| A ARTE DE SUJAR OS SAPATOS
Fama e Anonimato, pérola do jornalismo literário de Gay Talese, está novamente disponível aos leitores brasileiros
por
Por Luiz Rebinski Jr.
(
jrrebinski@hotmail.com )

urante longos anos o jornalista Gay Talese apurou a arte de sujar os sapatos. Figura de proa do new journalism , Talese é aquilo que se pode chamar de um obcecado pela notícia e pela investigação que os fatos podem render ao repórter e, claro, ao público. Melhor, Talese é um alquimista da informação. Um fato corriqueiro, com Talese e seu faro jornalístico incomum, pode virar uma grande notícia, capaz de angariar milhares de leitores.
É mais ou menos isso que acontece com algumas das histórias contidas no livro Fama e Anonimato , republicado no Brasil após décadas de sumiço. Batizado em sua primeira edição brasileira como Aos Olhos da Multidão , o livro faz parte da coleção de títulos lançados pela editora Companhia das Letras sobre o Jornalismo Literário norte-americano – já aportaram em nossas terras os clássicos Hiroshima , de John Hersey, A Sangue Frio , de Trumam Capote, e O Segredo de Joe Gould , de Joseph Micthell.
Fama e Anonimato é uma coletânea de textos que Talese publicou após os anos 60 em revistas como Esquire e The New Yorker . O estilo desprendido pelo autor alia o r igor da informação jornalística à qualidade do texto literário. Dessa forma, o Jornalismo Literário caracteriza-se por ser um gênero de jornalismo que estabelece novos parâmetros para a maneira de relatar os fatos. A investigação exaustiva e o envolvimento com o assunto relatado são algumas particularidades do estilo. Talese, ao lado de nomes como Mitchell e Capote, é expoente de uma geração de autores que se dedicaram a contar histórias que em geral não são vistas nos meios de comunicação mais conservadores.
São tramas desconhecidas, de anônimos e famosos de Nova York, que Gay Talese conta. De forma elegante, trazendo para o leitor sempre um viés diferenciado, o autor narra histórias que, aparentemente, não teriam nada de muito interessante. Porém, o trabalho de investigação e, sobretudo, o contato mantido pelo autor com seus entrevistados, torna as narrativas de Fama e Anonimato muito interessantes e por vezes surpreendentes.
O livro é dividido, como o próprio nome sugere, em histórias de anônimos e famosos. A primeira parte, dedicada a relatos inspirados e apaixonados da cidade de Nova York, reúne vários perfis de figuras tão estranhas quanto fascinantes. São motoristas de ônibus, faxineiros, boêmios ou simplesmente vagabundos os personagens que Talese traz para o público. Pessoas que o autor encontrou, conversou e decidiu mostrar para seus leitores. Os cidadãos ali retratados formam a massa de anônimos que faz funcionar a grande metrópole, com seus metrôs, estradas e gente correndo. Desta matéria-prima humana o autor tira, senão grandes exemplos de vida, a certeza de que em qualquer lugar há sempre uma história a contar.
Ainda na rabeira dos desconhecidos, Talese traça longos perfis sobre os trabalhadores que, entre os anos de 1961 e 1964, ajudaram a construir a ponte Verrazano-Narrows, que liga os distritos de Brooklyn e State Island, em Nova Iorque. Os boomers, como ficaram conhecidos os trabalhadores da construção civil que se dedicavam à montagem de pontes nos Estados Unidos, são investigados exaustivamente pelo autor. Talese, segundo consta, não deixou de visitar o canteiro de obras um dia sequer. Mesmo em suas folgas, o autor estava presente, conversando, trocando idéias e, principalmente, observando tudo o que acontecia no gigantesco universo dos trabalhadores. Mudando de forma radical a vida de sete mil pessoas que viviam em áreas afetadas pela grande obra, a construção da ponte foi, sobretudo, um grande transtorno para muitos que, arraigados em seu pedaço de chão, não suportavam a idéia de ir para outro lugar. Gay acompanha o dilema de famílias que, com muito custo, deixaram seus lares para viver em lugares desconhecidos.
O dia-a-dia em uma grande obra como a da ponte Verrazano-Narrows se mostra fascinante nas linhas descritas por Talese. Além do perigo constante, os operários suportam a solidão e a saudade da família, que muitas vezes está a centenas de quilômetros, em alguma cidadezinha simpática do interior do país. A riqueza de detalhes, em meio às impressões do autor, surpreende. Somente um homem que tenha a confiança dos personagens que retrata pode compor histórias como as contadas por Talese sem estar mentindo ou inventando. Dispensando o uso do gravador, o autor traz à luz da realidade relatos emocionantes de trabalhadores que perderam amigos durante as obras.
Ainda no campo dos desconhecidos, Talese, que trabalhou no New York Times nos anos 50, mostra a vida do obtuarista Adlei Whitman. Durante vários anos, Whitman foi o responsável pela confecção de perfis de pessoas que estavam pela hora da morte. O jornalista, apelidado por Talese de Senhor Má Notícia, escrevia textos que ficavam na gaveta do jornal, somente esperando que o personagem da matéria sucumbisse. Talese fala com propriedade da estranha profissão desempenhada por Whitman. Ele mesmo fora obtuarista do mesmo jornal no final dos anos 1950. Aliás, o grande Talese só entrou para a redação do imponente NYT depois de muita insistência. Diz a lenda que durante anos o jovem Talese não escreveu sequer uma linha para publicação. Somente após sugerir várias pautas aos editores do jornal que ele conseguiu emplacar alguns textos.
A segunda parte do tomo é dedicada aos famosos que o autor tanto perseguiu durante anos. Começando pelo mais famoso de todos os textos, sobre o resfriado de Frank Sinatra, Talese traz o lado B das grandes personalidades de Nova York. Mesmo sem ter acesso ao grande mito que era Sinatra, o autor consegue redigir um material que até hoje gera furor no meio jornalístico.
Além do mitológico perfil do cantor, Talese revela as diversas faces dos esportistas mais famosos dos Estados Unidos. Os pugilistas Floyd Patterson e Joe Louis entram em cena após a aposentadoria. Talese mostra um Patterson desolado e solitário após as sucessivas derrotas para Sony Liston. Já Louis é visto como um homem de negócios que se deu bem depois da carreira nos ringues. O retrato de Joe DiMaggio, o grande jogador de beisebol dos EUA, que na década de 40 encantou os amantes do esporte com seu estilo elegante e eficiente, é feito de modo que a união do esportista com a polêmica Marilyn Monroe não ofusque a trajetória do grande ídolo. Arredio e pouco simpático com o jornalista que andava na sua cola, o batedor dos Yankees é visto por Talese como um misantropo.
Fã confesso da chamada Geração Perdida de Ernest Hemingway, Talese vai atrás dos autores, bêbados, drogados e agitadores que editaram, na década de 1950, na França, a revista Paris Review . O autor segue na cola das pessoas que fizeram a História do periódico que contava com o maior número de colaboradores ilustres por centímetro quadrado nos anos 50. O mercado editorial é novamente o cenário de Talese no texto intitulado “Voguelândia”, no qual analisa o modo de produção dos jornalistas da maior revista de moda dos Estados Unidos.
O mais surpreendente na literatura de Gay Talese, é que o autor consegue trafegar, com a mesma naturalidade, por caminhos bastante diferentes. Seja desvendando as peculiaridades dos famosos ou trazendo à tona as intimidades e manias dos anônimos, Talese torna o texto envolvente, interessante e atual. Alguns dos textos ali contidos foram publicados há mais de 40 anos. Porém, o frescor das histórias é regado a formol. O entusiasmo do leitor de hoje é o mesmo daquele que leu os textos quando foram lançados originalmente nas revistas onde o Jornalismo Literário se desenvolveu.
Autor de outros clássicos como O Reino e o Poder – espécie de história não autorizada do New York Times –, Talese volta, 40 anos depois, ao local onde a ponte Verrazano-Narrows foi construída. Revendo alguns dos personagens que descreveu algumas décadas atrás, o escritor acompanha a reforma da obra que viu nascer. Ali o velho jornalista, no auge de seus 70 anos, demonstra que ainda tem vigor de sobra para procurar notícia que valha a pena. O homem de traje impecável, elegante, de passos mansos, ainda traz consigo o faro infalível de tempos idos. Talese ainda sabe contar uma boa história – e sujar os sapatos. |