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19 de fevereiro a 12 de março de 2005

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POR ONDE ANDARÁ BRAIN DE PALMA?
O herdeiro cinematográfico de Hitchcock ainda nos deve uma obra-prima da estatura de Vestida Para Matar
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

resposta à pergunta do título é relativamente fácil de responder. Segundo o site IMDB (Internet Movie Data Base) Brian de Palma está na Bulgária, procurando locações para seu novo filme, The Black Dhalia, baseado numa história (mais ou menos) real: o assassinato de uma aspirante a atriz na Hollywood dos anos 40. Mas a pergunta que não quer calar, é onde está o Brian de Palma de Carrie, Vestida para Matar, Dublê de Corpo e outras óperas sanguinolentas do cinema?

É verdade que Femme Fatale continha alguns elementos que nos faziam lembrar do De Palma dos velhos tempos; particularmente na cena em que Rebecca Romjin Stamos seduz uma mulher no banheiro, enquanto o diretor orquestra uma orgia de tramas e subtramas acontecendo ao mesmo tempo, usando suas marcas registradas: a câmera dividida e a montagem ao sabor de uma música grandiloquente. Mas Femme Fatale foi encarado pela crítica como uma brincadeira, uma gozação; ninguém entendeu que na verdade o filme é um poema, talvez o mais abstrato do diretor, um sonho, um conto de fadas recheado de traições e diálogos surrealistas.

Talvez este seja o grande problema de De Palma: ele nunca conseguiu superar o rótulo que a crítica lhe deu no início da carreira, de um sub-Hitchcock com tendências sádicas. Na verdade, Brian De Palma é um Hitchcock que passou do ponto; o que o suspense do mestre inglês tinha de concisão e elegância narrativa, De Palma extrapola com sangue, sexo e obsessão. Longe de ser uma fraqueza, esta é a grande força do diretor, que se especializou em ir aonde Hitchcock nunca ousou chegar.

A obssessão com Hitchcock pode ser observada pela primeira vez na obra de De Palma em Irmãs Diabólicas (Sisters, 1973). No filme, De Palma pegava como base a premissa de Festim Diabólico, de Hitchcock (onde um corpo é escondido num baú dentro de um apartamento onde se dá uma festa), misturava com uma história sombria sobre duas irmãs siamesas – que em matéria de exagero não ficava devendo nada para a novela Mulheres de Areia – e enfiava o pé na tábua. Mas a primeira obra-prima de De Palma seria mesmo Carrie, o primeiro filme importante baseado numa obra de Stephen King. O início é quase uma síntese de toda a obra de De Palma: num banheiro de colégio, garotas languidamente se banham, em câmera lenta, numa delicadeza digna de um quadro de Boticceli, quando de repente uma delas, a Carrie do título, tem a sua primeira menstruação. Sem entender o que está acontecendo, ela se desespera, para delírio das outras, que a detestam. A chorosa Carrie, o patinho feio da escola, é soterrada por uma montanha de absorventes íntimos. Este é o maior dom de De Palma; jogar com os gêneros cinematográficos de uma maneira que entontece o espectador. O que era delicado se torna brutal e vice-versa; os contrastes se opõem e se fundem numa mesma cena – talvez De Palma seja o cineasta mais barroco do cinema. A cena posterior do baile é emblemática desta sua tendência: depois de virar a rainha do baile de formatura, realizando seu sonho de conto-de fadas, Carrie recebe um banho de sangue de porco e se transforma numa Cinderela macabra, distribuindo vingança e terror a granel.

A obsessão de De Palma com Hitchcock atingiria seu ápice em Vestida Para Matar (Dressed to Kill, 1980). Mais que uma homenagem a Psicose, o filme é uma variação sobre o tema, como se De Palma pegasse uma “partitura” (o roteiro de Psicose) e começasse a “tocar a música” ao seu modo, brincando com as possibilidades narrativas de um clássico. Ele começa e termina com “cenas de banheiro”, mas a verdadeira cena análoga à morte de Janet Leigh no clássico de Hitchcock só acontece lá pelo meio do filme, num elevador. Como em Psicose, uma mulher que supostamente é a personagem principal morre sem explicações e somos jogados num frenesi de pistas falsas, travestismo, e duplas identidades. A genialidade de De Palma pode ser conferida numa longa sequência dentro de um museu, onde o personagem de Angie Dickinson persegue e é perseguida por um homem de óculos escuros. Eles flertam, e terminam a “dança do acasalamento” num táxi, num dos momentos mais eróticos do cinema, a mais hitchcockiana das cenas que Hitchcock nunca dirigiu. A sequência continua até o assassinato de Angie Dickinson, completando 23 minutos sem diálogos, em que De Palma nos faz passar por uma vasta gama de emoções, da ternura ao terror, um daqueles momentos que nos fazem pensar se o cinema não seria a mais superior de todas as artes.

Quatro anos depois, De Palma voltaria a fazer uma de suas “variações” sobre temas de Hitchcock, com Dublê de Corpo. Desta vez, ele faz um mix de Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, através da história de um homem que acredita ver o assassinato de uma mulher pela janela de seu apartamento. Nada é o que parece, e não vale a pena aqui estragar as surpresas do roteiro. O melhor é dar uma corrida rápida à locadora para conferir esta pérola, que, entre outros méritos, lançou definitivamente a carreira de Melanie Griffith – filha de uma das mais célebres louras geladas de Hitchcock, Tippi Hedren, aquela que enfrentava Os Pássaros.

Nos anos seguintes, De Palma faria alguns sucessos de bilheteria (o primeiro Missão Impossível), fracassos retumbantes (Síndrome de Caim, Olhos de Serpente, Missão a Marte), e até um quase-clássico (Os Intocáveis, que apesar de ser um bom filme, não chega aos pés de suas obras-primas). Mas estamos à espera daquele filme que nos vai fazer ficar sem fôlego diante de cenas como a já citada anteriormente em Vestida Para Matar. Descartado pela crítica como um diretor derivativo e pouco original, Brian De Palma é responsável por uma obra que, com o tempo, se mostra cada vez mais interessante. Nos tempos de hoje, em que Hollywood não se cansa de fazer continuações e remakes, as cópias xerox que De Palma fez de Hitchcock soam mais originais do que nunca.