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5 a 19 de março de 2005

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NO RITMO DA SÉTIMA ARTE
Os musicais estão de volta, mas o clássico Cantando na Chuva continua imbatível
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

ada melhor do que assistir a um clássico do cinema pela primeira vez. Cantando na Chuva é exatamente isso: uma obra-prima da sétima arte. A produção de 1952 é um dos maiores musicais de todos os tempos, protagonizado e dirigido, em parceria com Stanley Donen, pelo astro Gene Kelly. Mais gratificante ainda é assistir ao filme nos dias de hoje, quando o gênero musical está em voga novamente. Depois de uma longa ausência nas telonas, os musicais voltaram com tudo a partir da metade da década de 90.

O diretor irlandês Alan Parker escalou Madonna e realizou o suntuoso Evita . Baz Luhrmann reinventou o gênero com o uso de músicas modernas e da linguagem videoclíptica no delirante e cafona Moulin Rouge . As estrelas Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones brilharam em Chicago . Joel Schumacher – que já dirigiu suspense, romance, policial, comédia, filme de super-herói, de tribunal e de drag queen – está de volta com a versão do clássico musical da Broadway, O Fantasma da Ópera , produção bastante criticada e que está em cartaz nos cinemas de todo o país. Até Woody Allen entrou na onda no delicioso Todos Dizem Eu Te Amo . Isso sem contar as inúmeras cenas de dança incluídas aleatoriamente em uma série de filmes que de musical não tem nada – As Panteras , O Máscara e Por Uma Vida Menos Ordinária são alguns exemplos (coincidência ou não, todos trazem Cameron Diaz no elenco).

Mas Cantando na Chuva continua imbatível. A direção é precisa, a edição é envolvente e o elenco segura muito bem as pontas. Gene Kelly, a encantadora Debbie Reynolds e Donald O'Connor realmente cantam, dançam e levam o espectador para o mundo mágico do sapateado e do balé. Algumas pessoas podem se incomodar um pouco com a inserção de cenas de dança que não têm muito a ver com a história, mas isso só demonstra que os diretores não estavam dispostos a concessões (em Chigago , por exemplo, as cenas só acontecem em um palco ou na imaginação das personagens). E as cenas de dança são muito bem coreografadas e a montagem não atrapalha a percepção do espectador. Coisa cada vez mais comum hoje em dia, quando a fluidez da narrativa é muitas vezes confundida com cortes rápidos e ritmo de videoclipe (vide os já citados Moulin Rouge e Chicago ).

Em Cantando na Chuva a câmera muitas vezes permanece estática enquanto os atores fazem suas coreografias. Tal recurso remete imediatamente ao chamado Primeiro Cinema, quando ainda não existia a linguagem cinematográfica tal conhecemos hoje. Na época, as câmeras retratavam a mesma perspectiva que uma pessoa tinha em um teatro: um plano aberto com todo o cenário a mostra e as personagens no seu centro. Claro que em outros momentos, as câmeras se movimentam – geralmente de forma suave – e a edição faz uso de alguns cortes. A mistura desses elementos é fundamental para a composição da mise-en-scene desse clássico da história do cinema.

E essa história está presente em cada fotograma do filme. Como pano de fundo para toda a perfeição técnica apresentada no longa, está uma das primeiras grandes crises sofridas pela indústria cinematográfica: o advento do som. A produção narra a história de Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen), dois dos astros mais famosos da época do cinema mudo em Hollywood. Os dois vivem um relacionamento de fachada que começa a ruir quando Don conhece a doce Kathy Selden (Debbie Reynolds) e quando o estúdio para o qual trabalham resolve investir no cinema falado.

O roteiro é um primor de ironia. Apesar de Hollywood ser, às vezes, um pouco equivocada, sempre utilizando fórmulas batidas e sem novidades, a indústria cinematográfica sabe se autoparodiar como ninguém. Cantando na Chuva se beneficia dessas tiradas, encenando a rotina de atrizes sem talento metidas a estrelas; produtores e diretores com idéias absurdas; casamentos arranjados e revistas de fofocas. No final das contas, além de um belo exemplar do gênero musical, o filme é uma grande homenagem à sétima arte.