| PSICANÁLISE DE VESTIDO
Sandra Bullock fragmenta a persona feminina moderna entre suas colegas na comédia Miss Simpatia 2
por Marcel Nadale (
marcel@rabisco.com.br )

iss Simpatia atracava-se brutalmente com a distinção entre o pathos do masculino e do feminino que está no cerne de toda comédia romântica. A masculinizada agente Gracie Hart fazia as pazes com seu lado mulher quando era forçada a infiltrar-se em um concurso de Miss EUA ameaçado por um terrorista. Comédia rasteira mas eficiente, em grande parte por causa de Sandra Bullock, o filme no máximo tateava sobre a confusa situação atual do feminismo. O movimento, pendular como qualquer outro, afasta-se dos extremos da década de 60 e atualmente parece pregar que maquiagem e moda também podem ser armas para atingir “a paz mundial”. O difícil era notar, dentro ou fora de Miss Simpatia , se o pêndulo agora se encontra em uma posição central conciliatória ou se vai cada vez mais para um perigoso (e inexplorado) extremo oposto.
Esta incerteza pode ser notada na continuação. As múltiplas cobranças que recaem sobre a mulher moderna, especialmente na (falsa) dicotomia entre vida pessoal e profissional, a forçam a simular diferentes personas. Poucas semanas após os eventos do primeiro filme, Gracie descobre que seu novo status como celebridade a impede de extravasar sua masculinidade no trabalho de campo. Para piorar, seu pretendente romântico do filme original termina o relacionamento por telefone (Benjamin Bratt recusou-se a retornar ao papel). Os motivos em ambas as searas a levam a aceitar uma nova e total transformação física para tornar-se uma espécie de porta-voz pop do FBI.
Sem saber, Gracie migra para um estereótipo muito associado à figura feminina: o da futilidade material. No entanto, como todo desejo egóico suprimido pelo consciente, Gracie vê sua persona masculina surgir de maneira explosiva na nova parceira, a rude e pragmática Sam Fuller (note o nome ambíguo), vivida por Regina King. A dinâmica do filme aumenta a aposta do original: agora temos os dois arquétipos de Gracie, masculino e feminino, não se sucedendo, mas coexistindo, trombando-se constantemente diante das câmeras. Um deles é falso. O outro, também. O evento necessário para que as duas se fundam na “mulher ideal” é o duplo seqüestro de Cheryl, a Miss EUA eleita no filme anterior, e de Stan, o apresentador do concurso.
O mais interessante é notar como Miss Simpatia 2 , ao contrário do original, renega o gueto da comédia “romântica” ao não oferecer a Gracie um novo interesse amoroso. A tomada final após o clímax do resgate, habitualmente reservada em outros filmes ao desenlace da tensão sexual entre mocinha e mocinho com um beijo, aqui é substituída por Gracie caminhando rumo à câmera, finalmente confiante com sua nova persona, que não é definida por sua relação a um homem, mas sim pela conquista de seus múltiplos papéis sexuais – a acompanham, lado a lado, Sam, Cheryl, Stan, o assessor de moda Joel e o agente Phillips. Não há dúvida da representação simbólica da cena: na jornada de Gracie rumo à maturidade, não somente Sam, mas todos eles desempenharam algum fragmento de sua personalidade de gênero, ou, ainda, os diferentes arquétipos que a sociedade cobra e condena: a garota naturalmente feminina, bela, mas burra e indefesa; o homem “castrado”, que é comandado no trabalho e traído pela namorada; o homossexual que transita sem neuras na fina linha entre o masculino e o feminino.
O elenco de apoio do filme, portanto, tem mais esta função psicanalítica do que propriamente cômica. Michael Caine faz falta e William Shatner não é de todo aproveitado. Mas, em especial por causa de Bullock, o filme funciona muitíssimo bem.
Há, inclusive, uma seminal passagem por um clube de drag queens de Las Vegas que é tudo que Connie e Carla tentou ser e não conseguiu. “Eu não vou ser uma mulher que se passa por um homem que se passa por Tina Turner!”, reclama em certo momento Regina King. Em nenhum outro contexto uma frase como essa poderia ser tão significativa, elucidativa e engraçada quanto em Miss Simpatia 2. |