| CONTRACAPA PARA BACH
Grandes momentos do compositor alemão estão disponíveis no mercado fonográfico
por
Marcelo Xavuer (
marcelo@rabisco.com.br )

patrimônio musical do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) é enorme: cerca de 1080 obras catalogadas que permaneceram na penumbra por longo tempo. Bach só se tornaria conhecido a partir de 1829, quando Mendelsohn-Bartholdy assombrou o mundo com a apresentação da Paixão Segundo São Mateus , obra de um então obscuro autor alemão que vivera há cem anos atrás e, ao que se sabia, passou a vida servindo a igrejas e a pequenas cortes, sempre subordinado a um príncipe, a um margrave ou a um burgomestre. Em vida, o mestre de Eisenach não chegara a ter dez trabalhos publicados. O impacto com tal descoberta foi tão grande que, desde aquela récita no Singkademie de Berlim, Bach tem sido publicado em partituras e dezenas de copistas passaram a catalogar toda a sua música. Em todas as partes, diretores de orquestra e regentes trataram de conhecer e divulgar a sua obra. A partir de 1950, o espólio bachiano foi catalogado por Wolfgang Schmieder, que organizou o tradicional Bach Werk Vezeichnis , (Catálogo das Obras de Bach). A partir daí, antecedendo o número das atuais publicações se lê sempre a sigla “BWV”. Contudo, Schmieder não seguiu a ordem cronológica das composições, optando por uma divisão de categorias, iniciando com as cantatas e terminando nas peças instrumentais. Dessa maneira, o seu BWV começa com a cantata Como Brilha a Estrela da Manhã e vai até A Arte da Fuga .
E o compositor correu mundo, até chegar às tecnologias da era do disco. Graças à revolução da técnica, o autor de Jesus Alegria dos Homens deixou os arquivos mofados das bibliotecas e passou a ser registrado, desde o surgimento do fonógrafo até o formato digital, em maneiras mais diversas e em versões idem. Nos últimos setenta anos, discos de acetato e vinil, fitas, CDs e DVDs foram se acumulando (as primeiras gravações com orquestra aconteceram em 1910. A Quinta de Beethoven seria a primeira sinfonia gravada na íntegra, em 1913). Essa incomensurável discografia serve de exemplo para que possamos compreender a natureza e as transformações que a música de Bach acabou sofrendo nas mãos de músicos, orquestras e regentes distintos, e de diversas gerações — cada um julgando um estilo ideal de executar o autor alemão.
Sua obra nasceu numa época em que não era necessário que se anotasse tudo. Desde que essa prática desapareceu, a sua interpretação foi forçada a prescindir de todo o aparato da musicologia histórica para, então, se tornar a ideal. Como acontece com qualquer compositor clássico, principalmente com os barrocos, a interpretação foi se alternando, com modelos que eram substituídos por outros, a medida em que eram mitificados por diversos intérpretes que entronizavam o seu virtuosismo em detrimento da partitura. E todo esse longo e tortuoso percurso foi e está sendo registrado na discografia “sonora” da música bachiana.
Pioneiros
A partir da década de 30, solistas pioneiros como Wilhelm Kempf, Lotte Lehmann, Otto Klempere, Edwin Fischer, Alfred Cortot, Wanda Landowska e Yehudi Menuhin gravaram em disco os primeiros trabalhos no sentido de registrar obras “inteiras”. Destes registros, alguns foram reeditados em vinil, como os registros de Cortot pela Odéon . A despeito da qualidade inferior à que encontramos hoje, eles transcendem o mero registro histórico para revelar uma versão “pura”, oriunda do estro de músicos de câmara, e ainda longe dos “vícios” dos artistas do disco, como Karajan e Toscanini. A partir dali, nos anos 40 e 50, determinados maestros passaram a fazer Bach à sua maneira, inclusive utilizando músicos a mais. Um exemplo são os registros de Leopold Stokovski e Eugene Ormandy, que, vindos da Europa, viraram celebridades nos Estados Unidos realizando récitas de sonoridade extravagante e grandilouqüente demais para o Barroco. Ormandy chegou ao ponto de transcrever em disco a “Tocata e Fuga em Ré Menor” para orquestra. Com relação a estes discos, o ouvinte deve ignora-los totalmente...
As décadas de 50 e 60 viram o surgimento de maestros como Karl Richter e a consolidação da Deutsche Grammophon Gesellschaft (subsidiária de música clássica da antiga Philips, hoje Universal) como referência do gênero. A DG cuidou, principalmente, de reabilitar o curso das músicas de Bach e clássicas em geral, do virtuosismo vazio de antes, em favor de uma polidez e de uma preocupação com registros mais “objetivos” e menos emocionais. Pena é que, em alguns casos, como ocorreu com Richter, a tal “polidez” soa tão rarefeita que o ouvinte mais reverencia do que aprecia. Mesmo assim, a qualidade fez com que muitas dessas gravações sirvam de modelo até hoje, e são amiúde reeditadas, hoje, em CD.
Dentre estes, podemos citar Preludes & Fugues , com Simon Preston, que apresenta ao ouvinte neófito o melhor da prolífica fase “religiosa” de Bach em Weimar (1701 a 1717), quando o compositor dedicou toda a sua energia à música para o órgão. Da chamada fase de Köthen (1717), quando, influenciado pelo Barroco italiano, o autor deixou o órgão de lado em favor da música camerística, o ápice deste momento criativo pode ser conhecido nas seculares quatro Orchestersuiten na versão do English Concert and Choir, de onde são conhecidas a belíssima ária da suíte nº 3 e o minueto e a badnerie (aquela da memória do celular) da suíte nº 2. Dessa época também vieram a lume os seis Concertos de Brandeburgo , o maior tributo bachiano à obra de Vivaldi, e cuja série completa foi magistralmente gravada por Karajan e a Filarmônica de Berlim.
Da fase de Leipzig (1723 a 1729), reduto do protestantismo religioso, o mais belo momento está na Matthäus-Passion (Paixão Segundo São Mateus), que pode ser melhor apreciada pelo iniciante em Bach na versão reduzida da Deutsche Grammofon com Karajan. Do segundo período “profano” do mestre de Eisenach (1730 a 1744), quando ele voltou a compor para reis e príncipes ou simplesmente criando apenas para o seu próprio prazer estético e de um pequeno grupo de iniciados, há peças como O Cravo Bem Temperado , cuja versão histórica da DG com Ralph Kirkpatrick, reeditada em versão remasterizada em dois discos, é primorosa. Dos tempos de Leipzig podemos citar as antológicas Variações Goldberg , que possui uma versão completa e eficiente com Rosalyn Tureck, também em CD duplo. Do último período criativo de Bach (de 1744 até 1750), quando o compositor se debruçou sobre passar a limpo toda a tradição da arte polifônica, há a Missa em Si Menor , cuja interpretação de Karajan é tão acadêmica quanto lapidar, e o seu testamento musical, o Die Kunst der Fuge (A Arte da Fuga), cuja gravação realizada pelo Musica Antiqua Köln e certamente a melhor em catálogo.
Os “pós-modernos”
A partir dos anos 70, a música de Bach em disco começou a deixar a sombra dos grandes maestros como Richter, Fürtwangler, Mehnuin, a prescindir menos de nomes e grandes selos e caiu ao rés-do-chão dos jovens John Gardnier, Trevor Pinnock, Tom Koopmann, Helmut Rilling e Andras Schiff, entre outros, ou passou a ganhar edições críticas e registros com instrumentos de época. Todos são bons, embora nem sempre acertem em tudo o que fazem. Mais além, existe uma discografia de Bach “revolucionária”, transgressora e igualmente discutível, como a versão da A Arte da Fuga ou dos Concertos Brandeburgueses pela Il Giardino Armonico (Teledec). Menos acadêmico e mais “tosco”, o conjunto italiano recria obras conhecidas com um amargo sabor de iconoclastia, transformando a sonoridade “sisuda” do clássico em algo mais palatável aos ouvintes mais descuidados.
A diferença entre intérpretes conhecidos e desconhecidos é interessante, ao passo que estes podem nos surpreender. Um exemplo é o holandês Peter Wispelwey, que fez uma excelente leitura das Suítes para Violoncelo (Channel Classics), cujo produto final pode ombrear um Mistlav Rostropovich, sem traumas. Na fronteira entre o solista célebre e o iconoclasta, não há como não pensar no controverso Glenn Gould que, antes de ser um mistificador, era um bachiano eficiente. Muitos críticos defendem que a sua versão para as Variações Goldberg é definitiva. Uma boa edição do pianista canadense está em Glenn Gould: Images , em catálogo pela Universal.
Porém, os melhores registros fonográficos do mestre de Eisenach estão nos Concertos para Violino com Yehudi Menuhin (EMI/Angel). Senão, ouça apenas a sua única interpretação no Adagio Assai do Concerto em Mi Maior (BWV 1042). Além deste, a maior de todas é certamente a leitura insuperável de John Eliot Gardnier para a Paixão Segundo São Mateus (Archiv, 1988), cuja qualidade será difícil de ser superada, pelo menos nos próximos mil anos — assim como insuperável para todo e sempre será a música de Johann Sebastian Bach, desde aquela récita desta mesma obra, há quase dois séculos atrás... 
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