| NO FUNDO DO POÇO
Distante do original americano e da continuação japonesa, O Chamado 2 se perde nos elementos do terror
por Marcel Nadale (
marcel@rabisco.com.br )

ão existe, evidentemente, uma fórmula indefectível para se fazer um filme campeão de bilheteria. Sabe-se, porém, que sucessos avassaladores e inesperados em geral são sinal de que algum ponto sensível do inconsciente da platéia foi tocado. Filmes de terror, por incrível que pareça, são os mais comumente aptos a capturar esse zeitgeist cinematográfico, por lidarem com emoções viscerais e muitas vezes atávicas. Foi o caso, em 2002, de O Chamado , remake americano de um filme japonês que abordava uma série de questões da fragmentária vida moderna, como nosso prazer mórbido de ver e nossa dependência em meios de comunicação que nos unem e, ao mesmo tempo, nos separam. Mas tratava-se, sobretudo, de uma história de vingança, não da pequena Samara, mas da verdadeira vilã: a fita cassete, que surgia para retaliar a iminente morte do formato diante da explosão das vendas de DVDs.
Eis que, inevitavelmente, temos O Chamado 2 . Os tempos são outros e o espírito, definitivamente outro. O terror japonês já virou moeda corrente em Hollywood e, se a supremacia do DVD não mais permite uma leitura simbólica como a do original, ao menos os produtores da continuação poderiam remeter à seqüência japonesa para evitar os mesmos defeitos. O pavor inerte da fita cassete se encerra na primeira seqüência, que serve apenas para lembrar a repórter Rachel Keller (Naomi Watts) que a maldição de Samara não deixou de acompanhá-la em seu novo endereço, uma pacata cidade litorânea. Rachel literalmente “queima o filme” e ali se esvai o charme da série.
O roteirista Ehran Kruger é o mesmo que substituiu Kevin Williamson no capítulo final da trilogia Pânico e, aparentemente sem idéias, mais uma vez recorre às neuroses e aos traumas que urdem nos subterrâneos da relação entre mãe e filho. Como é comum ao cinema americano, torna-se mais importante explicar a origem da maldade de Samara Morgan do que maravilhar-se diante do pleno terror de sua figura, agora um tanto esvaziada. Daí se embolam mães adotivas, depressão pós-parto, carência filial, abuso infantil e assistência social. Na nova trama, não são as fitas de vídeo que se tornam o receptáculo do fantasma maligno de Samara, mas sim o filho de Rachel, Aidan. Por força desta alteração, O Chamado 2 substitui, como metáfora para o inconsciente, o moderno chiado branco e preto da TV fora do ar pelo movimento das águas – uma imagem tão evocativa quanto, mas mais corriqueira, que diminui terrivelmente o senso de genuíno estranhamento provocado pelo original. Destituído de sua matriz, todo o filme se desconjunta. Fato que há, especialmente no começo, cenas tensas que utilizam os elementos sobrenaturais estabelecidos anteriormente – a mosca zunindo, os eqüinos assustados, a água transbordando – e que são, talvez, a única compensação de se assistir ao filme. Mas, logo adiante, o roteiro paga o preço por empregá-los sem juízo: O Chamado 2 entra no rol daquelas continuações que, ao tentar ampliar ou explicar o original, acabam por traí-lo e contradizê-lo. |