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29 de janeiro a 19 de fevereiro de 2005

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O PESO DA INTIMIDADE
Um doloroso ciclo regula quem está apenas perto ou Perto Demais na ciranda de casais de Mike Nichols
por Marcel Nadale ( marcel@rabisco.com.br )

conômico nas cenas, verborrágico nos diálogos, Perto Demais herda de sua origem teatral uma estrutura enxuta, com pouco mais de meia dúzia de longas cenas pivotais – que mais importaria em um relacionamento, se não fins e começos? É um mérito totalmente cinematográfico, contudo, que uma única delas, da representatividade quase carnal do ambiente até à voracidade das atuações, consiga sumarizar o amargo dilema que move seus quatro personagens. Dois deles – a stripper Alice e o médico Larry, ambos abandonados por seus cônjuges, que eram amantes – se encontram numa boate. Ele paga para que ela lhe realize uma dança sensual in private . O espectador pode inferir diversas motivações – desejo sexual, carência, revanche. Contanto que não a toque, ela não se opõe a lhe mostrar cada reentrância de seu corpo. Mas lhe nega o que, no fundo, ele mais deseja: confirmar seu nome. “Jane Jones”, ela repete, mesmo subornada por mais e mais libras. Do que mais necessitam, Larry e Alice (e Dan e Anna) mais evitam compartilhar um com o outro: aquela verdadeira intimidade de que o sexo é um vago simulacro, um substituto ineficaz, uma interpretação equivocada.

Neste sentido, Perto Demais é coerente porque age tal qual seus protagonistas. São 100 minutos em que devassamos os pontos principais da vida adulta de um quarteto em Londres – dois casais que, no espaço de quatro anos, trocam de parceiros entre si. No entanto, é uma intimidade tão voyeurística, artificial e mercantilizada quanto a de Larry na sala ovalada e acolchoada do strip de Alice. Pior: para nós, sequer há o consolo do sexo que, não obstante muito discutido, está, como os seios de Natalie Portman que só o inglês Clive Owen vê, escondido furtivamente nas rebarbas e recortes do diretor Mike Nichols. Dificilmente nos sentimos próximos do filme a ponto de nos deixar ser tocado, e, em vista de sua qualidade geral, esta é, de longe, sua maior virtude. É a evidência de que ainda existe um cinema adulto capaz de atingir seu público sem mirar no alvo mais escancarado: o coração (ou mesmo no baixo ventre, se é que importa).

Um filme que não mira no coração, no bom sentido da expressão, é aquele que não se sente compelido a justificar as ações de seus personagens para despertar a compaixão do espectador. Eles são como são, porque a natureza humana é estranha e, quanto mais egocêntrica, tanto mais tautológica. O ultra-atarefado Jude Law, que realizou praticamente seis filmes na última temporada, pode servir como parâmetro: o jornalista Dan é, em muito, a variante mais adulta de Alfie, seu personagem de Alfie, O Sedutor . Enquanto este detalhava, em declarações diretas para o público, cada passo de sua conquista da maturidade (e por maturidade, entenda-se uma concepção estrita de escolher uma única parceira e “casar”), Dan move-se em meandros inexpugnáveis, coisa mesmo dos piores canalhas (porque são aqueles que mais despertam nosso amor). E, assim, nos parece adulto porque comporta-se, no fundo, como uma criança insegura. Quem não é?

Dan e Anna (a fotógrafa de Julia Roberts) são, afinal, os “leões” da trama. São suas decisões de idas e vindas extraconjugais que a movem adiante. Julia assumiu a personagem depois que Cate Blanchett, escolha original de Nichols, teve de desistir do projeto por causa de sua gravidez. A bocuda se deu muito bem, porque confere um charme mais americano à fotógrafa do que Cate poderia e seu carisma nato equilibra o desprezo que suas ações eventualmente provocam – nem a mais recatada fã de Julia faria um esgar de nojo quando Anna tão naturalmente compara o sabor do sêmen de dois homens. É a mais complexa atuação da atriz em anos, sem dúvida.

Apenas Natalie Portman e Clive Owen, porém, foram reconhecidos no Globo de Ouro e na indicação ao Oscar. É inegável que o casal tem as melhores performances do filme (especialmente ela), mas de certa maneira há uma empatia provocada pela própria estrutura do roteiro. Ainda que não antagonize os casais, pelo contraste, Larry e Alice soam mais estáveis e dignamente apaixonados do que os volúveis Dan e Anna. A disparidade, enfim, talvez seja bem representada pela bem-sucedida tradução do título original do filme. O médico e a stripper simplesmente desejam ficar mais perto de seus amores. Mas, para Dan e Anna, qualquer indício de uma intimidade banal já seria insuportavelmente perto demais.