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14 a 28 de maio de 2005

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EMOÇÕES ARTIFICIAIS
Michael Winterbottom mostra como o amor se comporta diante do controle autoritário e tecnológico em Código 46
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

984 , livro de George Orwell, é fundamental para o entendimento do gênero ficção científica no cinema. Além de ter cunhado um termo hoje em dia bastante em voga – big brother – a obra de Orwell constrói toda uma aura de paranóia e vigilância constantemente transposta para o cinema. O livro apresenta uma sociedade em total controle, onde valores antes intrínsecos aos movimentos sociais – religião, política, economia, cultura – perdem seu papel em detrimento de uma nova ordem maior, autoritária e fiscalizadora. Instituições e corporações teoricamente incorruptíveis representam esse poder acima do bem e do mal. O Governo agora não tem mais um rosto, muitas vezes representando um sujeito invencível justamente por não ser palpável.

Essa influência é perceptível em clássicos como Laranja Mecânica , Blade Runner e Robocop , passando por obras de caráter mais comercial – Minority Report e Inteligência Artificial , ambas de Steven Spielberg – e por produções mais modestas e/ou obscuras, como Gattaca , Dogma do Amor , Cubo e Estranhos Prazeres. Em todos esses filmes a sociedade padece diante de um sistema regulador e de um “inimigo” muitas vezes desconhecido, ainda que os temas abordados sejam os mais variados – genética, robótica, violência, corrupção policial, etc. A sensação de que as personagens transitam sem rumo em uma batalha contra uma forma invisível domina a narrativa dessas produções, que quase sempre apresentam um desfecho trágico ou melancólico.

Código 46 , novo trabalho do diretor Michael Winterbottom ( A Festa Nunca Termina ), segue essa mesma linha estética. Estamos em um futuro indefinido. Para se ter acesso às grandes metrópoles é preciso um salvo-conduto cuja liberação depende de regras que seguem as determinações de uma corporação chamada Sphinx. Nesse futuro, a tecnologia domina as relações sociais. Pessoas geneticamente parecidas não podem manter relações sexuais ou ter filhos. Sentimentos são tratados como vírus, facilmente embalados em forma de cápsulas. A memória pode ser manipulada, apagada e mesmo registrada (temática tratada com outra abordagem em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ).

É nesse contexto híbrido, onde o caos habita amigavelmente com a ordem estabelecida, e que remete a vários filmes de ficção científica, que somos apresentados à personagem de Tim Robbins, que vai a Xangai investigar um caso de falsificação de salvo-condutos. Sua arma de trabalho: a intuição, na medida em que ele é quase um vidente capaz de ler os pensamentos das pessoas. Durante a investigação, ele acaba se envolvendo com a personagem de Samantha Morton (Maria Gonzalez), a principal suspeita. Cartas postas na mesa, o diretor subverte todas as expectativas do público. Código 46 não é um filme de investigação, muito mesmos uma ficção científica comum. O espectador – e o próprio investigador – sabem desde o início que Maria é a culpada. Winterbottom prefere transformar seu trabalho em um estudo da relação entre essas duas pessoas – que obviamente se apaixonam e quebram o tal código do título – em uma sociedade regida por severas leis.

Para desenvolver narrativamente essa situação limite, Winterbottom se arma de um aparato técnico impecável para compor um quadro de frieza e desolação. A direção de arte – ora asséptica, ora caótica –, o ritmo lento (quase contempativo) e a trilha sonora funcionam ao embalar corretamente o conteúdo do longa, que lida com o esfacelamento das relações humanas diante de um conceito de sociedade aparentemente perfeita. A bela fotografia, que, às vezes, reproduz o ângulo de um sistema de monitoramento, reforça a idéia de vigilância e controle. Alguns podem criticar um certo distanciamento entre os protagonistas, o que invalidaria a trama – já que os dois “lutam” contra o sistema em nome do amor. Mas esse distanciamento é bastante plausível dentro da proposta do trabalho. Em Código 46 , uma paixão nem sempre é encarada com bons olhos, podendo até ser considerada um crime. Tim Robbins e Samantha Morton entendem a intenção do filme e atribuem ao amor dos dois uma característica de incômodo e afastamento pela contravenção de seus atos.

Como nem tudo é perfeito, o diretor perde a mão já perto da conclusão do longa. Winterbottom entrega um desfecho apressado demais, mesmo que absurdamente coerente, cai na velha armadilha do cinemão americano em querer transformar seus protagonistas em heróis e apela para a batida fórmula maniqueísta do bem contra o mal. Mas esse porém é apenas um pequeno deslize de uma obra inteligente e que suscita uma série de questões acerca dos mecanismos que regem nossa sociedade. O tema e a abordagem não são novidade, mas Winterbottom dirige Código 46 com competência suficiente para despertar o interesse sobre as perguntas levantadas pela produção. O resultado é um filme lento e minimalista, desagradável em sua frieza, mas acima de tudo poético, ainda que desesperançoso.