| U2 DESARMA A BOMBA ATÔMICA
Como Bono conseguiu mais uma vez se reinventar em seu novo disco, um de seus trabalhos mais reflexivos
por Enéias Tavares (
eneiastavares@yahoo.com.br )

ue palavras você associaria ao U2, uma das maiores e melhores bandas de rock da atualidade? Engajamento político, paz mundial, perdão da dívida dos países subdesenvolvidos, conflito religioso na Irlanda do Norte... e a lista seria longa. Quando então Vertigo , o novo disco da banda irlandesa passou a se chamar How to Dismantle an Atomic Bomb todos pensaram que este seria um dos trabalhos mais políticos e pacifistas do grupo, lembrando o longínquo tempo do disco War e do hino “ Sunday Bloody Sunday” . Pois bem, todos pensaram errado. Em uma das primeiras entrevistas para divulgação do disco, Bono adianta: “Eu sou a bomba atômica do título”. A surpresa foi imediata quando milhares de fãs correram para as lojas no dia 22 de novembro para o grande lançamento do disco, pois Atomic Bomb é de longe um dos trabalhos mais introspectivos da banda de Dublin. Outro falso boato foi o de que o novo disco seria o mais hardcore da sua carreira, outra promessa não cumprida, à exceção de “ Vertigo ” e outras duas m ú sicas.
Depois de tudo isso, seria então o novo disco do U2 ruim? Uma promessa não cumprida? Pelo contrário, seguindo a linha do disco anterior, All That You Can't Leave Behind , esse é um álbum de grandes canções, grandes letras e grandes solos de guitarra. Sim, esse é um disco daquele grande rock and roll de que todos nós já estávamos com saudade, vide o parâmetro atual do cenário musical, tão longe da magnitude e da originalidade dos anos 80.
A m ú sica escolhida para dar início ao trabalho desse CD já prenuncia uma reviravolta, uma viagem, um entorpecimento, uma vertigem. Segundo Bono, no DVD promocional que acompanha o álbum, esse é o primeiro single da banda, o primeiro de todos, embora tenha levado mais de vinte anos para ser composto. A letra reforça as palavras do vocalista ao anunciar em um dos versos que “ They twinkle as the boys play rock and roll” (eles brilham enquanto os meninos brincam de rock and roll). No final da m ú sica, ao lado da guitarra selvagem e distorcida de Edge, Bono grita “Your love is teaching me” (seu amor está me ensinado), um verso roubado de “Beautiful Day” que expressa o quanto a banda e o vocalista nunca param de inovar, criar e aprender, como as outras faixas do cd deixam bem claro. “ Vertigo” é a m ú sica que vai certamente embalar o inicio dançante da próxima turnê do U2. Seguindo seu mesmo estilo seco e barulhento, temos ainda “ Love and Peace or Else” e “ All Because of You ”. A primeira tem toda a sua estrutura montada na bateria de Larry Mullen Jr, e é sobre abaixar as armas materiais e buscar a essência das coisas. Com alusões à Bíblia e aos atentados de 11 de setembro, a m ú sica termina com Bono perguntando “Where is the love?” (Onde está o amor?). Já “ All Because of You ” se enquadra naquela explicação de Bono que “basicamente, as letras do U2 são sobre Deus ou sobre mulher, ou às vezes sobre as duas coisas juntas...”. Mas nós não conseguimos perceber se Bono fala de Deus ou de sua esposa Ali, quando canta “All because of you ... I am” , (Tudo por causa de você... eu sou). Depois dessas três canções que realmente lembram a sonoridade crua dos primeiros discos do U2, o que temos a seguir é uma longa e sensível reflexão sobre dor, amor, ódio e perda.
“ Miracle Drug ”, a segunda faixa do CD, é sobre Aids e drogas, na opinião de Edge. A letra, no entanto, é mais sobre amor e desejo do que qualquer outra coisa. A m ú sica inicia com “I want to trip inside your head / Spend the day there... / To hear the things you haven't said” (Eu quero viajar dentro de sua cabeça / Passar o dia lá... / Ouvir as coisas que você não disse), para depois discorrer sobre o que seria a droga milagrosa do título. A seguir temos a grande balada deste lançamento, “ Sometimes You Can't Make It On Your Own ”, escrita por Bono para seu pai, morto de câncer ainda na turnê do grupo em 2001. Se “ Kite ”, do disco anterior, falava sobre não precisar dizer adeus, “ Sometimes ” é sobre não deixar ir embora, sobre estar ao lado de alguém que não está mais aqui. Em entrevista à revista Q Magazine , Bono revela que Bob Hewson, seu pai, era um homem fechado não muito dado a compartilhar seus sentimentos. Bono diz que os dois brigaram constantemente ao longo da vida. “Eu penso que no final tivemos paz”, ele diz. “Mas de um modo realmente irlandês. Nós éramos iguais em muitas coisas, dois homens sentados numa taverna e não falando um com o outro. Ele amava Shakespeare e então eu lia algumas peças para ele, antes dele pegar no sono, já na fase final da sua doença. Essa foi a maior compreensão que poderíamos ter, estar ao lado dele, naquele momento”. Questionado sobre do que mais sente falta com respeito a seu pai, o vocalista desabafa: “Às vezes eu esqueço que ele não está mais aqui. Eu quero chamá-lo. Há um mundo inteiro de perguntas que eu sempre quis lhe fazer e nunca fiz”. “ Sometimes ” é sobre tudo isso e sobre as coisas que não conseguimos fazer sozinhos, por mais individualistas que sejamos. Além disso, é uma grande m úsica , que começa como uma canção de ninar até se tornar um imenso furacão de guitarra, bateria, baixo e voz, como em todas as grandes baladas do U2.
As grandes m ú sicas sobre amor de How to Dismantle an Atomic Bomb são “ City Of Blinding Lights” e “ A Man And A Woman ”. Na primeira, uma das melhores do disco, a cidade é certamente Nova York, que mesmo sendo a cidade das luzes que a tudo ofuscam, não consegue esconder a mulher que “ see the beauty inside of me” (vê a beleza dentro de mim). A respeito de “ A Man and A Woman” , Bono diz que “ eu não posso lhe contar exatamente sobre o que essa canção fala. Há um caráter de desespero e confusão lá. Eu tremo quando a canto. Quer dizer, ela mexe com meus nervos”. Mas, depois, o cantor revela que a letra é basicamente sobre seu relacionamento com sua esposa. Bono a descreve como sua confidente, uma pessoa tranqüila e perspicaz. “Ela é”, segundo ele, “exatamente o meu oposto... Pessoas tentaram entender nosso matrimônio durante anos. É simples: relações precisam de administração e ela é uma ótima gerente”. “ A Man and A Woman ” é, musicalmente falando, uma das canções mais simples do disco, encerrando apenas com o baixo de Adan Clayton e o violão de Edge, somados à voz de Bono cantando o lindo verso “How can I hurt when I'm holding you?” (Como posso sofrer quando estou abraçando você?).
Antes do grande e reflexivo final, as últimas músicas são um pensamento sobre fé, aprendizado e juventude, respectivamente. “ Crumbs From Your Table ” discute a necessidade que temos, como São Tomé, de sinais materiais para sustentar nossa fé, que deve ser, essencialmente, imaterial. “ One Step Closer ” é sobre encruzilhadas e decisões, e sobre o quanto “viver” pode ser às vezes, um simples sinônimo de “aprender”. “ Original Of The Species ”, escrita por Bono para a filha adolescente de Edge, é um poema musicado sobre pais não dispostos a deixar seus filhos crescerem.
A última canção de How to Dismantle an Atomic Bomb chama-se “ Yahweh” , o nome de Deus no Velho Testamento. Essa oração, muito semelhante, a “ 40 ” (Salmo 40), do disco October , expressa toda a fé do vocalista ao pedir a Deus esperança, conhecimento e sabedoria. E acima de tudo, é uma prece pelo futuro de uma humanidade perdida e confusa. É a música que poderá encerrar os shows da nova turnê, seguida dos aleluias cantados por milhões de pessoas ao final de “ Walk On ”, canção que encerrou as apresentações do U2 na turnê Elevation .
Talvez a pergunta que fique sempre ao terminar de escutar qualquer disco do U2 seja: o que mais vem por ai? Bem, se o grupo mantiver a média, só poderemos saber a resposta em 2008, quando deve chegar às lojas o próximo disco. Enquanto isso, ficamos com o ótimo How to Dismantle na Atomic Bomb . Se Pop , de 1997, falava sobre perdição, com todos as suas nuances eletrônicas e confusas, e se All That You Can't Leave Behind , de 2000, falava sobre esperança, Atomic Bomb traz a história de um homem que aceita a passagem dos anos, dos amores e dos sonhos, e que aprende com isso. 
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