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19 de março a 2 de abril de 2005

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REPETIR É PREVENIR
Nenhum serviço ao suspense faz o novo filme de Robert De Niro, O Amigo Oculto
por Igor Matheus ( imathpm@yahoo.com.br )

curiosidade em torno do filme O Amigo Oculto , de John Polson, confirma que o sucesso orbita principalmente em torno de fórmulas, moldes, repetições. Salvo o magnético olhar da pequena sílfide Dakota Fanning, não há nada de novo a ser acrescentado. “Não-acrescentar”, neste contexto, está longe de ser equiparado à despretensão estética do entretenimento: o suspense é urdido por uma hora e quarenta e cinco minutos de clichês.

Um viúvo, após o trágico suicídio da esposa, leva sua filha para tentar arejar seus espíritos no interior. Um espectador mais exaltado, em tom de chacota, exclamaria no fundo da sala de projeção: “só está faltando uma floresta de coníferas, colinas e um carro na estrada com os dois dentro”. Mas não é preciso esperar muito para que Polson deite no confortável colo Kubrickiano e filme os créditos iniciais de maneira idêntica a “O Iluminado”.

A trama desenrola-se com alguma tensão, sustentada principalmente pelos belos e terríveis olhos da pequena Dakota ou de sustos sonoplásticos. Com o passar do tempo, o filme vai obedecendo à cartilha de outras obras do suspense, como Os Outros , Sexto Sentido e Janela Secreta . Em todos eles, a morbidez sobrenatural e o distúrbio psíquico se confundem e carregam em si o atributo de solução do enredo. Mas, diversamente daquelas obras, a fita de Polson resolve-se apenas apressadamente.

A reviravolta final parece ser um efeito complexo demais para sua causa. Mas não foi a simplificação forçada da psicanálise o fator principal para o erro final: foi a preguiça de desvencilhar o sentimento científico do estético através de uma linguagem mais condizente com o contexto – o da insanidade passional. Em suma, o filme insurge-se quadrado e ordinário, justamente em seu clímax. Para o cinema, cuja vertente americana conseguiu reduzir a loucura e a psicopatia em meia dúzia de insuportáveis estereótipos, a realidade não precisa ser reduzida a meras imitações imagéticas e causais.

Talvez em sua essência, Amigo Oculto possa ter alguma competência. O que torna mais árdua a tarefa de ir vê-lo é o sério desgaste de linguagem e de assuntos pelo qual vem atravessando o cinema yankee – ainda que o termo “desgaste” orbite pelos propósitos industrio-culturais de “insistência no que é eficaz”. Sim. O cansaço estético também pode ser o político.