| ABAIXO DO BEM E DO MAL
Entre anjos e demônios, o anti-herói Constantine luta para se salvar
por Alessandro "Max" Sachetti (
max@rabisco.com.br )

onstantine é um filme-desafio para o protagonista e para o diretor , Francis Lawrence. Keanu Reeves marca sua volta como protagonista após o sucesso da trilogia Matrix e Francis Lawrence estréia como diretor, após anos de experiência como videomaker e diretor de videoclipes. Em ambos os casos, era grande o risco de os dois se tornarem caricaturas do sucesso passado.
Apesar dos riscos, essas armadilhas foram desarmadas com competência. Francis Lawrence propôs uma direção correta e segura, com belos planos e utilização inteligente dos efeitos especiais e sonoros, que apesar de hiper-realistas, caíram como uma luva para o propósito do roteiro. E Keanu Reeves sustentou com responsabilidade o papel, apesar da mudança de perfil proposta pelo casting – o Constantine original das histórias em quadrinhos é loiro, alcoólatra e irlandês – traçando um perfil que supera as expectativas, deixando claro para um público mais atento seu esforço na composição do personagem.
Nascido com um dom que não desejou - a capacidade de reconhecer claramente os anjos e os demônios híbridos que andam pela Terra com aparência humana -, Constantine tirou a própria vida para escapar do tormento de suas visões. Mas fracassou. Ressuscitou contra a sua vontade e viu-se novamente no mundo dos vivos. Agora, marcado como um suicida com um curto período de vida, ele protege a fronteira terrestre entre o Céu e o Inferno, com a vã esperança de conquistar sua salvação enviando os soldados do demônio de volta para as profundezas. Na luta para salvar a sua alma, e só sua alma, John Constantine conhece a policial Angela, que investiga a morte misteriosa de sua irmã, Isabel, que aparentemente se suicidou. Engana-se quem imagina que daí pra frente é uma sucessão de clichês - bem ou mal feitos - e que até o final o filme é apenas monótono. Talvez não sejam as cenas de ação as mais importantes, mas sim o questionamento psicológico/religioso. Os conflitos vividos pelos personagens fogem do âmbito simples de um filme “ocultista”, estão presentes no nosso cotidiano, assim como a questão da fé ou da ausência e incerteza da mesma, um teste para o limite de nossa crença. Um dos trunfos do filme está aí: utilizar discurso e linguagem de um thriller sobrenatural para abordar questões universais.
Com referências diretas ao catolicismo e ao ocultismo, Constantine já provocou a ira de alguns religiosos desavisados, que acabam por não perceber que o filme não trata da luta entre o Bem e o Mal, mas entre o bem e o mal que existe dentro de cada um de nós  |