| MONTANHA-RUSSA DOS SENTIDOS
White Stripes embaralha a visão e abala os ouvidos no videoclipe de seu maior sucesso, “Seven Nation Army”
por Nara Jardim (
nara_baiana@hotmail.com )

ntes de mais nada, certifique-se de não sofrer de labirintite ou qualquer enfermidade do gênero. Logo em seguida, afaste-se um pouco da tela e aumente o volume; agora sim, você está pronto para assistir a “Seven Nation Army”, do White Stripes. Muito mais do que um videoclipe, é uma viagem alucinógena de mensagens subliminares, onde todos os sentidos humanos são ativados, na mesma ordem que uma montanha-russa.
Na verdade, são pouquíssimas imagens que são utilizadas. Jack e Meg White aparecem tocando em closes diversos, moldurados por triângulos. A seqüência desses triângulos vai muito além da referência à capa do filme Laranja Mecânica : formam um túnel. Eles crescem e te atingem incessantemente, variando a velocidade, te obrigando inconscientemente a fixar o olhar no centro da tela, que é a origem dos triângulos. Nesse ponto, deixamos escapar várias imagens, já que o ponto é estabelecido exatamente para você não desviar e prolongar o túnel.
A banda, famosa por utilizar apenas preto, branco e vermelho, se aproveita dessas cores para fortalecer o jogo de luzes. Mesmo que a dupla não utilizasse somente essas três cores, no clipe não caberia outro colorido. O preto é o fundo em que destaca a dança do branco para o vermelho, que se alternam à medida que pretende nos atingir com a hipnose da imagem. O clipe começa com o preto e o branco: o vermelho vai ganhando destaque a partir do aumento de velocidade, intensidade e movimento das imagens. Jack White afirma que usa apenas e exatamente essas três cores por serem as primeiras captadas pelo olho humano. Sua utilização, portanto, remeteria às origens de processamento de imagens no cérebro de um bebê. Coincidência ou não, a união da dança das cores com as batidas de Meg White aludem às batidas do coração, que acelera como na queda da montanha-russa. Aliás, é neste instante do videoclipe que a sentimos, já que a rapidez da música e das imagens é tamanha que nos causa até tontura se assistirmos muito próximos da tela.
Na verdade, Seven Nation Army aqui é só mais um subterfúgio para capturar o telespectador pela audição; a música deixa de ser essencial no videoclipe, já que o desvario criado para a visão é tão denso que podemos senti-lo até mesmo sem o som (mesmo que não tão veementemente). O túnel, que em determinado refrão se transforma numa seqüência de meias-luas, voltando logo em seguida aos triângulos, aumenta de velocidade de tal forma que quase somos capazes de sentir o vento batendo no rosto, como quando estamos no carrinho da montanha-russa. Até mesmo olfato e paladar são afetados, quando entrecortamos a respiração e sentimos uma leve náusea com o trepidar das imagens.
Afinal, podemos até brincar de Piscou-Dançou, ao assistir Seven Nation Army por mais de uma vez, pois são muitas as imagens perdidas no túnel. Referências ao álbum da música, Elephant, ou à própria letra não importam; cada vez que assistirmos, será como ver pela primeira vez. Como uma volta na montanha russa, seguro no seu sofá: excitação, tontura, vertigem. Uma mescla dos sentidos. E uma contagiante vontade de ir de novo.
|