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19 de fevereiro a 12 de março de 2005

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VINGANÇA ENFADONHA
Tony Scott usa e abusa de todas as piruetas e trucagens cinematográficas, conseguindo transformar Chamas da Vingança em um teste de paciência
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

ingança é um prato que se come frio. O cinema que o diga. Hollywood, então, é cada vez mais movida pela vingança, que anda coladinha com a justiça feita pelas próprias mãos. Tudo em nome do velho maniqueísmo do bem vencendo o mal. Entenda-se por bem o que os produtores querem que você entenda como tal, não importando se esse “bem” é uma quadrilha de assaltantes de banco, uma assassina de aluguel ou um pai em busca de diminuir sua dor. A partir daí, só resta ao espectador sofrer uma verdadeira lavagem cerebral, assistindo ao prato da vingança da vez sendo empurrado goela abaixo.

Seja em produções de baixa qualidade ou em filmes com o respaldo de um Oscar, por exemplo, não é nada difícil achar longas que abordem a temática. O cultuado Quentin Tarantino escolhei a vingança para seu triunfal retorno em Kill Bill. Uma Thurman se vestiu de noiva, partiu para o ataque e fez a tela jorrar sangue. Sean Penn ganhou prêmios e mais prêmios como o pai que procura o assassino de sua filha em Sobre Meninos e Lobos. Jack Nicholson e Tom Wilkinson fizeram o mesmo em Acerto Final e Entre Quatro Paredes, respectivamente. Charles Bronsan fez a festa em meados da década de 1980 com a série Desejo de Matar, que praticamente estabeleceu os clichês que seriam explorados à exaustão posteriormente.

Regra número um: vingança que é vingança é solitária. Daí “clássicos” como Comando Para Matar, no qual um musculoso e descerebrado Arnold Schwarzenegger mata quem encontra pela frente para salvar sua filha de um seqüestro. Regra número dois: vingança que é vingança é violenta, muito violenta. Não adianta apenas matar. Tem que fazer o “mal” sofrer. E saber porque está sofrendo, claro. Caso contrário, não tem graça. Não é acerto de contas. Que o digam os Jean Claude Van-Damme, Chuck Norris e Dolph Lundgreen da vida, verdadeiros experts na arte da vingança. Sylvester Stallone também aprontou das suas. Até Clint Eastwood, que hoje faz posse de diretor sério, já matou muito criminoso em nome da “justiça”. A vingança também serve de mote para filmes de tribunal, vide as produções Tempo de Matar, Fantasmas do Passado e Sleepers. A Vingança Adormecida. Adrian Lyne é um que gosta de usar a vingança mesclada a um toque de romance e traição, como em Atração Fatal e, mais recente, Infidelidade. Até as histórias em quadrinhos se utilizam do mote. Heróis como Batman e o Justiceiro nasceram para vingar a morte de seus familiares e suas adaptações cinematográficas retratam bem isso.

Agora, por mais que alguns desses filmes gerem uma discussão e incentivem um debate, a grande maioria aponta a vingança como a solução de todos os problemas. Um exemplo é o último filme do diretor Tony Scott, Chamas da Vingança, que acaba de ser lançado em vídeo. A trama batida é embalada em uma roupagem modernosa, com fotografia estilizada (chupada de Falcão Negro em Perigo, dirigido pelo irmão de Tony, Ridley Scott), edição vertiginosa e uma câmera trêmula que dá nos nervos de qualquer mortal, mesmo os acostumados às trucagens da MTV.

O mais engraçado é que nem a estética de propaganda, nem os recursos de edição conseguem esconder a origem da história: os anos 80 e seus acéfalos filmes de ação. Se Chamas da Vingança tivesse sido filmado há 20 anos, como planejado (o roteiro do filme vagava pelo limbo das gavetas dos produtores desde o início da década de 1980), ele seria estrelado por um brutamontes qualquer. Mas Schwarzenegger resolveu virar político e Stallone, astro de filmes “direto para o vídeo”. Como só agora a produção viu a luz no fim do túnel, Chamas da Vingança caiu nas mãos do quase sempre talentoso Denzel Washington (que desde o Oscar por Dia de Treinamento tenta a todo custo jogar sua reputação na lama).

Sintam o drama da história. Denzel Washington “interpreta” um ex-alguma coisa traumatizado e infeliz. Até que é contratado para ser guarda-costas de uma garotinha esperta (a interessante Dakota Fanning). Ela vê em Denzel mais que um guarda-costas, mas um amigo. Depois que a garota é seqüestrada e seu resgate é roubado, o “novo” Denzel parte em uma saga de vingança digna de produção classe Z. Para piorar tudo, a direção grotesca de Tony Scott, o roteiro covarde e a duração extremamente longa transformam o que poderia ser uma diversão passageira em um filme reacionário de péssima qualidade. A caracterização da Cidade do México como um verdadeiro inferno na terra termina por afundar a produção em uma verdadeira poça de estereótipos. Chamas da Vingança é apenas mais um filme na infindável lista de produções que procuram retratar essa verdadeira obsessão americana. Porém, neste caso, a vingança não passa de um programa enfadonho e datado.