| DUPLA PERSONALIDADE
Reencarnação não é suspense nem terror: é apenas mais um filme ruim de Nicole Kidman
por Fábio Freire (
fabio_fcosta@hotmail.com )

tualmente, Hollywood investe em duas diferentes vertentes do filme de terror. A primeira são as bem sucedidas adaptações comerciais de longas de terror japonês. O Chamado , O Grito e o ainda inédito Dark Water são alguns exemplos desse tipo de produção que aposta em imagens aterrorizantes e histórias sustentadas por lendas urbanas. A outra vertente, bem mais pretensiosa artisticamente, envereda por tramais mais complexas, com um pé no thriller psicológico. O sucesso de filmes como O Sexto Sentido e Os Outros marcou o início dessa nova febre hollywoodiana, onde virou mania explorar longas com reviravoltas mirabolantes e com crianças enroladas em histórias supostamente assustadoras. O problema é que esse novo “gênero” já foi explorado à exaustão, gerando filmes menos pretensiosos, como Ecos do Além , ou aberrações - como O Enviado , O Amigo Oculto , Os Esquecidos ou A Filha da Luz .
Reencarnação , novo trabalho de Nicole Kidman, até poderia ser enquadrado nesse segundo tipo de filme, se fosse uma produção de terror, claro. Apesar de ser vendido como tal, o filme está muito mais para um drama psicológico do que um longa de suspense. A trama não traz nenhum mistério e qualquer pessoa com um pingo de senso percebe todo o seu desenrolar já no começo. O diretor Jonathan Glazer até tenta construir um certo clima, mas a simplicidade e covardia do roteiro jogam uma pá de cal em qualquer boa intenção da produção.
Mesmo não sendo um filme de terror convencional, digamos assim, Reencarnação bebe diretamente na fonte de um clássico do gênero: O Bebê de Rosemary . O bom uso da geografia de um apartamento, os silêncios e a movimentação das câmeras remetem diretamente ao filme de Roman Polanski. Até o visual da protagonista lembra a fragilidade de Mia Farrow, estrela daquela produção. Mas Glazer não é nenhum Polanski e Reencarnação sofre por isso. O poder da sugestão – utilizado com louvor por Polanski – é praticamente ignorado, mesmo porque não há nada a sugerir. Mas é justamente a direção de Glazer que consegue despertar um interesse mínimo nesse trabalho irregular. O diretor demonstra talento ao compor cenas de uma beleza plástica ímpar. O ritmo lento, algumas tomadas surpreendentemente longas e os bem conduzidos silêncios ajudam a maquiar a fragilidade do roteiro. A fotografia em tons pastéis – com destaque para as cores verdes e amareladas – e a direção de arte eficiente resultam em um filme elegante e sofisticado. Até parece que o diretor sabe que o fiapo de trama que tem nas mãos não é suficiente para a realização de um bom trabalho. A partir daí, ele se cerca de todas as ferramentas técnicas possíveis para elaborar pelo menos um longa interessante esteticamente, com uma aura extremamente palpável de filme de arte.
A premissa é até interessante. Anna (Nicole Kidman) está prestes a se casar com Joseph (Danny Huston). Os problemas começam a aparecer quando um garoto surge dizendo ser Sean, marido morto de Anna há dez anos. Anna, abalada emocionalmente, passa a acreditar no garoto, apesar do desconforto de seus parentes e noivo. O começo da trama convence, mas a falta de um roteiro mais estruturado destrói o potencial da produção. A total ausência de sentido nas ações das personagens, que nunca parecem estar realmente cientes do absurdo da situação, também são um indicativo de que algo está errado. O tema pedofilia chega a ser abordado, mas se revela apenas uma polêmica descartável que tenta a todo custo prender a atenção do espectador.
Glazer, então, se perde nas armadilhas das produções de terror, mesmo não sendo uma: personagens secundários misteriosos, enquadramentos claustrofóbicos e uma suposta reviravolta surpreendente (revelada através de flashbacks desnecessários que corroboram com a tese de que Hollywood acha que o público é realmente burro). Quanto à interpretação de Nicole Kidman (indicada ao Globo de Ouro), há pouco a se dizer. A atriz se esforça e compõe uma protagonista fragilizada mentalmente, mas, mais uma vez, o roteiro falha ao não desenvolver corretamente o drama da personagem. Nicole, aliás, precisa urgentemente fazer um bom filme. Depois do Oscar por As Horas , a atriz só se meteu em roubada (a exceção do contraventor Dogville ). Reencarnação , definitivamente, não marca o retorno da estrela à boa fase. |