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29 de janeiro a 19 de fevereiro de 2005

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UM COITADO NA ROTA DE FUGA
Criado por Luis Alberto de Abreu, o esperto miserável João Teité brilha no Festival Cênico de Campinas
por Giselle Marques ( giselle.marques@uol.com.br )

teatro vive um surto de comédias, principalmente na região de Campinas, local em que a cultura teatral mais consumida ainda se resume aos cantinhos do bairro nobre Cambuí, onde se localiza o Centro de Convivência. A frase “Rir é o melhor remédio” tornou-se um clichê, mas há de se concordar: rir ainda é o melhor remédio. Melhor se for assistindo à peça bem construída O Anel de Magalão , tendo como personagem principal um pobre coitado e esperto miserável: João Teité.

Criado em 1993 para a peça Panturião , espetáculo que deu início ao Projeto de Comédia Popular Brasileira, o personagem João Teité foi feito pelo cérebro criativo de Luis Alberto de Abreu, vencedor do Prêmio Shell de Teatro em São Paulo de 2004 pela autoria de Borandá .

De 1993 até hoje, o criador de João Teité escreveu 12 espetáculos inicialmente dirigidos por Ednaldo Freire e encenados pela Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes. A inspiração fundamental para a criação de João Teité foi o Arlequim da Commedia Dell'Arte italiana. A Commedia inspirou todo o projeto de Comédia Popular Brasileira. A pesquisa teve o objetivo de buscar na cultura popular personagens correspondentes ao da comédia medieval/renascentista italiana. “É óbvio que ele e os outros dez personagens também foram construídos inspirados em personagens da nossa cultura, como Pedro Malazartes. João Teité é baseado na figura arquetípica popular do jovem tolo e sagaz que deu origem à linhagem de Arlequim, João Grilo e Macunaíma. Teité é palavra tupi que significa coitado”, conta Abreu.

Um coitado que encanta e faz rir por onde passa, João Teité foi representado no SESC Campinas pela jornalista e atriz Cecília Gomes, em 2004, na peça O Anel de Magalão , dirigida por José Tonezzi. O diretor de teatro Tonezzi foi um dos organizadores do Festival Cênico Rota de Fuga, que aconteceu em comemoração pelos 10 anos do Laboratório do Ator de Campinas. Com o sucesso do primeiro festival, ele tem tudo para dar o seu bis em 2005.

Na pele de Cecília Gomes, mais conhecida como Ciça, Teité ganhou vida e profundidade. Para quem conhece a pequena e discreta Ciça, a transformação no palco se torna ainda mais chocante. Assim que entra em cena, além do texto bem elaborado, a interpretação deixou muita gente de queixo caído e barriga doída de tanto rir!

“Ô vida difícil, ô bosta de rosca. Gente, tô num miserê, numa pindaíba, numa caipora que até parece coisa de urubu que desceu vôo, cagô, embrulhô, deu 30 nós, escondeu as duas pontas e enterrou no meu quintal em lugar onde num sei. Sai pra lá urubu que não foi ocê que me batizô. Ô vida amardiçoada, coisa nenhuma dá certo. Marruá, meu patrão português canguinha num me paga. Sorte eu num tenho, dinheiro eu num acho. Na minha vida poste é torto e até roda tem ponta. Mas quer saber? Eu cansei dessa vida torta, sem janela nem porta, sem parede nem esteio, sem princípio nem meio. Eu nasci foi pra brilhá! Sou bunito, charmoso, inteligente. Só me falta ser rico. E isso eu vou ser. Nem que tenha que... trabalhar” e então Teité cospe no chão com desprezo.

A fala inicial de Teité pode dar uma idéia de quem é o personagem, e a peça toda, mesmo longa e às vezes com o ritmo comprometido por uma ou outra atuação pouco convincente, não deixa a desejar. Integrante do Laboratório do Ator, que disponibilizou a escolha de textos de diversos autores de diferentes épocas, assim que Ciça Gomes leu a obra de Luis Alberto de Abreu, de quem é fã, ela se enxergou fazendo o personagem Teité com mais gosto do que qualquer outro que estivesse na peça. “Quando todo mundo testou os personagens e eu fui escolhida para fazer Teité, foi gratificante. Uma vez dado o papel, aí que você enxerga a responsabilidade”.

O texto de Teité é gigante, com muitas falas, “mas não é difícil” afirma Ciça. “Decorar é um trabalho muito menor do que é você estudar um personagem. O fato de eu fazer um personagem masculino é um trabalho muito maior. Decorar é a parte mais fácil. O legal do texto de Teité é que é muito rimado, ele sempre está brincando”.

Para o ator, todo personagem é uma forma de mudar a maneira como se vê e vive o mundo. “Você se sente na pele do outro. As pessoas gostam da peça por identificação, pois todo mundo acha ruim ter que trabalhar. Não vem com essa de que ‘eu adoro trabalhar'. Eu mesmo sou uma pessoa que trabalho pra caramba, mas se eu pudesse não fazer nada ia ser ótimo. Todo mundo tem isso na vida, de querer ter dinheiro, satisfação, aplacar a fome, ter seus bens e não trabalhar. Sair da exploração. O Teité, quando consegue subir na vida, vira um tirano como patrão dele, o Marruá. Ele sente o gosto de poder judiar do outro. São coisas inerentes ao ser humano, e ali na peça as cores são fortes. Por isso que tem graça, todos são caricatos”.

Ciça obteve boas críticas nos jornais da região e ela comenta qual o gosto do reconhecimento como atriz: “O barato do teatro é essa resposta. Eu investi na composição. Meu corpo está lá, tem que ser algo atrativo para o público e coerente com a mensagem que o autor quis passar, que o diretor quis passar e que você encontrou em tudo isso. Tem que ser um casamento harmonioso entre o que o autor quis dizer, o diretor compreendeu e os atores pegaram”.