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5 a 19 de março de 2005

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A VIDA POR UM FIO
Drauzio Varella elevou o valor da vida ao escrever um livro sobre a morte
por Enéias Tavares ( eneiastavares@yahoo.com.br )

que é a morte? O que seria considerado esse estado inevitável das coisas vivas? Como o ser humano encara esse fato tão certo, tão exato, tão conhecido? Shakespeare, na peça Péricles escreveu: “A Imagem da Morte deve ser como a imagem de um espelho que nos ensina o quanto a vida é um sopro passageiro”. Sim, para o bardo Inglês, a morte deveria nos ensinar o quanto nossa vida é passageira, rápida, e intensa, como a luz de uma vela que rapidamente se apaga ao terminar de consumir a cera do corpo que todos temos. No entanto, por que então é tão difícil aprender com a morte? Compreender o fim de nossa existência? Do apagar da chama de nossa vela de existência mortal?

Para Michel de Montaigne, um filósofo contemporâneo de Shakespeare, e certamente lido pelo teatrólogo inglês, “A Filosofia teria por objetivo nos ensinar a morrer”, e aprendendo a morrer, estaríamos aprendendo a viver, a amar, a cuidar do essencial em nossas vidas. No entanto, na grande maioria das vezes, não é o que fazemos. Existe uma piada que contam sobre um homem que foi entrevistar Deus. Entre muitas das pérolas ditas pelo Criador está aquela de que “os homens vivem desesperados como se fossem morrer, e morrem tristes como se não tivessem vivido”.

Mas prefiro ainda as palavras de Salomão, segundo a historiografia bíblica, em Eclesiastes capítulo 3 versículo 11, de que a explicação da vontade do homem em continuar vivendo, mesmo apesar de dificuldades e problemas, vem do próprio Deus ter colocado esse desejo no coração de sua criatura, por mais paradoxal, que a principio, nos pareça essa idéia. Pois bem, poderia ainda encher essa página de outras citações e opiniões que apenas tentam explicar algo muito complexo: o modo como o ser humano encara e se porta diante da morte iminente. Mas o objetivo desse texto não é teorizar ou discutir o papel da morte no modo como encaramos a vida, e sim falar do livro Por um Fio , em que histórias de pacientes à beira da morte e de suas respectivas famílias nos mostram quão difícil e complicado é encararmos o fim da vida.

Em seu novo livro, Drauzio Varella, conhecido médico especialista no tratamento de câncer e apresentador da série “Conheça o seu Corpo”, da Rede Globo, enumera muitos casos testemunhados por ele no decorrer de algumas décadas tratando de doentes em fase terminal. No decorrer dos capítulos temos relatos de como as pessoas têm reagido frente a este fato inevitável. Alguns, a encaram como uma maldição, outros como uma bênção, ainda há aqueles que a encaram como o fim de uma grande festa, como uma partida, como uma viagem para outro lugar, e ainda outros como simplesmente algo comum e inevitável. O que há de interessante nesses múltiplos exemplos é constatar o quanto a figuração da morte, por mais banal e visível que tenha se tornado em nossos tempos de filmes de ação e atentados terroristas mostrados ao vivo pela televisão, ainda continua a perturbar e amedrontar todos nós. Afinal, quem se diz corajoso diante da morte apenas expressa seu medo de ter medo de algo tão comum à vida humana.

Outro aspecto interessante é a respeito da dicotomia de querer ou não saber da própria morte. Para alguns isso seria uma tortura ainda maior, para outras a oportunidade derradeira de encerrar as pontas soltas, de dizer os últimos Eu Te Amo para as pessoas certas e para terminar de enterrar os segredos mais aterradores que todos nós temos. Mas infelizmente, às vezes, o escritor acaba se excedendo em argumentos simplistas e piegas, especialmente se levarmos em conta o assunto do qual estamos tratando. Por outro lado, algumas das histórias são deveras tocantes e complexas mesmo em seu sentimentalismo exagerado, como a da mãe que luta pela vida do único filho, do homem que perde sua amada esposa, para depois se unir a sua irmã gêmea e a história que encerra o livro: a da morte do próprio irmão do autor, médico que também acaba morrendo do mal que passou a vida inteira combatendo, o câncer.

Mais um ponto a favor da segunda obra de Varella, tornado bem conhecido pelo primeiro livro Estação Carandiru , é a relação que o autor faz com o distanciamento e a tristeza, envolvendo a morte num quarto frio e escuro de um hospital, diferente da morte em casa, rodeada de parentes e amigos, como acontecia com nossos antepassados, até algumas décadas. Nesse aspecto temos no livro de Varela um estudo bastante pertinente sobre o tratamento médico/paciente. Numa crítica mordaz a uma profissão que se tornou sinônimo de status social e financeiro. O autor pergunta-se no decorrer de seu livro aonde foi parar o propósito primeiro da medicina: de curar os padecimentos e diminuir o sofrimento do corpo, logicamente também confortando as dores da alma de um paciente num leito de hospital.

Assim, a discussão de Varella, em Por Um Fio, é construída no sentido de demonstrar o quanto o nosso corpo tornou-se também um objeto na mão de pessoas “insensíveis e distantes”. Soma-se a isso o abandono familiar diante de alguém que não mais pode cuidar de nada, apenas ser cuidado, e temos então um assustador perfil do fim da existência de muitos homens e mulheres em nossos dias. Dessa forma, o autor nos apresenta outro pesadelo: não o de simplesmente morrer, mas o de morrer sozinho, cercado apenas de velhas e distantes lembranças.

No decorrer de cada um dos capítulos, começamos a pensar em como nós reagiríamos diante de determinadas situações. Como reagiríamos se soubéssemos que temos alguns poucos meses de vida? Como reagiríamos ao descobrir que uma pessoa muito querida por nós não mais estará aqui dentro de algum tempo? Enquanto pensamos essas questões, a leitura concisa e objetiva de Varella nos remete a um pensamento consciencioso e nem sempre animador de que cedo ou tarde iremos ter de enfrentar a morte e suas conseqüências, se é que isso já não aconteceu diversas vezes com você mesmo.

Assim, além de aprendermos através das experiências do autor, é inevitável retomarmos as nossas próprias experiências sobre a morte, e tentar aprender com elas, o que na maioria das vezes não ocorre, devido a grande dificuldade que a nossa cultura tem de pensar ou falar na morte. Como aquela antiga lenda de que se dissermos muito o nome do demônio, mais próximo de nós estará ele. No entanto, a morte, como todos os nossos temores, apenas podem ser suportados e vencidos a medida que os enfrentamos de frente. E a conversa ainda é o melhor modo de fazermos isso, como Freud muito bem defendeu em todos os seus tratados sobre psicanálise.

Assim, apesar de pequeno e conciso, Por Um Fio conseguiu reunir muitas das reações que um ser humano poderia apresentar diante da calamidade da morte. Além disso, ele consegue expressar todo a alegria, tristeza e conhecimento que um homem pode acumular ao dedicar sua vida a ajudar outros. No entanto, assim como no amor, uma coisa é teorizar sobre a morte, outra bem diferente é vivê-la ou enfrentá-la, consumindo a chama de um amigo, de um irmão, de um pai, ou até de si próprio.