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19 de março a 2 de abril de 2005

Equipe Edições Anteriores

O MITO E A ARTISTA - PARTE II
Vida e morte de Elis Regina se misturam na construção do mito criado em torno da cantora
por Marcelo Robalinho ( marcelorobalinho@yahoo.com.br )

“Em termos de absoluta verdade, não posso negligenciar
o que me foi rico na vida. Cantar não é trabalho, é devoção,
é sacerdócio. E ser artista foi o que me deixou de pé.
Foi para isso que eu vim. Filho é tão forte quanto.
O resto é resto”
Elis Regina

 

s vedetes da grande imprensa são como deuses, já disse certa vez o sociólogo francês Edgar Morin. Olimpianos modernos, esses ídolos – a exemplo de artistas célebres como a cantora Elis Regina – parecem encarnar uma dupla natureza: humana e divina. Apesar de serem gente de carne e osso como qualquer mortal, têm a vida glamourizada , idealizada pela mídia.

Embora a morte prematura e trágica tenha alimentado o culto em torno de Elis Regina, que teria completado 60 anos no último dia 17, a intensidade que a cantora transmitia ainda em vida talvez tenha sido o ponto-chave para construção da idéia do mito. Durante toda a carreira, ela nunca escondeu que era uma pessoa insegura e geniosa, nem teve pudor de se expor publicamente no palco e nas entrevistas.

Adjetivos, aliás, não lhe faltavam. Diversas vezes, foi acusada de ser temperamental, devido ao jeito explosivo. Algo que ela sempre rebatia nas entrevistas. “Acho isso uma grande irresponsabilidade. Irresponsabilidade em relação ao tipo de informação que você passa adiante sobre uma certa pessoa”, criticou a cantora ao ser questionada sobre seu temperamento ( Veja: O sinal está vermelho – 25/10/78).

A bem da verdade, Elis Regina sempre suscitou uma gama de leituras. Podia ser vista como petulante, encrenqueira, mau-caráter e altamente competitiva, sobretudo em relação aos colegas de trabalho. Mas também há quem se lembre dela como uma amiga solidária, carinhosa e presente nas horas mais inesperadas.

Assim foi com Rita Lee. Condenada à prisão por porte de maconha, em agosto de 1976, a roqueira chegou a receber um bilhete de solidariedade de Elis na cadeia. Na época, as duas nem eram amigas, o que acabou ocorrendo tempos depois. “Levei um susto. Nunca havia falado com ela. Logo depois que saí da cadeia, eu devia dinheiro para a Sigla e a Elis sabia. Ela sabia de tudo. Me convidou para fazer parte de seu especial de fim de ano para a TV Bandeirantes (1978). Fiquei tão comovida com isso que fizemos uma música especial para ela, ‘Doce Pimenta'. Pimenta, porém doce”, contou Rita à jornalista Regina Echeverria no livro Furacão Elis (Ed. Globo).

Para João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina com o compositor Ronaldo Bôscoli, a cantora era uma pessoa superemotiva e que dançava conforme a música. “Se você fosse fofo com ela, ela era a pessoa mais fofa do mundo. Se você se metesse a besta, ela virava uma fera de 1,53 metro”, lembrou João Marcello ( Contigo Biografias: Elis foi a melhor – 2004).

Técnica e emoção

Restrições e amores à parte, a única qualidade que parecia ser unanimidade em Elis Regina era o talento. Dona de uma voz exuberante, ela impressionava pelo equilíbrio com que trafegava da técnica à emoção. Sempre que abria a boca para interpretar alguma canção, sentia-se uma dose grande de entrega e busca constante pela perfeição.

Considerada por muitos críticos musicais a maior cantora brasileira de todos os tempos, ela foi se transformando em meio aos modismos musicais e à concorrência em relação às demais intérpretes. Muitas vezes, mudou de estilo, aparência e opinião, como quem muda de roupa. “Quando descobrirem que estou verde, já estarei amarela”, declarou, certa vez, a artista. Por trás de tantas mudanças, que a tornaram a mais mutante das cantoras brasileiras, o que se via em Elis Regina era uma luta constante pela superação de si mesma.

Não morreu sendo apenas uma grande cantora, mas também uma lançadora de novos compositores, um diferencial que sempre a marcou. Pelo seu crivo, passaram vários nomes que estão até hoje no cenário musical brasileiro, como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, a dupla João Bosco e Aldir Blanc, Belchior, Fagner, Tunai e Fátima Guedes.

Conforme escreveu o jornalista Artur Xexéu, as novas gerações que se acostumaram a assistir a shows em que cantoras entram em cena, postam-se diante de um microfone, às vezes se movimentam e saem de cena pouco mais de uma hora de apresentação nem imaginam o que era ver um espetáculo de Elis Regina. “Nos tempos de Elis, shows não estavam necessariamente vinculados a lançamentos de discos. Os de Elis, nunca. Os shows de Elis é que viravam discos. Ela só subia num palco se tivesse certeza de que proporcionaria ao público um espetáculo. E que espetáculos ela proporcionava”, comentou Xexéu ( O Globo: No palco, Elis era sempre um show – 19/01/02).

Repórter do seu tempo

Quase todos os espetáculos que montou a partir da década de 70 tinham uma proposta musical específica, muito além de um simples recital. Falso Brilhante (1975 a 1977), por exemplo, considerado o mais importante show de sua carreira, tinha a intenção de contar toda a trajetória de um artista, desde o momento em que ele descobre sua vocação até quando fica famoso e é obrigado a lidar com o star system .

Pela primeira vez, viam-se músicos no palco não apenas como mero acompanhadores de uma cantora, mas como personagens integrantes de um espetáculo. “A riqueza do espetáculo não é só plástica, visual e sonora. Ela é, principalmente, de propósitos, de fé e de amor. Sente-se isso”, escreveu, logo após a estréia, o jornalista e radialista Walter Silva ( Folha de São Paulo: O show colorido – 19/12/75).

Transversal do Tempo (1977 a 1979), que sucedeu Falso Brilhante , era ainda mais pretensioso. Espécie de reportagem de um tempo, o show mostrava, por meio do repertório e do cenário, a situação das pessoas e tudo o que as permeia, como a destruição da fauna e flora, das águas, da poluição e do próprio isolamento humano.

Em Transversal do Tempo , muita gente, inclusive, chegou a torcer o nariz por vê-la vestida de Nossa Senhora Aparecida cantando ‘Romaria' dentro de um nicho. Ou caracterizada de operária, com capacete e tudo, enquanto cantava ‘Construção'. “Era cafona mesmo. Mas funcionava”, disse Artur Xexéu.

A atriz Marília Pêra, que assistiu ao Transversal do Tempo no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, também comentou sobre o assunto na sua autobiografia Vissi D'Arte (Ed. Escrituras): “Não sei se o repertório era inadequado, se o cenário não tinha imaginação. Mas de uma coisa eu sei: quando ela abria a boca e soltava a voz, pouco importava o guarda-roupa, as músicas apresentadas, a iluminação e tudo o mais! Para mim, e acredito que para todo mundo, o valor estava ali, no som maravilhoso daquela voz inconfundível”.

Ao contrário de muitas cantoras, Elis Regina nunca cultivou o modelo diva. Extremamente articulada e consciente do seu papel, ela fazia questão sempre de se posicionar. Parecia uma necessidade quase vital de se colocar diante das pessoas e defender os seus pontos de vista.

Mesmo que as opiniões se mostrassem equivocadas depois, como aconteceu várias vezes, ela sempre tinha uma postura atuante. “É muito mais provável você chegar à minha casa e me encontrar na cozinha do que recostada num sofá, de robe, ou numa chaise-longue fazendo cara de Barbra Streisand”, declarou a cantora, em 1980, ao repórter Renato Sérgio ( Fatos e Fotos: Elis Regina sensacional – 23/06/80).

Mito após a morte

Com a morte precoce, ocorrida no dia 19 de janeiro de 1982, a intérprete gaúcha acabou sendo alçada à condição de imortal. Tornou-se influência, exemplo, paradigma, deusa, musa, ao tomar como emprestadas as palavras do compositor Aldir Blanc. Mas, ao mesmo tempo, também é interessante notar que a história de vida da cantora revelou insatisfações, problemas e buscas.

Ao contrário das estrelas do cinema ou da música de décadas passadas, que eram consideradas modelos de vida, artistas que morreram cedo e tragicamente como Elis Regina encarnam bem os heróis problemáticos. Um exemplo claro de que não existe mais Olimpo feliz, como diria Edgar Morin.

Ao público, isso talvez pouco importe. É possível que, para alguns, os conflitos e as contradições que Elis costumava expor constantemente tenham tornado sua imagem mais próxima da realidade e menos idealizada. Como também, pelo contrário, pode ter aumentado ainda mais a idéia de uma figura sobre-humana e divina que morreu vítima do sistema a que estava submetida.

É certo que, depois da morte de Elis Regina, inúmeras matérias jornalísticas passaram a se referir à cantora como um mito, assim como a própria indústria fonográfica ( disco Elis, o Mito: Gravadora Som Livre – 1993). O termo, de certa forma, passou a qualificar a intérprete, como um adjetivo a mais no vocabulário de descrições.

Nas comemorações dos 60 anos de nascimento da intérprete, as possibilidades de reflexão a respeito da Elis-artista e a Elis-mito são instigantes...

Elis em três tempos

Dicas para conhecer mais sobre a cantora:

LIVROS

Furacão Elis, de Regina Echeverria (Editora Globo)
Biografia que conta a vida e obra de Elis, além de ser enriquecida com minuciosas cronologia e discografia feitas por Maria Luiza Kfouri

Leniza & Elis, de Ariovaldo José Vidal e Joaquim Alves de Aguiar (Ateliê Editora)
Autores analisam a vida de Leniza Maier, personagem fictícia criada pelo escritor carioca Marques Rebelo no romance A Estrela Sobe, de 1939, e Elis Regina, personagem real

Elis Regina por ela mesma, de Osny Arashiro (organizador) (Martin Claret)
Além de um perfil biográfico, o livro possui uma série de artigos e matérias publicados antes e após a morte da cantora

DISCOS E DVDs

Elis & Tom (Trama)

Encontro histórico entre a cantora e o compositor. Gravado em Los Angeles em 1974 e considerado um dos mais importantes álbuns brasileiros de todos os tempos. Relançado em formato CD e DVD Áudio com duas faixas bônus, Bonita e Fotografia (em versão alternativa)

Elis Regina no Montreaux Jazz Festival (Warner)

Registro sonoro do show de Elis no tradicional Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça, de 1979. Originalmente lançado em formato vinil, o disco foi relançado em 2001 com sete faixas bônus, como ‘Samba Dobrado', música de Djavan nunca gravada por Elis

Elis – 1972 (Universal Music)

Considerado um dos melhores álbuns de Elis. Lançado em 1972, é o que tem na capa a cantora sentada numa cadeira de vime e cujo repertório inclui canções do quilate de ‘Águas de Março', ‘Atrás da Porta', ‘Nada Será como Antes' e ‘Mucuripe'.

Elis Regina no MPB Especial (Trama)

DVD com registro do programa MPB Especial, de 1973, da TV Cultura. Durante quase 100 minutos, Elis interpreta 17 músicas e fala de sua vida e carreira

SITES

elisreginapimentinha.zip.net

Blog que retrata, com detalhes e algumas curiosidades, shows, reportagens e passagens da carreira da cantora gaúcha

editora.globo.com/especiais/2005/elis

Hot site criado especialmente pela Editora Globo para comemorar os 60 anos de Elis. Além de biografia e discografia, possui uma farta galeria de imagens da cantora e depoimentos exclusivos de colegas de trabalho

www.inforum.insite.com.br/14391 e www.inforum.insite.com.br/2439

Fóruns de discussão que reúnem fãs do Brasil inteiro para discutir a vida e a obra de Elis Regina