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19 de fevereiro a 12 de março de 2005

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TRAGÉDIA DA VIDA MODERNA
Sam Mendes conseguiu em seu filme demonstrar que a ruptura familiar é apenas um aspecto para uma destruição ainda maior: a da própria sociedade
por Enéias Tavares ( eneiastavares@yahoo.com.br )

“Foi num desses dias, quando está prestes a nevar e há uma eletricidade no ar. Você quase pode ouvir. Certo? E este plástico estava simplesmente dançando para mim como uma criança chamando para brincar por quinze minutos. Foi quando entendi que havia essa vida toda por trás das coisas e essa incrível força benevolente que dizia não haver razão para nunca ter medo. Em vídeo, eu sei, não é a mesma coisa, mas ajuda a lembrar. Eu preciso lembrar. Às vezes, há tanta beleza no mundo! Penso que não vou suportar e meu coração parece que vai sucumbir.”

m determinado momento do filme Beleza Americana do diretor Sam Mendes, o personagem Ricky quase “recita” a passagem acima para sua namorada Jane. Essa é uma das mais tocantes cenas da película, que além de falar de amor, toca em assuntos muito delicados no modo de vida americano como sexo casual, pedofilia, drogas, homossexualismo, futilidade, amizade, dor, famílias despedaçadas, depressão, violência doméstica, e por fim, assassinato. Mas o que mais nos surpreende é o modo como todos nós nos identificamos com os temas propostos no filme, muito comuns até em nosso contexto brasileiro. Assim, além de Sam Mendes ter presenteado o mundo com uma das mais cínicas e verdadeiras representações da América contemporânea, ele também tece uma bela pintura da sociedade humana em geral, que perdeu o sentido de tudo, abandonada tragicamente na futilidade da sua existência. Assim nos é possível enumerar alguns elementos do filme que provocam o sentido do trágico, não do que era o conhecido no mundo antigo grego, mas da maneira que nós conhecemos. Afinal, existe algo mais catastrófico do que chegarmos ao final de uma vida e nos darmos conta de que nunca paramos para testemunhar a beleza de um saco plástico voando ao vento?

O primeiro elemento rapidamente reconhecível no filme de Sam Mendes é o sentido da vida na sociedade contemporânea. Que sentido é esse? Ou será que não existiria um significado? Os personagens de Beleza Americana representam bem isso, esse sentimento Pós-Moderno de não haver sentido em nada. Eles estão em conflito consigo mesmos e com o mundo a sua volta. O protagonista Lester Burnham (Kevin Spacey), não agüenta mais a si mesmo, a sua própria mediocridade. Esse é o estopim da sua saída do emprego seguro, de voltar a ser um garoto tentando conquistar sua primeira namorada, de começar a trabalhar em uma lancheria do tipo McDonalds, escutar Pink Floid e comprar um carro típico dos adolescentes rebeldes dos anos 70. Sua esposa Carolyn (Annette Bening) não suporta mais uma vida de fracassos comerciais e apenas sente-se livre quando começa a ter um caso com seu maior concorrente, “alguém que vende a todo momento uma imagem de sucesso”. A filha do casal, Jane (Thora Birch) tem pavor do próprio corpo ao passo que sua amiga Ângela (Mena Suvari) tem pavor da insignificância que assola os medíocres, sendo ela mesma a própria imagem da mediocridade. Seus vizinhos têm uma vida totalmente reprimida pela educação militar do marido, Coronel Fitts (Chis Cooper), que tem uma existência estéril e fria. O filho Ricky (Wes Bentley) vende drogas e finge ser o menino perfeito para seu pai violento e autoritário. Todos esses personagens têm suas vidas de uma forma ou outra interligadas, representando simbolicamente a família norte-americana atual, e também boa parte das famílias do mundo.

Num planeta em que os lares tornaram-se meramente postos de gasolina aonde as pessoas vão para se abastecer e para se lavar sem conhecer realmente quem são os seus familiares mais íntimos, o filme Beleza Americana monta um assustador perfil de nossa própria existência. Os amigos não estão mais dentro de casa, entre pais e filhos, mas entre estranhos, entre colegas, vizinhos e amantes. Na proposta do filme, a repressão dos desejos não significa disciplina ou organização, mas frustração, confusão, perdição. Lester é triste porque não faz o que quer. Carolyn é histérica porque não consegue vender uma imagem de sucesso e segurança. No caso do Coronel Fitts, essa repressão de desejos é ainda mais destrutiva, a ponto de fazê-lo matar a única testemunha dos seus desejos secretos. Todos esses elementos trágicos nos remetem a nossa própria vida, onde somos escravos não dos nossos desejos e sonhos, mas sim dos desejos e sonhos dos outros. Não é à toa que o único par de personagens bem resolvido do filme é um casal homossexual, que são os únicos realmente saudáveis, bonitos, e o mais importante, felizes, a ponto de levarem flores para seus novos vizinhos. Ângela, a Lolita do filme, é também um reflexo dessa dor de querer ser o que não tem coragem. No decorrer do filme, suas possíveis aventuras sexuais são enumeradas como prova da sua total entrega a seus desejos, para no fim, por medo ou por insegurança, revelar que ainda é virgem, assustada com a futura perda da sua própria pureza. Quando os personagens se dão conta, ou sofrem essa revelação da importância de mudarem as suas vidas antes de seu derradeiro fim, é que começam a viver, a amar, a se entregar. Ou seja, eles começam a perceber que não irão durar para sempre, idéia que remete até o final quando Lester morre sorridente, contente, pois pela primeira vez pode responder um “Eu estou muito bem”, de um modo sincero e verdadeiro.

O tema do desprendimento, da libertação da prisão em que o mundo se transformou não é novo. Desde sempre o homem desejou a realização de todos os seus desejos. Como isso nunca é possível, ele está eternamente insatisfeito, incompleto e triste. Se acrescentarmos a isso os elementos do mundo atual, um mundo construído e mantido por um sentimento de consumismo canibal, começamos a entender o porquê da identificação quase imediata que temos com os personagens do filme.

Ricky é outra figura interessantíssima por retratar uma juventude que questiona e faz e pensa e sente e fala e anda e vive intensamente em mesma proporção. É ele que a princípio incentiva Lester a mudar, a sair da rotina, a experimentar o novo, ou o velho, o prazer sem perigos ou preocupações que ele tinha quando era jovem, representado pela maconha. Esses jovens auto-suficientes mais espertos que seus pais, mais viscerais que a geração anterior são um espelho dos jovens da era da informática que sabem tudo, embora não saibam seu papel nesse mundo de muitas informações e poucas sensações. Particularmente, Ricky é um personagem fundamental na trama do filme. É ele que revela, que explica, que faz com os outros percebam a vida. Lester volta a ser jovem. Jane descobre que é bela, longe de ser comum, como sua amiga Ângela. E por fim, seu pai militar descobre que deseja um homem, ao ver representado no filho o garoto de programa que faz tudo por dinheiro.

Outros dois detalhes importantes na caracterização do filme são as flores, especialmente as rosas, e também as fotos. Primeiramente as flores marcam a chegada da primavera, que é o eterno símbolo da juventude. Lester sempre vê rosas quando sonha com Ângela, pois representa em sua vida o retorno da paixão, da adolescência, do desejo. Um bom exemplo dessa beleza visual, já aparece no cartaz, que mostra a personagem Ângela, nua, deitada em um teto de rosas. Essa é a representação máxima do amor redescoberto, aquele que retornou para mudar a vida de Lester e também dos outros personagens.

Em segundo lugar, as fotos, relembram ao expectador a felicidade inicial dos protagonistas. Uma felicidade familiar quase palpável, representada em fotos monocromáticas e também nas memórias do protagonista no emblemático final. No decorrer dos anos, essa felicidade morreu, foi embora, mudando a vida das personagens. É como se eles estivessem enterrados na rotina, nos dias cheios de música de elevador e de comidas sem tempero. A vida, que antes era cheia de êxtase e felicidade, por fim se tornou uma vida meramente de aparências, de pais que fingem interesse por seus filhos e de filhos que fingem querer não ter pais.

Em um mundo assim, não é permitido sermos tristes, ou chorarmos. Carolyn se recusa a chorar, a sofrer, se punindo como se as lágrimas fossem sinal de fraqueza ou amargura. A grande importância que ela dá as coisas, materiais ou simplesmente simbólicas, demonstra essa preocupação excessiva com os objetos inanimados, em detrimento das pessoas. Para Carolyn, seu sofá vale mais do que uma possível reaproximação com seu marido. A mãe de Ricky é um belo exemplo dessa passividade feminina e doméstica. Se a trocassem por um robô, não faria a mínima diferença. O fato dela não saber que seu filho não gosta de Bacon e de se desculpar pela bagunça de uma casa impecavelmente arrumada refletem essa total indiferença do ser humano que não precisar mais pensar ou sentir, apenas fazer.

A revelação do filme se dá quando eles percebem que nunca conseguirão satisfazer todos desejos dos outros, e o quanto isso resultará em infelicidade para si próprios. A cena em que Ricky confessa ser garoto de programa, mesmo sem nunca ter vendido seu corpo, é uma das provas desse desprendimento da casa, do mundo e dos outros. Seu pai o acusa e o espanca, então ele dá a seu pai exatamente o que ele quer. Lester, durante todo o filme busca esse desprendimento, bem como sua filha, Jane. O dinheiro economizado para uma futura cirurgia de correção puramente estética, é usado para fugir do mundo atrás de si com o namorado e recomeçar uma nova vida. O destino de Lester, causa-nos pena e medo, por representar, conscientemente ou não, as nossas próprias realizações e o nosso próprio destino. Não choramos por sua morte, mas choramos por sua vida perdida, recuperada nos últimos dias da sua existência. Choramos por nossas vidas perdidas ao buscar títulos, reconhecimento, segurança e coisas materiais.

Assim fica a pergunta: Quem não se reconhece ao ver o filme de Sam Mendes? Quem não se sente um pouco incomodado com algumas situações mostradas no filme, profundamente reconhecíveis na vida particular? Quem não gostaria de ter a coragem de Lester, de mudar o próprio mundo privado sem prestar atenção aos outros? No entanto, acabamos nos reprimindo cada vez mais ao nos prender às convenções e às pretensões dos nossos amigos e familiares. Ou como bem assinalou o autor tcheco Milan Kundera, na sua obra a Insustentável Leveza do Ser, “procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade”.