| ENTRE A VERDADE E O GLAMOUR
Quem entra e quem fica de fora da maior festa do cinema: o Oscar
por Fernando Américo (
feramerico@yahoo.com.br )
consenso hoje em dia a noção de que o Oscar não reconhece necessariamente os melhores filmes de um determinado ano; a qualidade é apenas uma das variáveis que determinam a escolha dos indicados e dos vencedores para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Vários cineastas e atores já ganharam prêmios como um reconhecimento pela carreira, apesar de seu trabalho indicado não ser o melhor de sua obra; e muitas vezes os filmes indicados são simplesmente aqueles que mais souberam se mostrar. Hoje em dia, sabe-se que, mais importante que fazer um bom filme, é mostrá-lo e fazer com que ele seja visto e comentado. Na era do marketing desenfreado, é quase impossível para um filme construir seu sucesso no boca-a-boca, e o fenômeno dos cult-movies não é mais que uma lembrança saudosa do cinema dos anos 80.
É com esta idéia em mente que devemos analisar os filmes indicados ao Oscar 2005, anunciados no último dia 25 de fevereiro. Vale lembrar que, com raras exceções, os filmes ainda não estrearam no Brasil; as conclusões deste artigo se baseiam no acompanhamento do que é falado sobre estes filmes no exterior, através de sites especializados, jornais e revistas. Portanto, o que vou tentar fazer é uma radiografia do hype (promoção, barulho, publicidade, burburinho) que estes filmes geraram, o que significa a inclusão de alguns deles e a exclusão de outros.
Em primeiro lugar, salta aos olhos na escolha dos indicados a obsessão dos americanos com os filmes “baseados em fatos reais”. Três dos indicados a melhor filme são na verdade biografias de pessoas de carne e osso: O Aviador conta a história da ascensão e queda do milionário Howard Hughes; Em Busca da Terra do Nunca investiga como o autor J.M. Barrie teria criado sua obra-prima Peter Pan ; e Ray é a história do cantor e compositor Ray Charles. Os três filmes tiveram seus atores principais indicados (respectivamente: Leonardo DiCaprio, Johnny Depp e Jamie Foxx). Outro dos indicados a melhor ator, Don Cheadle, também vive um personagem real: Paul Rusesabagina, um gerente de hotel que evitou a morte de milhares de compatriotas durante a guerra civil de Rwanda. Apenas Clint Eastwood foi indicado por um personagem totalmente fictício, em Menina de Ouro.
Esta obsessão americana com biografias e histórias reais não é nova; mas neste ano ela vem mais forte do que nunca. Pode-se apenas especular os motivos desta tendência; seria talvez uma “ressaca de fantasia”, após a vitória esmagadora de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei no ano passado? Ou seria uma necessidade de voltar à realidade depois que o presidente-cowboy Bush II levou os americanos a embarcar numa guerra por motivos fictícios? Nem uma coisa, nem outra. A verdade é que, se os americanos tivessem mesmo a necessidade de expurgar os fantasmas da guerra do Iraque, não teriam eleito Bush por mais quatro longos e excruciantes anos. E quem acredita que os filmes baseados em fatos reais realmente são fiéis à realidade deve estar esperando até hoje que resgatem o corpo de Leonardo DiCaprio dos destroços do Titanic.
Claro que um filme não é a vida real. Até para que seja possível fazer um filme de mais ou menos duas horas, é necessário abreviar, cortar, ou romancear fatos reais. Se o público aceita isso ou leva o filme ao pé da letra, é tema para outra discussão. O importante é que todos os personagens reais retratados este ano têm uma característica comum: são todos contraditórios, grandiosos, “maiores que a vida”. Howard Hughes foi um milionário empreendedor e combativo que morreu assombrado por inimigos invisíveis (os micróbios e bactérias que ele acreditava poderem contaminá-lo). J.M. Barrie escreveu uma obra monumental que fala sobre a necessidade de fantasia para escapar às durezas da realidade; e Ray Charles foi um dos maiores artistas americanos de todos os tempos, um gênio que teve que superar obstáculos terríveis (o preconceito contra sua raça e sua cegueira e o vício em heroína) para mostrar ao mundo sua música sublime.
E o mais importante: estão todos presos no passado, e não têm nada a ver com as questões atuais. Isto explica por que dois dos filmes mais polémicos do ano, Fahrenheit 11 de Setembro e A Paixão de Cristo , ficaram de fora dos principais prêmios. Ambos representam as duas faces antagônicas da vida americana: a luta liberal pelos direitos humanos, pela paz, pela verdade, e o rosto fundamentalista da América profunda, que foi ao cinema pela primeira vez para ver com os próprios olhos a violência, o sangue, a carne dilacerada de Cristo.
Evitando a polémica, Hollywood irmana estas duas forças opostas numa celebração do que a América tem de melhor: a força empreendedora do Americano. Não é à toa que O Aviador recebeu o maior número de indicações, 11 no total: é uma viagem ao passado de glórias da América e do cinema, feita pelo único grande diretor americano que ainda não tem um Oscar em sua estante – Martin Scorsese. E por incrível que pareça, O Aviador não é um projeto desenvolvido desde a sua origem pelo diretor; Scorsese aceitou dirigir o filme quase como uma encomenda. Ironicamente, Scorsese tem grandes chances de finalmente ganhar o Oscar por um trabalho que, ao contrário de suas obras-primas como Os Bons Companheiros, Taxi Driver e Touro Indomável , não é um projeto pelo qual ele tivesse paixão desde o início.
Mas nem tudo é marketing ou cortina de fumaça no Oscar; basta olhar para os indicados nas categorias de atuação para ver que a Academia vem se redimindo de seus pecados. Pela primeira vez, cinco performances de atores negros concorrem num único ano (Jamie Foxx por Ray e Colateral ; Don Cheadle e Sophie Okonedo por Hotel Rwanda ; e Morgan Freeman por Menina dos Sonhos ). A última vez que isso ocorreu foi em 2002, quando concorriam três atores (Will Smith por Ali , Denzel Washington, por Dia de Treinamento , e Hale Berry por A Última Ceia – estes dois últimos foram os vencedores de suas respectivas categorias). No caso de Jamie Foxx, alguns analistas dizem que ele já deve ter o seu discurso da vitória preparado; ele é uma das únicas apostas certas este ano por sua interpretação quase mediúnica de Ray Charles. E se forem confirmadas os boatos de que Morgan Freeman deve receber finalmente o Oscar quase como um prêmio de carreira, isto significa que, com uma diferença de apenas três anos, pode-se repetir o fato de dois negros vencerem o Oscar numa mesma cerimônia. Uma vitória contra o preconceito e uma mostra de que os negros não se conformam com apenas um representante em Hollywood, ao contrário dos anos 60, em que Sidney Poitier era quase um “embaixador” de sua raça, o único negro a ganhar um Oscar em mais de trinta anos.
Como também é uma vitória a indicação de Sideways – Entre Umas e Outras. Uma vitória do cinema independente, mas também uma prova de que uma comédia pode ter chances reais de ganhar um Oscar. Sem temas grandiosos, Entre Umas e Outras foi conquistando a crítica com a história de dois fracassados que embarcam numa viagem em que a regra principal é beber todas e mais algumas. Pode não ganhar muita coisa, mas o fato de receber cinco indicações entre as mais importantes significa muito e acena para um futuro onde a Academia vai se importar menos com visões maquiadas da realidade e vai se preocupar com o que realmente devia ser imprescindível: a qualidade e a bravura das histórias sendo contadas, verdadeiras ou não.  |