| GOLPES À BUKOWSKI
Apolítico e visceral, Pedro Juan Gutiérrez aborda o boxe como metáfora do dia-a-dia cubano em O Insaciável Homem-Aranha
por
Luiz Rebinski Jr (
jrrebinski@hotmail.com )
 ense em uma bela ilha, com mulatas esculturais, muito rum, alegria e música. Agora imagine uma cidade com casarões desmoronando, com pessoas famintas e onde a principal moeda de troca é o sexo, a prostituição. Este é o rico universo do escritor Pedro Juan Gutiérrez. Ah! A cidade? Claro, é Havana.
Cronista da decadência física e moral do povo cubano, Gutiérrez faz do hiper-realismo a tônica de sua literatura. Os personagens de seus livros são seus próprios hermanos; prostitutas, párias de todas as espécies, picaretas e velhos tarados sedentos por sexo. Em O Insaciável Homem-Aranha, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, o escritor segue o mesmo rumo da narrativa forte e suja de seus livros anteriores: Trilogia Suja de Havana (1999, contos), O Rei de Havana (2001, romance) e AnimalTtropical (2002, romance). Os “singelos” personagens descritos acima recheiam seus contos com muita bebedeira, trepadas memoráveis e diversas sacanagens.
O livro é de contos. Mas poderia muito bem se enquadrar no gênero novela. Isto porque Gutiérrez é o narrador-personagem de todas as histórias, o que dá ao livro certa unidade narrativa. Usando o boxe como tema principal, o autor desfere golpes poderosos já no primeiro conto do livro. Em “Silvia em N.Y.”, uma suposta namorada do escritor é estuprada por um negro no Central Park, nos Estados Unidos – é uma amostra de que seu repertório de historias libidinosas continua afiado.
Os ingredientes são os mesmos de sempre: muito sexo, muito rum barato, mulheres deliciosas e charutos vagabundos, pouca grana, pouca comida e nada de política. Gutiérrez é o maior crítico do regime cubano, sem sê-lo. Não! Pedro Juan não é engajado, muito menos panfletário. O que quer é apenas falar de seu povo, de sua situação e de seus sentimentos. É lógico que mesmo renegando a política, acaba sendo político. Porém, não toma partido sobre o regime do comandante Fidel. Apenas faz arte. Só.
De seu ex-ofício como jornalista, manteve o poder de síntese e a economia nas palavras. Alias, trabalho foi o que não faltou na vida do autor. Gutiérrez já vagou por uma miríade sem fim de subempregos. Foi cortador de cana, vendedor de sorvetes e jornais, instrutor de caiaque, trabalhador agrícola e soldado. A vida agitada lhe deu experiência para cunhar um estilo sujo e potente. Os textos curtos de O Insaciável Homem-Aranha tomam quem lê de assalto. A cada novo conto, o leitor se torna refém do autor e do mundo retratado ali. O malecón – calçadão mais famoso de Havana –, as lajes dos prédios em ruínas, as putas, os velhos heróis do boxe amador e os desvalidos a cada linha ficam mais próximos. Os contos de Gutiérrez são intimistas, particulares. Literalmente, um soco no estômago. Porém, para os desavisados, pode não ser lá muito agradável, pois a linguagem direta pode assustar.
A comparação com o norte-americano Charles Bukowski é, desde o surgimento de Pedro Juan, inevitável. Os textos autobiográficos, a economia nas palavras, as frases curtas e os temas do submundo aproximam o cubano do Velho Safado. Henry Miller é também outra comparação constante que Gutiérrez renega. O que de certa forma faz sentido. Ainda que o ceticismo de Gutiérrez esteja próximo do desajuste social de Bukowski, este último escrevia sobre outra sociedade, bem distante ideológica e culturalmente da retratada nos livros do caribenho. O Velho Safado experimentou a sarjeta, só que de maneira mais amena. Bukowski escolheu o podre e o sórdido, Pedro Juan Gutiérrez foi escolhido. O autor está também muito longe da tradição literária cubana representada essencialmente por seus conterrâneos famosos, Alejo Carpentier e José Lezama Lima. Gutiérrez, para falar a verdade, prefere ser comparado a Ernest Hemingway.
As coisas simples do cotidiano permeiam os contos do livro. Adquirir um sabonete ou um par de chinelos em Cuba é uma odisséia digna de ser retratada. O que se lê é o retrato de uma sociedade decomposta, de um povo que está faminto; quer seja por culpa do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos ou por causa do sistema socialista que começou a ruir após a suspensão da mesada da extinta União Soviética. Não importa. Nenhum personagem, seja ele real ou não, defende ou detrata o regime. Apenas lutam, fazem sexo e bebem. Vivem.
Alias, o sexo está em quase tudo que o autor escreve. Na contracapa da primeira edição de Trilogia Suja de Havana, o autor escreveu que “sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é um intercâmbio de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios e bactérias. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada”. A frase resume bem a relação e a postura de Gutiérrez diante do tema. É o olhar muito particular de um mestiço que vive em uma cidade onde meninas e rapazes fazem de tudo para tirar uns dólares dos endinheirados turistas que povoam a ilha.
A semelhança do cenário descrito nos contos de Gutiérrez com nosso país não é mera coincidência. Lá, assim como no Brasil, o povo é conhecido pela sua alegria, descontração e sensualidade. A salsa dançada pelas mestiças de lá equivale ao samba que serve de trilha sonora para o rebolado das mulatas daqui. A influência do candomblé, umbanda e outras religiões afro também é uma característica semelhante. Gutiérrez poderia ser brasileiro? Sim. Europeu, não. E, tal qual do lado de cá, o sol, os odores e sabores também fazem parte da prosa de Pedro Juan. As cores fortes e a maresia são reais na sua escrita. Só um homem dos trópicos poderia descrever com desenvoltura a paisagem e o cotidiano cubano.
O Insaciável Homem-Aranha, de Pedro Juan Guitiérrez. Companhia das Letras, 201 págs.
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