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14 a 28 de maio de 2005

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UM PASSEIO AO CREPÚSCULO
O Clã das Adagas Voadoras , de Zhang Yimou, é um quadro em movimento de Van Gogh
por Alexandre Reis ( alexandrecostareis@uol.com.br )

s palavras importam muito pouco, quase nada, no filme O Clã das Adagas Voadoras , produção chinesa dirigida por Zhang Yimou, de Lanternas Vermelhas (1991) e Herói (2002). Com um simples olhar de Mei, personagem interpretada Zhang Ziyi (mais conhecida aqui pelo ocidente como a samurai de berço aristocrático do filme O Tigre e o Dragão , de Ang Lee), é possível captar a emoção de cada tomada, melhor do que linhas e mais linhas de falas.

Uma história romântica clássica – o amor esmorecido pelo ódio, pelo ciúmes e pela política –, com alguns truques de narrativa também clássicos – porém nunca baratos, vale frisar –, cujo maior mérito narrativo é a valorização da cor. Zhang Yimou, que tem a ambição em seus filmes de dar o tom das cenas através de cores e planos precisos, pintou um quadro em movimento de Van Gogh, assim como já fizera, em homenagem ao artista plástico, o mestre Akira Kurosawa (também já o celebraram Vincent Minelli, com Sede de Viver , de 1956, estrelado por Kirk Douglas; Robert Altman, com Vincent e Theo de 1990; e Maurice Pialat, com Van Gogh de 1992).

Mei é a Girl in The Woods do pintor francês. Nela, e em volta dela, figura a luminosidade, a força expressiva e o mistério de um quadro impressionista. Ao lado de Jin (Takeshi Kaneshiro), fugindo dos agentes da ditadura Tang, que reinou na China imperial de 618 a 907, os dois passam pelo Passeio ao Crepúsculo nas florestas e campos chineses, contorcendo os corpos aparentemente frágeis em lutas vencidas pela mitologia.

Imagens fotografadas em tons de verde (as cenas no bambuzal são indescritíveis), amarelo, vermelho e branco marcam o desenrolar da narrativa, uma verdadeira pérola visual. Através das cores, O Clã das Adagas Voadoras revela o despertar e o crepúsculo de um amor impossível. No início, é verde e espaçoso, em mata aberta. Quando se torna mais intenso, é amarelo e vermelho, é paixão. E quando torna-se violento, o branco da neve faz o contraste com o vermelho viscoso do sangue.

Dizem que ninguém entendeu mais Van Gogh quanto os orientais, que são extremamente expressivos e misteriosos, com seus olhos puxados e pele amarela. Muitas perguntas, nos diálogos do filme, são respondidas pela simples troca de olhares, ou gestos corporais. Os chineses são coreográficos na essência. Nota-se isso na dança, nas artes marciais e até na caligrafia.

Fotografia e expressão

O maior mérito do filme não é a fotografia, que utiliza planos que valorizam a paisagem e a natureza da China, cuja história confunde-se com a da própria civilização. É o uso da cor, das misturas e contrastes como componentes capazes até de marcar o ritmo de determinadas cenas, ao lado da trilha sonora. Cores reais e trabalhadas posteriormente, através dos efeitos fabricados em computador.

Como Van Gogh, O Clã das Adagas Voadoras conta uma história de amor em cores fortes e traços grossos. Até na percepção do significado expressivo das cores a inspiração, no filme, vem do pintor francês, que gostava muito de utilizar cores como o verde e o amarelo, que predominam ao longo da narrativa. Apesar de serem tons considerados calmos, em Van Gogh, muitas vezes, elas ganham contornos de vibração e insanidade, como no filme.

Como o pintor francês, o diretor Zhang Yimou prefere a luminosidade justamente para fortalecer as expressões das cores. Não há noite. Não há cenas de escuridão. A luminosidade e tão intensa que o branco do céu se confunde com o branco da neve. Assim, a beleza singela e misteriosa da atriz Zhang Ziyi , com toda brancura da pele e o preto dos cabelos lisos, torna-se angelical em um banho num rio cercado de plantas aquáticas verdes.

A indumentária dos personagens reforça ainda mais a importância fundamental da cor em O Clã das Adagas Voadoras . Destaque para o quimono utilizado pelos integrantes do clã, todo esverdeado, com o detalhe do chapéu de palha na cabeça, lembrando um dos personagens do jogo Mortal Kombat. O mesmo vale para os cenários fechados – a maior parte do filme é passado em florestas e campos. Méritos para Han Zong, o diretor de arte, que se preocupou com cada detalhe.

Trama é o que menos importa

É lamentável que a platéia “cinemão” não perceba porque O Clã das Adagas Voadoras é uma obra prima. Temos um público consumidor de cinema “educado” pela indústria de Hollywood, que aprendeu a acompanhar o desenrolar da trama e os efeitos especiais enquanto despreza outros componentes, a exemplo dos elementos que envolvem a direção de arte e o significado que eles têm. É o público que vai detestar o filme, limitando-se a elogiar a fotografia.

Vão dizer que o filme é ruim porque é “mentiroso”, referindo-se às cenas de luta, quando os personagens flutuam no ar e atiram contra os inimigos adagas que parecem ter vida própria. Aceitam as artes marciais orientais no cinema norte-americano, onde também há “mentira”, mas só que sem muitos exageros e acompanhada de uma narrativa mais direta, sem sofisticação. Ao se deparar com as primeiras cenas de O Clã das Adagas Voadoras , a platéia “cinemão” trata de recusar “entrar” na película quase que instantaneamente.

E não estamos falando de um filme como Sonhos , de Kurosawa. A narrativa de O Clã das Adagas Voadoras não é simbolicamente complexa. Ela é toda construída em cima de diálogos, com início, meio e fim. Trata-se uma história de amor clássica, só que sem artifícios baratos construídos para provocar emoções fáceis, e que mergulha mais a fundo na mitologia do que na história chinesa. Ao contrário de Herói , não é um filme patriótico.

É claro que Zhang Yimou abusa em algumas cenas de luta, como a faca que corta uma gota de sangue. Mas a história das artes marciais chinesas tem elementos de caráter essencialmente mitológico, assim como os aspectos culturais do povo chinês, que contam com aproximadamente cinco mil anos de existência. Além de que cinema, sobretudo quando visto como arte, e não indústria, não tem a obrigação de se enquadrar naquilo que consideramos ser real ou factível, desde que não abra mão da verossimilhança.