| IN VINO VERITAS
O vinho serve de metáfora para a vida em Sideways – Entre umas e outras
por
Fernando Américo (
feramerico@yahoo.com.br )
 ma garrafa de vinho é mais que mais uma oportunidade de ficar bêbado. Basta pensar em tudo o que aconteceu no mundo enquanto as uvas que deram origem a este determinado vinho estavam amadurecendo. Se era um verão de sol, ou de chuva… Basta pensar em todas as pessoas que trabalharam para apanhar as uvas, para fazer a bebida, e, se for um vinho antigo, quantas destas pessoas já até estariam mortas, enquanto o vinho sobrevive. Sobrevive, evolui, e mais importante: cada garrafa de vinho tem um sabor dependendo do dia em que a abrimos. Uma garrafa de vinho está em constante estado de evolução, numa palavra: está viva.
Gostaria de dizer que fui eu o autor do parágrafo acima, mas infelizmente, não seria verdade. O trecho foi retirado de uma cena de Sideways – Entre umas e outras, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado no último domingo. Na cena, Miles (Paul Giamatti) e Maya (Virgínia Madsen) conversam sobre suas preferências quanto a vinhos, mas quem presta um mínimo de atenção percebe que estão falando de si mesmos. Miles justifica sua preferência por Pinot Noir, um vinho cuja uva tem que ser cultivada com carinho para que dê os melhores frutos – carinho que o próprio Miles gostaria de ter tido em toda a sua vida, para que pudesse crescer em toda a sua plenitude. E Maya revela como o vinho a salvou de um casamento sem futuro, e da sua esperança de que sua vida – como um bom vinho – seja melhor na maturidade do que foi na sua juventude. Nada disto é dito explicitamente, e esta é uma das belezas do filme: o casamento perfeito entre diálogo e imagem, que não são contraditórios, mas dissonantes, e juntos, formam um novo sentido para o que estamos assistindo. É nessas dissonâncias que Entre umas e outras cresce, deixa de ser um road-movie etílico, um Woody Allen do novo milênio, para se tornar uma comédia existencial, um drama bergmaniano que nos mata de rir. Um dos melhores filmes americanos de 2004.
Sideways – Entre umas e outras aparentemente começa como uma comédia adolescente para adultos: Miles vai levar Jack (Thomas Haden Church) para uma viagem antes que ele se case. O motivo da viagem é para provar os vinhos da Califórnia – pelo menos para Miles e a família da noiva de seu amigo. Mas Jack tem outros planos: ele quer aproveitar a viagem para “pular a cerca” por antecipação. Num dos bares de degustação de vinhos, Jack e Miles conhecem duas garçonetes, Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh). Jack e Stephanie logo se entusiasmam um com o outro, mas Miles precisa de curar antigas feridas para aceitar se envolver com Maya.
A referência anterior a Woody Allen não é acidental: estão lá todos os elementos do autor nova-iorquino. O personagem desastrado que encobre sua falência emocional com uma erudição vazia (a análise de vinhos de Miles é tão pedante que quase não faz sentido), as neuroses, os personagens que não sabem bem o que querem, os “falhados” como heróis. Mas Alexander Payne vai além, fazendo com que seus personagens soem ainda mais reais, verdadeiros, cheios de contradições, uma verdadeira delícia para o elenco. Ao contrário de seus outros filmes – Eleição e As confissões de Schmidt – em que o roteiro parecia ser um suporte para fazer atores como Jack Nicholson brilharem, em Sideways a história é soberana, mas de uma maneira que valoriza cada personagem, sem prejuízo para o conjunto, onde cada ator do elenco tem seu grande momento.
E que elenco! Paul Giamatti, Thomas Haden Church (conhecido no Brasil pelo seriado cômico Wings , do canal a cabo Sony), Virginia Madsen e Sandra Oh parecem uma orquestra de câmara completamente afinada. Virginia Madsen deixa para trás seus papéis de femme fatale de locadora de vídeo e compõe uma mulher emocionalmente exausta, mas que ainda quer ser plenamente feliz. Giamatti e Church fazem uma dupla e tanto, o primeiro com sua depressão constante, o segundo com sua alegria artificial, ambos escondendo seus sentimentos, que afloram nos momentos mais inesperados. São quase como uma versão invertida de Dom Quixote e Sancho Pança, cavaleiros errantes em busca de sentido para derrubar seus moinhos de vento interiores.
Mas este filme delicado pode correr o risco de decepcionar àqueles que vão ao cinema procurando aqueles típicos filmes de Oscar, épicos que justificam o preço do ingresso com uma produção suntuosa e reviravoltas melodramáticas no roteiro. Sideways – Entre umas e outras foi um dos filmes mais elogiados pela crítica americana, e muita gente foi assisti-lo com uma expectativa exagerada. Ao final de 2004, nos Estados Unidos, muitos críticos já o chamavam de “o filme mais superestimado do ano”. A unanimidade fez mal ao filme, que é melhor quando descoberto por acaso, como um vinho pelo qual não damos nada, e de repente, nos surpreende com seu sabor agridoce. A beleza de Sideways se revela em seus pequenos detalhes, em sua generosidade com personagens a princípio condenáveis e ridículos.
Um exemplo é quando Miles passa pela casa de sua mãe a caminho das vinhas e discretamente rouba o dinheiro dela – um ato deplorável em todos os sentidos. O fato de Miles nem por isso se tornar odioso aos nossos olhos, é uma vitória da trabalho sutil de Paul Giamatti e da direção precisa de Alexander Payne. Já o personagem de Jack é um Don Juan que se interessa menos pelo sexo em si que pela entrega completa aos primeiros momentos de uma nova paixão – seu carinho pela filha de Stephanie, longe de ser um truque para levar a garçonete para a cama, é honesto e verdadeiro. Jack é daquelas pessoas que amam mais o fato de estarem apaixonados do que o próprio objeto de sua paixão. O maior medo de Jack é a solidão, e quando ele vê que pode ficar sozinho no final, mostra toda a sua fraqueza. É Miles, o suposto fraco e neurótico, quem vai salvá-lo, numa cena antológica que deixo para os que forem conferir o filme no cinema.
Sideways – Entre umas e outras é uma pérola de simplicidade e humor delicado, um conto outonal onde a vida, como as uvas, tem sempre um tempo certo para florescer e dar frutos. O importante é saber colher. Uma das cenas mais emocionantes do filme é quando Miles, ao saber do casamento de sua ex-mulher (que ele ainda ama) corre para dentro de uma das vinhas, apanha um cacho de uva e mantém seu olhar nele. Quanto tempo pode uma pessoa plantar sem colher? Quando é que a safra de nossas vidas vai dar o melhor fruto? E se o fruto não for colhido no tempo certo? São perguntas sem resposta para os personagens de Sideways, raposas cansadas de se enganar quanto à cor das uvas, dispostos a finalmente estender a mão para colher a felicidade ao seu alcance.
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