| JUSTICEIRO E ELEKTRA
Um estudo sobre como o anti-heroísmo que mal cabe nos quadrinhos jamais teria chance de chegar aos cinemas
por Marcel Nadale (
marcel@rabisco.com.br )

s personagens Elektra e Justiceiro chegam aos fãs brasileiros de quadrinhos mensalmente na mesma revista: a Demolidor – O Homem sem Medo, editada pela Panini. Por coincidência ou ironia, agora eles também debutam praticamente juntos nas telas nacionais: Elektra está em cartaz desde a primeira quinzena de janeiro, enquanto O Justiceiro, depois de atrasos no lançamento, foi liberado diretamente em vídeo no começo de fevereiro. O destino menos glamouroso de Frank Castle foi definido pelo fracasso da fita nos EUA, mas Elektra também não está rendendo rios de dinheiro. Quem lê os quadrinhos e pôde conferir os filmes, sabe porquê.
Elektra e Justiceiro compartilham muito mais do que uma mesma revista ou mês de estréia. São párias dentro do universo de super-heróis da Marvel: não são super e tampouco heróis. Crias dos anos 80, a mesma década que viu florescer a persona grim ‘n’ gritty de Wolverine, Justiceiro e Elektra são duas violentas máquinas de matar, sem qualquer escrúpulo ou motivação nobre. A ninja Elektra é uma mercenária amoral, conforme retratado com exatidão no início de seu longa-metragem. Já Frank Castle parece impelido por vingança: criminosos chacinaram toda sua família.
Independente da mídia narrativa, sempre é difícil abordar o anti-heroísmo. Numa indústria viciada como a de quadrinhos, monopolizada pela estrutura conservadora dos super-heróis que só compreende o bem versus o mal, a tarefa se torna ainda mais complicada – à altura, exclusivamente, de poucos e talentosos escritores confortáveis com o gênero. Da mesma maneira, não são todos os leitores que se identificavam com o tom obscuro das tramas. Pouco público e roteiristas ruins costumam ser uma má combinação editorial: ao longo dos anos Justiceiro e Elektra não escaparam à sina das constantes reformulações, a maioria mal-fadada porque insistia em forçá-los na direção oposta de sua própria natureza. O constrangimento escorria das páginas; parecia visível até mesmo no rosto das figuras.
Este tipo de crise de identidade, por fim, custou a carreira de Elektra: à despeito do lobby da Fox, sua série regular foi cancelada nos EUA poucos meses antes do filme, no número 35, que a Panini deve publicar no Brasil em abril. O Justiceiro tem tido mais sorte. Depois de chegar a se tornar um “anjo”, na época em que o misticismo havia se tornado uma forte tendência nas HQs, disseminada pelo sucesso de Witchblade e Darkness, o personagem foi parar nas mãos do altamente perturbado e criativo Garth Ennis, que desconsiderou sem maiores explicações a baboseira prévia e reinstaurou Castle no doentio submundo do crime, misturando humor negro e muita violência.
O Garth Ennis de Elektra continua sendo, até hoje, o homem que a criou: o roteirista e desenhista Frank Miller, que a inseriu no universo do Demolidor em 1982, quando recauchutou o personagem. Conforme razoavelmente mostrado no filme do Homem sem Medo, lançado pela Fox em 2003, Demolidor e Elektra eram namorados, até que a garota perdeu o pai de maneira trágica. Em seguida, morreu nas mãos do vilão Mercenário, mas havia se tornado tão instantaneamente popular que foi ressuscitada. Tomada por um vazio existencial, Elektra passou a vender suas habilidades ninja como matadora de aluguel, conforme Miller expõe brilhantemente em Elektra: Assassina, graphic novel que a Panini planeja republicar ainda este mês.
Atente ao subtítulo da obra. Não se trata de Elektra: Namorada, ou Elektra: Heroína, ou Elektra:Tutora. A existência de Elektra é condicionada exclusivamente pelo que ela faz: é uma assassina. Não há nenhuma outra nuance em sua personalidade. Não possui qualquer profundidade emocional. O único laço afetivo que lhe restava, com Demolidor, rompeu-se depois que ela passou para o outro lado da lei. E, embora só trabalhe mediante pagamento, em suas histórias o dinheiro raramente é referendado. O conforto material que o dinheiro proporciona implica uma humanidade que, como tudo o mais, deporia contra aquilo que só os bons roteiristas percebem na personagem: ela transcendeu a figura humana para ganhar uma função simbólica. Elektra atua como um arquétipo, uma figura totêmica. Ela é, sumariamente, o espectro da Morte. Como sua vítima atesta no início do filme, quando ela está em seu encalço, não há como escapar. Daí que, em seus melhores momentos, no filme ou nos quadrinhos, Elektra é vista sempre como um vulto, uma aparição quase sobrenatural, indefectível, enigmática.
Um filme ideal sobre a personagem seria necessariamente narrado do ponto de vista do condenado à morte. Trazer Elektra para o centro da trama exige derrubá-la de seu plano mítico. No filme, ao recusar-se a cumprir um contrato que pede a eliminação de um pai solteiro e sua filha, a ninja passa de mercenária implacável, na primeira cena, a heroína, interesse amoroso e, pior, figura materna (um contra-senso até mesmo com a origem do nome na tragédia grega). Em todos esses outros papéis, Elektra é uma negação. Os diálogos e a atuação não convencem. Ao menos o contraste ajuda a fortalecer as cenas de luta – ainda que, para que haja uma “heroína”, são necessários “vilões”, e todos no filme são muito fracos. O conjunto final esbanja aquele mesmo constrangimento que havia nas páginas do gibi. Entre um extremo e outro, a personagem jamais se solidifica, o que decepciona também os espectadores que não a conheceram nos quadrinhos.
Já a falha elementar de O Justiceiro é acreditar que histórias devem ser contadas pelo começo. Ao contrário dos reais heróis da Marvel transpostos ao cinema, como Homem-Aranha, Hulk ou X-Men, Castle não possui nenhum poder espetacular e inverossímil cuja origem precisa ser explicada para se estabelecer o comprometimento do público. Nem mesmo sua motivação precisava ser explícita: é uma leitura equivocada do personagem. Assim como Elektra, Castle é traumatizado pela perda da família. Mas, como ela, há muito já não age por vingança – aliás, o próprio roteiro do filme afirma que suas ações não são uma vendeta particular. Ennis e outros escritores do gibi perceberam que, se fosse assim, a missão de Castle teria se encerrado com a morte daqueles que levaram sua esposa e filhos. Mas, para utilizar agora uma frase clássica extraída da HQ, desde então “a contagem de corpos continua aumentando”. O fato é que a missão de Castle ultrapasssa a fronteira da psicose. Na minissérie Nascido para Matar, Ennis até mesmo situa o apetite por destruição de Frank muito antes da chacina da família: ela supostamente havia nascido nos seus hábitos ditatoriais durante a Guerra do Vietnã. Numa perspectiva terrivelmente sombria, a minissérie se encerra indicando que, no fundo, Frank inconscientemente queria ver a família debaixo da terra, para ter a desculpa perfeita para continuar a liberar sua psicose em tempos de paz. O recado é claro: este é um homem que só sabe viver em guerra.
Para justificar a obsessão de Castle, o filme tenta substituir a psicose do personagem por um trauma ainda mais intenso. Na película, morrem não apenas sua esposa e filhos, mas também pai, mãe, primo, cunhado e tudo quanto é parente. Quando o primeiro terço da duração é reservado exclusivamente para mostrar quão cruel foi a chacina, já se entende qual rumo o diretor Jonathan Hensleigh pretende seguir: busca-se uma empatia para provar que, apesar de violento e fora da lei, Castle age de maneira cabível à situação. A aura de anti-herói é afugentada com toda a singularidade do personagem: ele agora é não mais diferente do que os protagonistas de uma porção de outros filmes policias de segunda categoria que ocupam o SuperCine – inverossímeis exércitos de um homem só dispostos a compensar a morte do parceiro, da esposa, do filho...
Da criatividade de Garth Ennis, os únicos elementos aproveitados foram os coadjuvantes “civis” Joan, Spacker Dave e Sr. Bumpo, moradores de um prédio abandonado para onde se muda o silencioso e emburrado Frank. Ninguém entendeu, contudo, que os três personagens não estavam no gibi para criar laços afetivos com Justiceiro, mas sim para adicionar uma mordaz dose de humor negro às histórias. Frank chega a matar um de seus rivais forçando o obeso Bumpo a sentar sobre seu rosto até asfixiá-lo. Joan não é um mulherão como Rebecca Romijn-Stamos, mas uma pacata garçonete violentada mais pela própria mediocridade do que pelos namorados.
Interessante notar que, enquanto o lançamento de Elektra nos cinemas foi acompanhado pela descrença oficial da Marvel no apelo da personagem, encerrando seu título regular, o de Justiceiro foi quase simultâneo à realocação da revista do personagem na linha Max, o selo adulto da editora, voltado apenas para maiores de 18 anos. Era a Marvel endossando a visão de Ennis sobre o personagem, garantindo-lhe ainda mais liberdade para suas tramas perturbadas e sanguinolentas. Amargando prejuízos cada vez maiores, a indústria de quadrinhos tem feito das tripas coração para provar-se um entretenimento não apenas para crianças. Quando permite que Elektra e O Justiceiro cheguem às telas com reduções drásticas no conceito de seus personagens, ela pode estar acariciando um público muito maior, mas perdendo a chance de propalar sua verdadeira maturidade a outro. Ao menos nisto, então, ambos os filmes são fiéis aos quadrinhos: parece que ninguém aprendeu nada com o vai-e-vém das reformulações marqueteiras.
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