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5 a 19 de março de 2005

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O PROFETA NO ESPELHO
Leonard Cohen esparge a sua poesia desconcertante sobre amores vadios em Dear Heather
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

eonard Cohen parece ser um dos poucos – senão o único — artista dos anos 60 a chegar aos setenta anos. Nasceu dois meses antes de Elvis Presley e viveu à margem de toda a contracultura dos tempos rebeldes. Até porque ele era velho demais para se tornar um hippie . De qualquer maneira, ele não seria aceito: insistia em se vestir de terno e gravata. Sempre foi o paradoxo de ser um dândi a bafejar as sarjetas de Nova Iorque. Mas, ao contrário da maioria dos rock-stars que deixaram décadas de suas vidas no jet-set , Cohen sobrevive como uma barata pós-apocalítica, com seu folclórico estilo de rufião de alta-classe, cantando como um velho chansoneur francês. É uma metamorfose ambulante: perseguiu o seu público ao mesmo tempo em que queria fugir dele: viveu em hotéis baratos, se tornou monge zen-budista. A despeito de sua vida pendular, ele manteve uma carreira perene: no limiar dos setenta, lança mais um disco, Dear Heather , onde ele faz de tudo um pouco, isto é, o de sempre. Esparge a sua poesia desconcertante sobre amores vadios, desamor, loucura, tédio e nostalgia, com sua voz peculiar de baixo profundo. Também retoma a parceria com Sharon Robinson (e Anjani Thomas), sua criativa parceira no álbum anterior, Ten New Songs , de 2001.

Karaoke — A canção que dá título ao disco é, com efeito, uma espécie de suave meditação sobre a beleza feminina em cinco versos (!). As demais canções não são tão breves assim; no entanto, a sua pena continua precisa e profunda como o toque de florete e a sua poesia é breve , prosaica e desconcertante como um drible sobre um tijolo.”Dear Heather Please walk by me again/ with a drink in your hand/ and your legs all white/ from the winter”. Parece uma cena única, um corte, repetido centenas de vezes, como um mantra, e evocada da memória como se jamais tivesse existido, e fosse apenas fruto da imaginação, ou um deja vu de uma mulher de tantas faces. A mesma entre tantas outras que foram suas musas inspiradoras. Canções como “Undertow”ou “Vianelle for Our Time” têm o mesmo formato de sketch inacabado, como um pedaço de negativo mal revelado, um mero instante de poesia.

Ao passar por “Morning Glory”, vemos como é possivel escorrer para dentro de um monólogo interior onde ele se questiona a respeito do caminho do nirvana, em seu rumo transcendente e crepuscular. No meio da faixa, o seu discurso do interior da caverna se sublima pela voz angelical de Anjani Thomas, que diz: “Oh, that morning glory”. A melodia, contudo, perde pontos mais pelo clichê do arranjo “karaokê” do que pelo poema, cujo texto pára em pé mesmo sem a música, que chega ao paroxismo da auto-paródia. No mais, é o estlo peculiar que ele inventou para emoldurar o seu impressionismo romântico. A sonoridade vai distante do esquema baixo-violão-violino cigano dos primeiros álbuns, para o “karaokê” com o folclórico vozeirão que serve mais para declamar o Apocalipse de São Pedro ou algo parecido.

Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
to my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
and they say,
"Look at me, Leonard
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.

Sua admiração pelas mulheres permanece a mesma. Contudo, Dear Heather demonstra que, se a idade sempre traz consigo as suas conseqüências, no caso de Cohen, é possível perceber que ele não é o mesmo cantor de antes. Atacada pelo fumo, sua voz mais parece emergir do pélago da alma, e vai da impostação grave ao sussuro no limite do audível. Isso fica claro se comprarmos as faixas do disco com uma bônus track, “Tennesse Waltz”, registro ao vivo (aqui, Cohen toca com os Buckskin Boys, banda country canadense, lembrando a sonoridade mais leve do Cohen Live ), em 1985 e, certamente, a faixa que destoa do restante do disco que, ao ouvinte mais distraído, lembra mais uma trilha sonora para um sarau sado-masoquista...

Em Dear Heather , como nos últimos trabalhos para o disco, fica a sensação de que o compositor de “Suzanne” se preocupa mais em trabahar as letras do que em transformá-las em uma canção, deixando a melodia sempre em segundo plano. “Villanelle For Our Time” e “To a Teacher”, por exemplo, soam menos como música e mais como leitura de poesia, tendo ao fundo um jazz-muzak pouco inspirado. Em outras faixas, a base é feita em algum sintetizador barato (um Casio PT-80?), com algum solo de sax de músico mabembe. É pena, porque as letras de “Because Of” e “The Undertow” são ótimas, mas a música lembra uma hipnótica, cálida e triste atmosfera de música de computador.

Evocações — Ficando no terreno da poesia, Dear Heather é uma rapsódia: algumas canções são de safras recente, mas muita coisa parece evocar o passado de Leonard Cohen. O disco traz dedicatórias e relembra velhos menestréis que o poeta septuagenário travou conhecimento em Montreal, em fins dos anos 50, quando Cohen tentava iniciar uma carreira como novelista. “The Faith”, por exemplo, é uma livre adaptação de uma cantiga folk (the sea so deep and blind/the sun, the wild regret/The club, the wheel, the mind/O love, aren't you tired yet?). Este é aqui o mote de muitas de sua poesia. “Go No More A-Roving”, por sua vez, é uma prosódia (musicar um texto ) sobre uma obra do “ poeta maldito” Lord Byron (1788-1824), outro dionisíaco mestre de Cohen:

So we'll go no more a-roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.
For the sword outwears its sheath,
And the soul outwears the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.
Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a-roving

Único como a maioria dos álbuns de Leonard Cohen, Dear Heather não possui gênero ou categorização própria. Sua música está muito longe do folk que o lançou para o mundo (e onde certamente está o melhor de sua produção), e aparta-se ainda mais da lírica daqueles que tanto o imitaram e se inspiraram em suas canções.

Em tempo: existem muitos outros discos de Leonard Cohen.