro nada mais é do que um rascunho envelhecido de Eduardo Spitzer, vulgo Spit, espécie de alter-ego do autor e personagem de outros livros e textos do escritor e que, aqui, faz uma pequena e desnecessária participação especial.
Takeda pode até querer escrever de maneira autobiográfica, mas se nos seus romances anteriores isso era uma característica natural, em Cassino Hotel o escritor se mostra sem muito fôlego, beirando o autoplágio. Nem as referências pop presentes no livro são criativas. Melissa, a tal popstar , podia muito bem se chamar Sandy ou Wanessa. Tirando uma citação aos Rolling Stones aqui, outra ao filme A Fantástica Fábrica de Chocolates ali, Cassino Hotel é uma decepção para quem está buscando algo à altura de um Nick Hornby da vida ( Como Ser Legal, Um Grande Garoto, Alta Fidelidade ), por exemplo.
Se Clube dos Corações Solitários e Quando Eu Tiver 64 são livros emocionantes para serem apreciados ao som de uma bela canção de rock, em um dia chuvoso no qual o melhor a ser fazer é contemplar o nada, ou quando a nostalgia e melancolia chegam sem pedir licença, Cassino Hotel é apenas uma leitura corriqueira, agradável mas esquecível. E na velocidade do mundo pop de hoje, ser esquecível é quase pedir para ser deletado da memória. Como um LP arranhado perdido em uma estante qualquer.
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