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5 a 19 de março de 2005

Equipe Edições Anteriores

A FORÇA DO MITO
Nas comemorações dos 60 anos de Elis Regina, o culto à cantora ganha cada vez mais força entre admiradores e fãs
por Marcelo Robalinho ( marcelorobalinho@yahoo.com.br )

“ A voz continua, viva e límpida. Continua nos discos e nas fitas.
E continua, ainda mais límpida e mais viva, na nossa memória ”
Luis Fernando Veríssimo
( em “A Voz do Brasil”, texto escrito em
homenagem a Elis Regina - 19/01/1983)

m 2005, ano em que completaria 60 anos de idade, no próximo dia 17 de março, Elis Regina está mais viva do que nunca. Bem diferente do início da década de 90, quando a cantora parecia ter sido esquecida, sobretudo pela mídia ( Folha de São Paulo: Morte de Elis é mal lembrada dez anos depois e Estado de São Paulo: Os dez anos em que o Brasil esqueceu Elis - 19/01/92), os tempos atuais revelam um quadro bastante diverso.

O culto à artista, que abarca jovens e adultos da mesma maneira, parece não ter tamanho. Evidentemente, sem a comoção observada na época da morte inesperada, em janeiro de 1982, quando 25 mil pessoas compareceram ao velório, em São Paulo. Entretanto, a julgar pelos sites , blogs , grupos de discussão de fãs, “novidades” descobertas nos arquivos e gravações piratas que rolam na Internet, percebe-se que a força que Elis exerce ainda é grande.

O advento da Web, nos anos 90, é possivelmente um dos fatores que está ligado a esse movimento de perpetuação do nome e da obra da cantora. Para se ter uma idéia, a quantidade de informações sobre a intérprete gaúcha na Internet é enorme. No Google, considerado o mais importante site de busca, existem hoje mais de 181.000 documentos sobre Elis, sendo cerca de 66.500 só do Brasil. Nas dez primeiras páginas brasileiras, verifica-se um total de 13 sites , além do endereço de um blog e de um fórum de discussão sobre a cantora. O resto se refere a páginas de cifras, letras de música e lojas virtuais onde CDs de Elis Regina podem ser encontrados.

No Orkut, site de relacionamento que se tornou uma febre no País nos últimos tempos, Elis também está bastante presente. Lá, são registradas oito comunidades de fãs e admiradores da cantora, das quais a maior delas possui 27.109 integrantes das mais variadas idades e regiões do País. Além dessas oito comunidades de aficionados, tem até um outro grupo no Orkut de pessoas que odeiam Elis Regina e se irritam só de ouvir falar que ela é maior cantora brasileira.

É claro que muita coisa na Internet é absolutamente dispensável. Mas, com um pouco de curiosidade, paciência e atenção na pesquisa, é possível encontrar materiais de raro valor. As páginas de leilões on line , tais como Mercado Livre e Arremate.com, são exemplos claros disso. Lá, discos vinis em ótimo estado de conservação (alguns importados), revistas, livros e até gravações tidas como alternativas ou inéditas podem ser comprados.

Quem imaginaria, por exemplo, ter um CD duplo com a íntegra de uma das apresentações ao vivo do show Falso Brilhante , considerado o grande marco na carreira de Elis e que ficou um ano e dois meses em cartaz no Teatro Bandeirantes de São Paulo, entre dezembro de 1975 e fevereiro de 1977? Detalhe: os dois discos têm boa qualidade de som, sendo que um dos CDs possui, de quebra, “Marcha de Quarta-Feira de Cinzas”, canção composta por Carlos Lyra e Vinicius de Moraes e incluída no repertório de Falso Brilhante um mês antes de encerrar a temporada. Para os fãs e colecionadores, o fato é, sem dúvida, de encher os olhos e ouvidos.

Talento e lucro garantido

Sabe-se que Elis Regina nunca foi uma cantora de grandes vendagens. A única exceção ocorreu, em 1965, com o LP Dois na Bossa, lançado em parceria com o cantor Jair Rodrigues e que vendeu cerca de 500 mil cópias, um recorde para a época. Os demais discos lançados em vida por Elis sempre tinham tiragens mais modestas, se comparada a outros artistas considerados mais populares. Os 27 LPs, catorze compactos simples – espécie de singles em formato vinil – e seis compactos duplos gravados por ela durante os seus 21 anos de carreira renderam algo em torno de 4 milhões de cópias vendidas, quatro vezes menos que o rei Roberto Carlos ( Veja: O amargo brilho do pó - 27/01/82). Apesar de não ser um sucesso de vendas, a cantora tinha um público cativo que sempre a acompanhava, seja em LPs ou em shows.

Por isso, os seus discos nunca deixaram de vender, mesmo anos depois da morte. Conforme levantamento feito em 1991, pela extinta Revista do CD, Elis Regina aparecia em primeiro lugar, dentre as cantoras brasileiras, em número de vendas de CDs, com um total de 159.200 unidades comercializadas no Brasil desde 1987, ano em que marca a era do compact disc no País. Em segundo lugar no ranking , vinha Gal Costa, com 113.200 CDs vendidos, seguida por Maria Bethânia, com 88.000 compacts comercializados entre 1987 e 1991.

Em meados da década de 90, quando as gravadoras recomeçaram a investir na recuperação de documentos sonoros de Elis até então nunca lançados (a primeira vez ocorreu logo após a morte da cantora), as vendas de discos continuaram a ter expressividade . Só para citar um exemplo: em 1994, a gravadora Velas colocou no mercado uma caixa com três CDs contendo parte do registro em áudio de O Fino da Bossa , programa comandado por Elis e Jair na TV Record entre os anos de 1965 e 1967. Único documento sonoro existente de O Fino da Bossa (os taipes foram apagados ou destruídos no incêndio dos estúdios da TV Record), a caixa Elis Regina no Fino da Bossa teve uma tiragem inicial de 12.000 unidades, esgotadas pouco tempo depois do seu lançamento. Era uma média de 1.000 CDs vendidos por dia, segundo cálculos feitos na época por João Marcello Bôscoli, filho de Elis com Ronaldo Bôscoli e um dos executivos da gravadora Trama ( Programa Sem Censura: TVE – 09/06/94).

Na era do DVD

Da década de 90 até agora, praticamente toda a discografia oficial de Elis Regina já saiu em CD. De 1995 para cá, outros dois discos inéditos foram lançados, um pela Velas ( Elis ao Vivo ) e outro pela WEA ( Elis Vive ). Atualmente, a obra de Elis está entrando numa outra era: a do DVD, para deleite dos fãs e admiradores que sempre desejaram não apenas ouvi-la, mas vê-la em casa. O curioso disso tudo é notar que a nova fase de resgate só está sendo possível devido ao esforço da gravadora Trama em recuperar o material sonoro e visual da Pimentinha.

Ano passado, além do DVD áudio do histórico encontro Elis & Tom em disco (gravado nos Estados Unidos em 1974 e que se tornou álbum de cabeceira de gerações de músicos mundo afora), a Trama lançou, em parceria com a TV Cultura e a TeleImage, o DVD Elis Regina-MPB Especial , numa tiragem de 100.000 cópias. Primeiro DVD com imagens da cantora, o programa gravado pela TV Cultura em 1973 revela Elis num dos seus melhores momentos, em que canta e fala de sua vida e carreira com uma sinceridade desconcertante que chega a incomodar em alguns momentos, pela densidade emotiva das interpretações e, principalmente, das declarações.

Para os mais jovens que gostam de Elis Regina, mas nunca tiveram a oportunidade de assistir a um show, vê-la cantando em DVD pode se revelar uma grata surpresa, já que uma das características marcantes da performance da cantora sempre foi a postura cênica. Desde o início da carreira, quando alcançou o sucesso com a música Arrastão (“Olha o arrastão entrando no mar sem fim...”) , a imagem da Pimentinha balançando os braços para cima e para baixo, numa verdadeira natação musical, chamava a atenção.

Mesmo com a maturidade adquirida ao longo dos anos, a postura mais comedida de Elis no palco nada tinha a ver, por exemplo, com a graciosidade de Gal Costa ou a teatralidade de Maria Bethânia, que pareciam meras encenações no palco. As emoções exacerbadas que Elis transmitia nos seus espetáculos conferiam um cunho de verdade muito forte. Havia quem não gostasse desse exagero, mas, com certeza, ninguém ficava imune à sua arte. Como muita gente hoje, pelo visto, também não. Uma prova disso é a saudade que Elis Regina suscita até hoje, transcorridos 23 anos de sua morte.