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19 de fevereiro a 12 de março de 2005

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CRIATIVIDADE COMO ARMA DE SOVREVIVÊNCIA
O Grupo Experimental de dança contemporânea dribla as dificuldades e se afirma como uma das companhias mais expressivas do Recife
por Conrado Falbo ( conradofalbo@yahoo.com.br )

carnaval de 2005 marcou os dez anos de um dos eventos mais bem sucedidos do ciclo das folias de fevereiro em Recife. O festival Rec-Beat começou em 1995, com a proposta de divulgar artistas da dita nova “cena” musical pernambucana através de shows realizados em pleno carnaval de Olinda. Em 1999, o festival foi transferido para a Rua da Moeda, no bairro do Recife Antigo, local que também abrigava o celebrado bar Pina de Copacabana, conhecido reduto de artistas e alternativos de todo gênero.

Nesses dez anos, o Rec-Beat consolidou-se como uma alternativa ao carnaval de rua tradicional na cidade. A proposta inicial, impulsionada pela explosão dos grupos do manguebeat, foi ampliada e as atrações locais passaram a ser intercaladas por apresentações de renome nacional, sempre privilegiando a novidade e o experimentalismo dos grupos convidados. Uma lista de quem já passou por lá não caberia num espaço como este, mas a quantidade e variedade de artistas nunca diluíram a qualidade do evento.

Este ano, nas noites do Domingo e da Terça de carnaval, a atenção do fiel e numeroso público do Pólo-Mangue (assim batizado pela prefeitura) foi desviada do palco principal para uma estrutura montada sobre as águas do Rio Capibaribe, em frente ao Cais da Alfândega. Pelo segundo ano consecutivo, o Grupo Experimental entrou em cena e contribuiu com mais um ingrediente na salada do carnaval do Rec-Beat: a dança contemporânea.

A mais recente criação do grupo, chamada Postais do Recife, saiu dos teatros para o meio da rua com uma estrutura de andaimes e madeira que percorreu praças, ruas e pátios na exploração da relação dos bailarinos com o cenário vivo da cidade. O espetáculo itinerante foi concebido dentro do projeto “O corpo na arquitetura”, que também contou com a realização do núcleo de formação em dança, oficina com alunos de escolas públicas da rede municipal durante o ano de 2004.

Foi justamente com este Postais do Recife que o Experimental aportou nas águas do Capibaribe para provar que o carnaval do Recife tem lugar para qualquer manifestação artística que realmente mereça esse título. As coreografias do espetáculo investigam ao limite a idéia do corpo como célula na construção da arquitetura da cena, o mesmo corpo que se vê submetido aos limites de estruturas externas e à paisagem urbana de concreto e gente. A trilha sonora foi composta especialmente para o espetáculo pelo músico Adriano Sargaço, integrante da banda Chá de Zabumba, utilizando também ruídos que, em certas passagens, confundem-se com os barulhos do ambiente. Projeções de imagens da cidade do Recife emolduram a ação, mostrando a cidade desde os seus tradicionais cartões postais até detalhes que passam despercebidos até para um transeunte mais atento.

Recife: fonte de inspiração

Em 2003, a companhia já completou dez anos de existência com uma temporada que incluiu quatro de suas principais coreografias. Zambo, espetáculo que teve sua estréia em 1997, foi inspirado no universo do movimento mangue e batizado em razão do pseudônimo “Charles Zambohead” utilizado por Chico Science, a coreografia remete à música, ao vestuário e aos trejeitos de palco tão peculiares do compositor. As referências à cultura pernambucana também estão presentes nas alfaias de maracatu (tocadas ao vivo) e na recriação de elementos tradicionais como o caboclinho e a capoeira.

A cidade do Recife e seus habitantes continuaram servindo de inspiração à criatividade inquieta da coreógrafa e diretora artística Mônica Lira e de seus colaboradores nos espetáculos Quincunce (2000) e Barro-Macaxeira (2001). O primeiro tem como tema o famoso Edifício Holiday, inaugurado na década de 60 nos arredores da praia de Boa Viagem, que marcou a paisagem da Zona Sul por sua arquitetura arrojada para a época: cena a cena, a passagem do tempo vai sendo reconstituída através das vivências da diversa gama de moradores dos 402 apartamentos do prédio.

Passando às áreas da periferia da Zona Norte, tomamos a conhecida linha de ônibus “Barro-Macaxeira”: o mote aqui é o humor, que tem como matéria-prima situações do cotidiano bem conhecidas dos usuários do sistema de transporte público urbano. Esta tríade de espetáculos consegue transcender as referências locais para construir uma movimentação excepcionalmente rica e capaz de estabelecer uma comunicação estética que vai muito além das fronteiras da cidade que lhe serviu de inspiração.

Com Lúmen (2002), a idéia foi projetar no palco um pouco do vasto mundo do cinema, utilizando recursos já familiares ao repertório do grupo como o vídeo (aqui, em projeções e captação de imagens ao vivo) e interações com a platéia, além de arneses para dança aérea e soluções de iluminação inusitadas.

O Grupo Experimental lida diariamente com as dificuldades práticas enfrentadas por qualquer artista que se proponha a desempenhar seu ofício num lugar a um só tempo cosmopolita e provinciano: de cultura exuberante, mas que não oferece condições para o desenvolvimento profissional merecido.

Sobreviver de arte nunca foi tarefa fácil: os bailarinos dividem seu tempo entre os ensaios e as aulas que ministram nos cursos de dança clássica e contemporânea oferecidos no Espaço Experimental, sede da companhia. Por aquele piso de linóleo já passaram bailarinos que hoje dançam em grandes companhias do Brasil e do exterior: partiram em busca de melhores condições de trabalho.

O âmbito de apresentações e, conseqüentemente, a divulgação do trabalho do grupo também é prejudicada pelo restrito e incerto orçamento. Ao sabor da boa vontade de patrocinadores e da burocracia das leis de incentivo à cultura, o principal circuito de turnês continua sendo Recife, algumas cidades do interior de Pernambuco e estados próximos. Convites para participação em festivais internacionais, como o Danza Nueva, em Lima, Peru, já tiveram que ser recusados devido a problemas financeiros.

Talento e garra são as duas únicas armas com que lutar contra essas adversidades. Se nem sempre as batalhas são ganhas, pelo menos algo de indelével fica gravado em cada expectador: a certeza da força da arte genuína.