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14 a 28 de maio de 2005

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LEI E DESORDEM
Nada de novo para os brasileiros: forças do crime e da lei embaralham seus papéis no remake de Assalto à 13ª DP
por Marcel Nadale ( marcel@rabisco.com.br )

e você é adepto do Determinismo e acredita que um filme, tanto quanto um homem, é fruto de seu tempo e seu meio, então por definição você também é contrário aos remakes. Assalto à 13ª DP não fará muito para alterar sua opinião – e nisto reside sua principal diferença do original, dirigido há quase 30 anos por John Carpenter, e, por sua vez, também um remake, mas do raro tipo que tinha razão de ser. O filme era uma releitura de Onde Começa o Inferno , clássico western de Howard Hawks com John Wayne. Carpenter, um bom diretor costumeiramente lembrado apenas por seus filmes de terror, como Halloween e Vampiros , possuía tal conhecimento da cinematografia americana, e em especial paixão pelo faroeste, que trafegava entre gêneros com facilidade. Assalto à 13ª DP trazia o bangue-bangue ao universo do filme policial quase tanto quanto o mais recente Fantasmas de Marte retrocedia a ficção científica vários séculos de volta às cidades sem lei do Velho Oeste.

No tempo das diligências, o xerife John Wayne contava apenas com um jovem pistoleiro, um auxiliar bêbado e um velho manco para impedir a ofensiva de um grupo de bandoleiros. Tempo e meio: Carpenter manteve a ação na costa oeste, mas a trouxe para a Los Angeles daqueles instáveis anos 70, quando a força policial de uma delegacia prestes a ser desativada não mais podia conter a insurgência das gangues de rua aliadas. O elenco era de desconhecidos (como o filme também é, de certa maneira). A versão atual, ambientada em Detroit para justificar uma nevasca, é liderada por Ethan Hawke no papel de um delegado que, amargurado com o fracasso de uma missão à paisana de seu passado, está prestes a aceitar um trabalho burocrático quando sua 13ª DP for substituída pela mais moderna 21ª.

O clichê do “policial traumatizado” não é o único. Todos os habitantes da 13ª DP nesta gelada noite de Reveillon são estereótipos banais – mas o gênero policial, aquele hardcore mesmo, movido por um fiapo de história, em que há muito tempo as produtoras não investiam, talvez seja o único que não se ressente deste tipo de falha. É com amabilidade que conhecemos o irlandês prestes a se aposentar (Brian Dennehy), a secretária gostosona (Drea de Matteo), a psicóloga decidida e profissional (Maria Bello) e, entre os prisioneiros, o junkie latino (John Leguizamo), o contrabandista tagarela (Ja Rule) e o líder fodão do submundo (Laurence Fishburne). E todos serão vítimas de um policial corrupto (Gabriel Byrne) disposto a eliminar evidências de seus crimes. Precisarão unir forças para sobreviver à madrugada crivada de balas.

O enxerto deste novo antagonista é a mudança mais radical em Assalto à 13ª DP . Pode parecer torná-lo mais atual, mas é uma ilusão que só cola em quem não viu o original. A alteração condena-o à mesma alienação de outros remakes de filmes daquela década, como Rollerball ou Mulheres Perfeitas . Tempo e meio, novamente: todos eles traziam um forte subtexto de denúncia e protesto, ora contra uma estrutura política estratificada e excludente, ora contra uma sociedade de consumo massificado. Embora Carpenter sempre os descrevesse como vilões, havia uma tensão social muito evocativa na rebelião dos marginais de Assalto , motivados pela ação violenta e autoritária da polícia. Tanto é que, exatos 15 anos depois, Los Angeles chegou a viver seis dias de uma guerra civil de tom muito similar ao do filme, quando a população incendiou viaturas, destruiu lojas e barricou ruas para protestar contra a absolvição de quatro policiais que haviam espancado sem motivo o negro Rodney King. Esse desconforto entre civis e forças armadas nas grandes metrópoles sempre existiu, estava destinado a eclodir e agora LA tinha US$ 1 bilhão em prejuízos públicos e privados como prova.

A despeito de um desenrolar bastante competente, é esta abordagem de Assalto à 13ª DP que talvez mais interesse ao público brasileiro, cultural e historicamente refratário a filmes em que policiais são eternos heróis. Aqui, diante de notícias como a recente e grotesca chacina no Rio de Janeiro, ou mesmo o assassino serial de sem-tetos no centro de São Paulo, estamos bastante acostumados com a troca de papéis entre forças do crime e autoridades da lei.