| PAI E FILHO NA ESTRADA
Lobo Solitário, a obra prima dos mangás, é finalmente lançado como deveria no Brasil
por Darlon Carlos (
darloncarlos@yahoo.com.br)

epois da Segunda Guerra Mundial, o Japão caiu em desgraça. Para se ler uma revista em quadrinhos, ou de outro gênero, era preciso alugá-las em distantes lojas especializadas. Não se tinha dinheiro para distrações. O país tinha acabado de sair devastado de um combate e não estava do lado dos vencedores. Era alvo de intervenção, para não dizer invasão, de um país estrangeiro, com costumes e cultura diferentes.
O país do sol nascente nunca foi santo. É só perguntar aos chineses e aos coreanos, bem como às demais pátrias da Ásia, sobre suas investidas contra nacionalidades soberanas. Contudo, tiveram seu orgulho e costumes solapados. Ninguém gosta disso. Uma das formas que eles encontraram de manter sua visão de mundo foi através dos quadrinhos, lá chamados de mangás. Trata-se de uma arte tão levada a sério que foi fundado um curso onde se ensinam novos talentos as técnicas deste tipo de literatura. Um dos professores que ministram aulas lá é Kazuo Koike, um homem que escreveu uma das melhores histórias em quadrinhos daquele pós-guerra: Lobo Solitário, um mangá que tem arregimentado uma multidão de fãs ao longo dos anos,entre eles, Frank Miller, criador de Batman: O Cavaleiro das Trevas.
Lobo Solitário chega ao Brasil sob a tutela da editora Panini depois de longas discussões e uma demorada aprovação. Havia dúvidas sobre o tratamento adequado a esta obra-prima, que já foi lançada por aqui diversas vezes por várias editoras, sendo em todas elas interropida no meio do caminho. A Panini que mudar esta trágica sina e se comprometeu a lançar todos os volumes. Se for verdade, será um dos maiores feitos da nona arte no Brasil.
A história do samurai que é traído bandeando-se para o caminho dos ronins não é para crianças. Se você acha que vai encontrar personagens com olhos grandes e cara de neném, está muito enganado. Koike chamou para desenhar esta obra Goseki Kojima, que infelizmente faleceu em 1972. Kojima trata magistralmente cada quadrinho, dando a ele uma visão de cinema, uma façanha que revolucionou esta linguagem. Um de seus diretores preferidos era Akira Kurosawa, autor de clássicos do cinema de samurai como Ran e Rashomon.
Cada sombra, gesto, olhar, paisagem, personagem e vestimenta foi pesquisada para que fosse fiel à época do Japão feudal. Os diálogos são bem montados. A narrativa e frenética. O desenrolar da trama não é linear, fazendo com que o leitor fique sabendo do passado do personagem central com o tempo. Tudo está envolto em neblinas de suspense.
Algo que deve ser destacado é que Lobo Solitário foi lançado na década de setenta, quando o Japão ainda se levantava dos escombros e tentava mostrar ao mundo a força de sua ressurreição. Óbvio que os EUA investiram uma grande soma em dinheiro para que o país não caísse nas mãos da chamada “política vermelha”. Contudo, em um momento em que os quadrinhos aspiravam a visões futuristas, tanto Kojima como Koike optaram por olhar para trás, para o início de tudo, como se quisessem mostrar que tinham raízes e que elas eram valiosas para a formação do que viria a seguir para a nação.
Na revista, o ronin assassino leva o seu filho recém-nascido em suas missões – o único sobrevivente da chacina de sua família. Foi uma sacada incrível do autor: um homem calejado, com muitas morte em suas costas, levando uma criança pura e ingênua em um mundo cheio de falsidade. Os dois elementos juntos na mesma estrada: o passado, empurrando o carrinho de bebê, e o futuro, olhando para um novo país que se desenvolvia. Por estas e outras que Lobo Solitário tem mais a oferecer que mera distração.
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