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2 a 23 de abril de 2005

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ASAS DA REDENÇÃO
Épico mas sutil, Angels in America revê um país segregado por uma doença muito pior que a Aids
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

“Quem, se eu gritasse entre as legiões dos Anjos, me ouviria?”
Rainer Maria Rilke, em Elegias de um Duíno

os anos 80, o mundo via surgir os primeiros sintomas de uma doença que afetaria, principalmente, homossexuais e usuários de drogas injetáveis: a Aids. Nos Estados Unidos, o governo Reagan era reeleito, dando continuidade ao recrudescimento do conservadorismo americano. É nesse cenário de pessimismo e de incertezas que se desenrola a minissérie Angels in América , produzida e exibida pelo canal a cabo HBO e lançada recentemente em DVD.

Dirigida por Mike Nichols ( Closer – Perto Demais ), Angels in America foi escrita para o teatro e adaptada para a televisão por Tony Kushner. Sua história, com quês autobiográficos, leva-nos em uma jornada de reflexões sobre a vida, o amor e a morte. Durante 6 horas (dividida em 2 DVDs), somos jogados em meio a um turbilhão de conflitos e emoções aos quais se juntam temas complexos como religiosidade, política, sexualidade, história americana e generosas doses de Valium .

À primeira vista, Angels , pode assustar espectadores menos avisados devido à duração excessiva das cenas, infladas por longos diálogos que não escondem a origem teatral da minissérie, e também por tratar de um tema difícil como a Aids. Mas quem superar esses obstáculos iniciais estará assistindo a uma das produções mais originais e ousadas que a TV americana produziu até o momento.

Vencedor do Globo de Ouro em cinco categorias (melhor minissérie, ator para Al Pacino, atriz para Meryl Streep, ator coadjuvante para Jeffrey Wright e atriz coadjuvante para Mary-Louise Parker), Angels tem seu ponto forte no primoroso trabalho dos atores e nos diálogos, cruéis, humanos e verdadeiros. Em um deles, talvez o melhor de todos, o enfermeiro Belize (Wright) resume bem toda sua desilusão e amargura com o preconceito, a discriminação e o povo americano, usado como metáfora da própria raça humana: “Eu odeio a América Louis. Eu odeio esse país. Nada além de um monte de idéias e histórias, e pessoas morrendo e gente como você. O cara branco que escreveu o Hino Nacional, colocou a palavra “livre” em uma nota tão alta que ninguém pode alcançá-la. Isto foi proposital. Nada no mundo soa menos como liberdade para mim. Venha comigo ao quarto 1013 do hospital e eu lhe mostrarei a América. Terminal, malvada e louca. Eu vivo na América, Louis, eu não tenho que amá-la. Ame você. Todo mundo precisa de algo para amar”. A América moribunda e enlouquecida a que ele se refere é o advogado corrupto e homossexual enrustido vivido por Al Pacino – daí já se pode ter uma idéia do pH ácido generalizado da série.

Mesmo falando sobre doença e morte, Angels in America é, acima de tudo, sobre vida e todos os paradoxos de nossa existência. Porque machucamos quem mais amamos? Qual a tênue linha que separa a aceitação da discriminação? Onde termina o ódio e começa o perdão? Épico nas intenções e intimista no conteúdo, Angels traça um painel melancólico das relações humanas, que, muitas vezes, são transformadas em um ciclo vicioso, do qual a saída é complicada, difícil e quase inacessível.