| FESTA NO APÊ
Lounge music é um estilo que não existe. Mas quem se importa?
por
Marcelo Xavier (
marcelo@rabisco.com.br )
 omo qualquer dicionário de inglês explica, lounge significa sala, sofá, espreguiçadeira, salão, divã. Dessa palavra nasceu algo que é mais um modismo do que uma tendência, a lounge music. Seria mais um universo sonoro de referências diversas, e de um ecletismo que remete à música produzia na década de 60. Ela também é chamada de música do tipo “easy listening”, ou seja, mais música para escutar do que para ouvir. Ouvir sem apuro, podemos dizer, como se fosse uma espécie de trilha sonora de um jantar ou de um idílio no sofá. Já a trilha sonora ideal pode ser desde os instrumentais de Tony Bennett ao jazz comercial e pasteurizado de Stan Getz e Walter Wanderley e Sérgio Mendes. De qualquer maneira, perca as esperanças: lounge music é um estilo que, na verdade, não existe. Como disse alguém, ele se presta mais à liturgia de certos grupos sociais que fetichizam a sua sociopatia de uma forma mais sofisticada, se afirmando ao reviverem esse universo onde tudo é retrô — algo muito comum na neo-belle époque japonesa, em importar e consumir os velhos ícones da cultura norte-americana, Elvis, Marylyn Monroe, o Twist, etc.
Para tanto, existem lounge clubs em várias partes do mundo, que se prestam à essa liturgia. Diferentemente dos “inferninhos”, nesses clubes a música fica mais alta, a iluminação em penumbra e nas paredes, pôsters de filmes B. Modismo? E se era para ser um modismo passageiro, tudo indica que vai demorar a passar. Mas para se ver que essa coisa de lounge music não é novidade. No tempo de Mozart, os músicos de corte eram obrigados a fazer música para a ceia dos aristocratas que lhes subvencionavam o leite do caçula. O “Pequeno Serão Musical”, do ilustre compositor vienense, é uma suíte para cordas concebida justamente para auxiliar na digestão da marquesa. O tempo passou, e não causaria qualquer estranheza à Mozart o fato de que a sua música atravessaria os séculos e ganharia o auxílio da tecnologia para que se produzissem CDs com seus concertos, utilizados justamente para o “easy listening” da aristocracia do Antigo Regime. Afinal, muita gente acredita que música instrumental não foi feita para ouvir, mas sim para escutar. E vamos e venhamos: não há nada mais lounge do que Mozart.
Volta e meia, espocam (re)lançamentos de artistas do passado, que evocam todo esse clima “trique-trique rolimã”. O fator curioso nisso é que não existe qualquer traço de saudosismo na lounge music. Para a maioria dos seus ouvintes involuntários, tudo não passa de novidade. E a maioria das pessoas que “escuta” ao invés de “ouvir” não vai estar muito preocupada com quem está tocando ou o que está sendo executado. E para esse público tão diverso quanto anacrônico, existem discos que servem para isso. Algo temático, como as modernas “festas do ridículo”. Não é preciso gostar de Sidney Magal para escutar Sidney Magal. O que vale é a liturgia da coisa. Um sofá, um Dry Martini (ou o famoso Samba , a saber, cachaça com Coca-Cola). Sobre lançamentos do “gênero”, a Capitol (subsidiária americana da EMI) editou uma caixa intitulada Ultra Lounge (com direito a capa com pele de oncinha e design art decó ) que pega esse universo num repertório de 12 CDs. Ali se encontram achados arqueológicos como Yma Sumac e Dean Martin, com direito a sintetizadores e cha-cha-chás. Por que não?
Falando em Martini, uma gravadora alternativa, a Rhino , contratacou com Cocktail Mix — Martini Madness , que faz um rescolta do chamado cancioneiro da turma do sofá. Aqui, descobre-se que não basta ser lounge: é preciso que seja bizarro. Connie Francis cantando “Deixa Isso prá Lá”(aquela que o rapper temporão Jair Rodrigues cantava fazendo gesto com a mão), “Soul Bossa Nova” com o maestro Quincy Jones, o obrigatório Walter Wanderley (também relançado pela EMI brasileira em edições originais agora digitalizadas) e Sérgio Mendes. Esses dois últimos, por sinal, acabaram criando uma geração de músicos que hoje reverenciam esse tipo de som instrumental, como o Les Johnson. Reunidos desde 1997, a banda (originalmente: Marcelo Fornazier na guitarra sintetizada, Jimi Joe na guitarra base, Régis Sam no baixo) amalgama o melhor (?) lounge trash brasileiro em algo realmente easy listening. Vale misturar Bossa Nova com Roberto Carlos, Oasis e Serge Gainsbourg (aquele da bagaceira “Je T'Aime...Moi Non Plus”). Os Johnsons estão lançando Festinhas na Sua Casa , fazendo a defesa da lounge. É difícil não gostar. Afinal, é para escutar, não para ouvir.
A culpa não é da música, e sim do ouvinte. Ninguém ouve música instrumental. A não ser que seja à moda lounge. O que não quer dizer que o estilo seja sempre de matriz instrumental, e vice-versa. Se existe algo de realmente interessante nessa onda de “música de apê”, é que a moda serviu para desencalhar os velhos discos dos nossos pais, e que curtiam coisas que por muito tempo foram relegadas ao ostracismo. De instrumental, podemos pegar Burt Bacharach. Multi-instrumentista e autor de vários sucessos durante os 60 e 70, hoje ele é tido como o Sumo Pontífice do “easy listening”. Exumado pelos filmes de Austin Powers, pelo Oasis e pela parceria com Elvis Costello, Bacharach ressurgiu tocando canções clássicas como “Reach Out For Me”, “Do You Know The Way To San Jose?”, “I Say a Little Prayer”, “Close To You” e “Alfie”. O compositor vale um idílio a dois, num sofá...
Abrindo a caixa de pandora do lounge, vale ir mais longe no saque à valiosa discoteca dos seus pais. Vale passar pelos dois primeiros discos do Johnny Rivers no Whisky a Go Go . Outro na linha instrumental, a tex-mex Herb Alpert & Tijuana Brass, antiga banda de mariachi , que misturava temas pop com uma sonoridade de regional mexicano, e que fez muito sucesso estilo Burt Bacharach só que gravando sucessos de outros compositores. Alpert chegou a ganhar vários Grammy com a sua versão de “A Taste Of Honey”, do disco Whipped Cream (1965), aquele cuja capa traz uma morena gostosona coberta em creme batido. Ainda hoje, a Tijuana Brass é mais conhecida dos operadores de rádio, que sempre utilizam os seus termas mais conhecidos como trilhas de programas radiofônicos, do que do público em geral.
Melhor, só o “easy listening” moderno, isto é, anacrônico. Como A Groovy Place , do Mike Flowers Pops, que tem a mesma proposta dos Johnsons, fazendo versões fora de kitsch para Doors, Prince e Oasis (quem não conhece aquela versão super cafona de “Wonderwall” com direito até a ranhura de vinil?). Outro que surfa na onda do lounge anacrônico é o James Taylor Quartet (não é aquele James Taylor que tocou no Rock In Rio), que mimetiza o clima sonoro de Bert Kaemperfert, justamente pelo appeal nostálgico do tempo do Grapete. Para tanto, o órgãozinho “jovem guarda” é sempre fundamental. Senão, escute a versão do JTQ para o clássico do Led Zepellin, “Whole Lotta Love” estilo Lalo Shinfrin.
Ainda na onda latin music , nada mais “easy listening” do que bolero. Direto da discoteca do papai, podemos encontrar a impagável Eydie Gormé com o Trio Los Panchos, capaz de arfar decotes à media luz, com os matadores “Amor, Amor, Amor”, “Sabor a Mi”, “La História de Un Amor” ou “Noche de Ronda”. Outra sonzeira latina que é capaz de ser cult e kitsch sem ser brega é Trini Lopez (onde andará Trini Lopez?). Artista de proa da febre de pop chicano dos anos 60 (Perez Prado, Esquivel), Lopez gravou pelo menos um disco que estourou no Brasil (além dos ao vivo no “P.J.”). Foi, justamente, The Latin Album . Lounge por lounge, para ouvir de rosto colado pérolas como “Perfídia”, “Piel Canela” e “El Reloj”. E, para finalizar, o mestre das gravações ao vivo “fake”, Chris Montez, que faz a metalinguística do couch music . Para quem anda tão fora de moda, nada como um feliz “estilo” de ocasião para exumá-lo. Qualquer coletânea de Montez serve, desde que tenha “The More I See You” e “Call Me”.
Lounge é um estilo que não existe. Questão de estilo. Mas quem se importa?  |