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19 de março a 2 de abril de 2005

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VIVER E MORRER NO CINEMA
O sentido da eutanásia em Menina de Ouro e Mar Adentro vai muito além da polêmica superficial
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

té onde vai o poder de uma pessoa sobre sua própria vida? Pode o Estado, a Igreja, ou a Família reclamar o direito de decidir, contra a vontade do indivíduo, que ele deve continuar vivo? A eutanásia é um crime ou um ato de solidariedade?

Estas são algumas questões colocadas por dois filmes em cartaz: Menina de Ouro e Mar Adentro . Ambos têm em comum o fato de não pretenderem ser tratados sobre o tema; nem Clint Eastwood nem Alejandro Amenábar desejam dar uma resposta definitiva para a questão da eutanásia. Querem apenas mostrar histórias particulares de indivíduos que, por uma ou outra razão, decidem que a vida não lhes serve mais. O assunto não poderia ser mais controverso, mas os diretores querem apenas contar suas histórias e, através delas, mostrar que existe uma barreira que a lei não pode ultrapassar: a escolha pessoal de cada indivíduo.

Mas também é verdade que o cinema tem o poder de generalizar o particular, de torná-lo uma regra, de representar os medos e desejos de toda a platéia através de um personagem, usar de artifícios narrativos para nos fazer abraçar ou rechaçar sua conduta. A neutralidade, um objetivo impossível até nas ciências exatas, é inatingível por definição no cinema. Vemos a questão da eutanásia pelas perspectivas dos personagens principais; por conseguinte, tendemos a concordar com eles. Ramón Sampedro e Maggie Fitzgerald desejam a morte: ele, por viver paralisado do pescoço para baixo por 29 anos, e ela, por estar viva através de aparelhos depois de um incidente numa luta de boxe. Para eles, a vida não merece ser vivida senão em sua plenitude. É uma atitude condenável, em vários sentidos: Mar Adentro e Menina de Ouro foram alvo de críticas tanto da Igreja e de grupos conservadores quanto de instituições defensoras de direitos dos tetraplégicos. No entanto, se Clint Eastwood e Alejandro Amenábar se escondem da polêmica atrás do individualismo de seus personagens, é noutro elemento dos filmes que vamos encontrar suas reflexões acerca deste assunto: para ambos, é na morte que se mostram as verdadeiras extensões dos laços de família – real ou conquistada – que tivemos em vida.

Em Menina de Ouro, Maggie Fitzgerald (Hillary Swank), Frankie Dunn (Clint Eastwood) e Eddie Dupris (Morgan Freeman) são personagens sozinhos no mundo, incompreendidos por sua família de sangue. Frankie passa a vida mandando cartas para sua filha, que invariavelmente voltam fechadas para seu endereço. Maggie, desde o início, é caracterizada como “white trash” (expressão americana para aquelas pessoas que foram criadas em áreas degradadas, formadas por grandes trailers amontoados, a versão ianque para as nossas favelas). Eddie não tem mais o que fazer a não ser cuidar do ginásio de Frankie, ao mesmo tempo seu local de trabalho e sua casa. Maggie quer ser treinada por Frankie, que se recusa, dizendo não treinar garotas; é através da sua garra e insistência que ela conquista a confiança e o coração de Frankie. Esta estranha família que se forma vai ser colocada à prova depois da luta que deixa Maggie numa cama, respirando por aparelhos: a família real de Maggie só quer saber de herdar o dinheiro que ela acumulou na curta carreira. Cabe a Frankie cuidar de Maggie, mas esta não é a vontade dela: ela lhe pede que a mate, porque não quer viver como uma sombra do que já foi. A partir daí, Frankie vai ser confrontado com uma escolha: deve ser fiel à sua “filha”, ou fazer o que é “certo” (deixar que ela viva, da maneira mais digna possível)? A decisão de seguir o “errado” é, paradoxalmente, sua prova de amor final para com Maggie.

Eastwood conta esta história com uma sobriedade exemplar; não há um plano a mais em sua montagem, um acorde acima do tom em sua música. Tudo em Menina de Ouro é econômico, austero, simples e direto. A morte não se coloca no filme apenas através da eutanásia; todo o filme é um requiem, um poema fúnebre em cores neutras, onde os personagens estavam perdidos, até se encontrarem, e se perderem de novo.

O caso de Mar Adentro é mais complicado, principalmente por se tratar de um fato real. A luta do marinheiro Ramón Sampedro para pôr fim à sua vida foi um marco na Espanha. Debilitado por um acidente enquanto mergulhava perto de sua casa, Ramon se matou ingerindo uma solução de água e cianureto. Fez isto com a ajuda de pelo menos dez pessoas: um comprou o químico, outro deixou em sua casa, outro misturou com água, outro deixou o copo perto dele… Assim, ninguém poderia ser incriminado pela sua morte. Amenábar conta esta história de uma maneira suntuosa: ao contrário de Menina de Ouro, Mar Adentro é um hino à vida. Com seus vertiginosos movimentos de câmera, sua fotografia esplendorosa, os sutis detalhes na maneira de contar a história (pela primeira vez no cinema vemos o “filme” que passa pela cabeça de alguém que está à beira da morte) o filme é um triunfo de uma mente privilegiada. Amenábar é, hoje em dia, um dos mais poderosos contadores de histórias do cinema. Com sua beleza, Mar Adentro provoca em nós a inevitável pergunta: como alguém que ama tanto a vida pode querer morrer?

A resposta está em cenas como a que Javier Bardem, em sua imaginação, voa pela janela ao encontro de sua amada na praia, ao som da ária Nessun Dorna, de Puccini. E aí entramos na questão do poder da ficção e de um grande contador de histórias: perto de uma cena bela como esta, não só o tetraplégico Ramon Sampedro, mas até nós mesmos, dentro de nossa minúscula condição de espectadores de cinema, nos perguntamos se a vida vale mesmo a pena. Amenábar exagera ao tomar o partido de Ramón; em nenhum momento suas convicções sofrem o mínimo desgaste. Como nos filmes americanos, não há espaço para debate; o herói tem razão e pronto.

Amenábar tem mais sucesso quando nos faz ver além da deficiência física de Sampedro. No filme, todos os personagens são aleijados, a todos falta algo de vital: o amor, a inteligência, a sanidade, a delicadeza, a capacidade de externar sentimentos, a coragem. Neste contexto, Ramón é o mais saudável de todos, pois é o único que tem um objetivo claro na vida: morrer. Só respeitando este desejo é que todos podem lhe fazer justiça. Como em Menina de Ouro, a vida dos personagens encontra seu auge, paradoxalmente, na morte de quem mais amam.

Menina de Ouro e Mar Adentro não são filmes sobre a eutanásia; são filmes sobre atos de amor, sobre a feroz fidelidade que se cria entre pais e filhos, entre maridos e mulheres, entre irmãos, entre amigos, entre pessoas estranhas que se encontram e se tocam sem saber o porquê. São traduções vivas da charada que Oscar Wilde nos deixou há mais de um século: “Todo homem mata o que ama”.