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2 a 23 de abril de 2005

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O QUE É BOM DURA POUCO; SENÃO, ESTRAGA
A longevidade alcançada pelo desenho Os Simpsons pode ter se tornado a sua pior inimiga
por Renan Alves ( jasonkornblow@hotmail.com )

éries têm prazo de validade. Ou elas acabam por bem (terminam quando a equipe de criação se dá conta de que não tem mais nada para apresentar) ou acabam por mal (com a queda na qualidade, caindo junto a audiência). Há, evidentemente, aquelas que sequer conseguem alçar vôo direito, sendo canceladas ainda em seu auge criativo. São casos cada vez mais freqüentes, e, apesar da injustiça que sofrem, ao menos estas vítimas partem mantendo seu nome limpo. As que se estendem mais do que deveriam, no entanto, são as que amargam o destino mais cruel: ficam com sua imagem manchada no imaginário dos fãs. E tudo o que já foi feito de bom acaba sendo eclipsado pelos deslizes que começam a ser cometidos quando os produtores perdem a mão. Nessa categoria não há exemplo mais ilustrativo atualmente do que Os Simpsons .

Durante suas primeiras temporadas, o desenho foi um dos melhores programas humorísticos da televisão. Com piadas inteligentes e maduras para uma animação e tecendo sátiras afiadas ao típico estilo de vida norte-americano, Homer e sua família transformaram-se em um gigantesco sucesso, assistido por milhões de pessoas ao redor do mundo, aclamado pela crítica e, como não poderia deixar de ser, superexplorado comercialmente.

Nessa fase as histórias tinham uma temática mais séria, os personagens eram mais humanos e, por mais exageradas e descabidas que fossem as suas ações, elas ainda apresentavam certa verossimilhança. Os enredos eram mais bem estruturados e definidos, além de, não raro, surpreenderem o público com algumas sacadas geniais. Havia, sobretudo, um espírito subversivo que sabia exatamente onde queria chegar – e como fazer isso.

Hoje os roteiristas buscam o humor ao qualquer preço. Fazem apelações constrangedoras, recorrem a cenas escatológicas desnecessárias e tomam decisões infelizes, como a morte de Maude Flanders e o nascimento dos oito filhos de Apu, que não acrescentaram nada de interessante ou positivo ao rumo da série.

As novas temporadas são uma sucessão de desastrados tropeços. No 15º ano, por exemplo, a poucos instantes do término de um episódio passado na Inglaterra, Homer encontra-se com uma provável irmã sua e, após um dialogo tão rápido quanto imbecil entre ambos, as coisas ficam por isso mesmo, sugerindo que ela jamais tornará a aparecer. Em sua melhor época isso sem dúvida seria abordado com a seriedade que exige. Em The Way We Weren't descobre-se que Homer e Marge não se conheceram no último ano do colégio, como se sabia até então, mas sim durante um acampamento de férias quando ainda eram crianças. Uma revelação estéril e sem necessidade.

Simplesmente não há mais o que ser feito com os Simpsons (pelo menos não pela atual equipe responsável) e, assim, tudo o que se ousar realizar daqui pra frente redundará em um pavoroso erro que se somará aos imbróglios que já ferem a trajetória dessa magnífica série animada. Os fãs mais ardorosos, cegos em sua devoção, é claro, irão discordar. Para eles, mais meio século de histórias inéditas seria uma benção inestimável. O que, de fato, seria verdade, se boa parte das suas principais qualidades houvessem sido mantidas.

Seria lamentável ver encerrado desta maneira um dos seriados mais influentes e queridos da TV, por onde passaram várias celebridades em participações especiais inesquecíveis; que não apenas espalhou pelo mundo a imagem da família norte-americana imperfeita, como também revelou os defeitos de seu grandioso país; e que foi precursor em um estilo de animação adulta que posteriormente daria origem a outros ótimos desenhos, como South Park e King of the Hill . Infelizmente, nem sempre a melhor decisão a se tomar é a mais agradável.