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19 de fevereiro a 12 de março de 2005

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VICE NÃO VALE NADA?
Livro retrata a dor dos jogadores brasileiros na derrota da Copa do Mundo de 1950
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

São 34 minutos do segundo tempo e o Brasil empata com o Uruguai em 1x1. O resultado garante o primeiro título mundial à seleção brasileira, dentro de um Maracanã lotado por cerca de 200 mil torcedores. Mas o imponderável estaria para ocorrer. O ponta-direita Ghiggia avança como um bólido até a linha de fundo. Não há cobertura, nenhum zagueiro se aproxima a tempo para dar combate. Na entrada da pequena área o atacante uruguaio chuta. A bola passa entre a trave esquerda e o goleiro Barbosa: 2x1 para o Uruguai, campeão mundial de futebol. O lance aconteceu em 16 de julho de 1950: o dia que o Brasil ficou adulto “sem querer”.

Essa expressão citada pelo escritor Carlos Heitor Cony está no livro Dossiê 50: os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro (Editora Objetiva), feito por Geneton Moraes Neto, lançado em 2000, para “comemorar” a lembrança daquela data fatídica. A frase de Cony retrata bem como a derrota foi encarada na época. Só quem esteve lá pôde sentir a dura e amarga dor do fracasso. O Maracanã emudeceu, num silêncio mencionado por todos como algo grandioso, numa desconsolação geral diante do improvável. Mas ao ler a obra é possível sentir nas palavras a tristeza e a melancolia daqueles onze “anti-heróis” que vivem até hoje com o peso do vice-campeonato em um país onde isso costuma não valer nada.

Perder o título em casa, com toda a torcida a favor, como foi possível? Ainda mais um time como aquele do Brasil, repleto de craques, que dava aula de futebol nas partidas. O time que entrou em campo no último jogo foi: Barbosa no gol, Augusto e Juvenal na defesa, Bauer, Danilo e Bigode no meio e, na frente, Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto e Chico, comandados por Flávio Costa. O Brasil era uma máquina da bola, venceu o México por 4x0 na estréia, empatou em São Paulo em 2x2 com a Suíça, mas se recuperou e passou pela Iugoslávia por 2x0. Na fase final, com 4 equipes a jogar entre si, o Brasil passou como um trator por cima da Suécia (7x1) e da Espanha (6x1), o que tornava necessário apenas um empate na finalíssima contra os uruguaios. Mas, não se contava com a surpresa e ela apareceu.

Porquê?

Para tentar entender o que aconteceu naquele 16 de julho, comparado pelo escritor Nelson Rodrigues à catástrofe da bomba atômica em Hiroshima (Japão), Geneton Neto entrevistou os onze atletas brasileiros que estiveram em campo naquele dia, mais o treinador. São diversas as hipóteses levantadas pelos atores daquela tarde de domingo: mudança do local da concentração dois dias antes da final, visita de políticos na concentração até no dia do jogo, excesso de confiança, falta de medo, a lenda do ônibus quebrado a caminho do Maracanã, a recomendação do técnico para não “chegar duro” no adversário, a falta de cobertura ao zagueiro Bigode, a “falha” de Barbosa, a gritaria do capitão do Uruguai, Obdúlio Varella, que teria inibido os brasileiros. Enfim, as desculpas são muitas e quando elas o são, é porque não tem o que explicar.

O que fica, além da busca por uma resposta que justifique o fato do Uruguai ter sido melhor que o Brasil naquele dia, são as histórias de cada atleta, como viveu aquele momento, sua expectativa em ser o campeão mundial dentro do seu país e como aquela perda refletiu em sua vida anos a fio, pesadelos, tristezas, raiva, desilusões. Os depoimentos contêm repetições no decorrer do livro, o que dá a sensação de já ter lido sobre. Mesmo com esse problema, eles são ricos em dor e sofrimento, numa demonstração do que aquele título significava para o Brasil. A história mais famosa é a do goleiro Barbosa, marcado para todo o sempre pelo segundo gol tomado na final. Ele morreu amargurado em 2000, depois de carregar esse fardo pesado como o grande culpado pela derrota.

A “maior tragédia do futebol brasileiro” em 1950 – que fez a seleção mudar de uniforme dali para frente, abandonando a camisa branca pela “amarelinha”, tão conhecida hoje – serviu como bela semente que germinou o esplendoroso futebol tupiniquim, hoje pentacampeão do mundo, que pouco sente em sua geração atual, a falta daquele título. Mas quem viveu aquele dia esperando a vitória e recebendo a derrota, principalmente os homens que estiveram em campo, jamais esquecerão a decepção e o silêncio do Maracanã. Foi na dor que nosso futebol aprendeu a crescer.