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14 a 28 de maio de 2005

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ILÍADA CURITIBANA
Tão complexo quanto seu criador, Catatau , de Paulo Leminski, renasce com edição bem-acabada
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@hotmail.com )

aulo Leminski está na área novamente. E não está só. Consigo traz um calhamaço de papeis amassados, sujos. Durante oito anos o autor de Metamorfose perambulou por bares, praças e apartamentos de Curitiba com os originais do que mais tarde viria a ser sua obra mais instigante e enigmática. Como um filho na barriga da mãe, demorou a chegar. Com muito esforço o Polaco pariu o seu Catatau , uma obra que até hoje desperta um misto de interesse, estranheza e desprezo nos críticos literários e amantes da boa escrita.

O livro é um experimento literário ousado e pretensioso. Lançado originalmente em 1975, ganhou nova edição – a mais perfeita graficamente – no ano de 2004. Assim como a epígrafe, o mote é estranho. Diz a lenda que, em uma aula de História do Brasil, o Polaco teve a idéia: e se Maurício de Nassau, que durante o século XVII veio ao Brasil acompanhado de vários sábios e especialistas de áreas diversas, tivesse trazido consigo René Descartes? É, isto mesmo, aquele que certa vez disse: "Penso, logo existo". Delírio para muitos, provável para outros. O fato é que Leminski desembarca Descartes em Terra Brasilis . No meio de ervas, bichos estranhos e árvores monstruosas, o matemático espera um tal Artyczewski, um polaco estrategista da Companhia das Índias.

Assim como a razão de Descartes vira de ponta cabeça, a linguagem empreendida por Leminski torna-se caótica. O Poeta desfaz para refazer. Junta palavras e forma expressões inexistentes. Certos trechos do livro só mesmo adivinhando o que o autor quis dizer (ou não quis). Vários estudiosos comparam o modo de escrita desenvolvido por Leminski em Catatau aos recursos utilizados por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas . Mas o livro está muito mais para Finnicius Revém , do indefectível Joyce. Haroldo de Campos, espécie de padrinho do poeta paranaense, certa vez definiu a obra como a Leminskíada, ou seja, a Ilíada de Leminski.

Difícil ou não, o fato é que Catatau permanece quase inacessível até mesmo para os admiradores da poesia de Paulo. A inacessibilidade não fica só no campo da editoração do livro, que estava esgotado há anos – lacuna preenchida com a nova edição, resultado do esforço da Travessa dos Editores, editora situada na capital paranaense e que tem bons títulos em seu catálogo. O principal obstáculo mesmo está na narrativa pouco, muito pouco, usual desprendida por Leminski. Barreira esta que levou o próprio escritor a escrever, na segunda edição do C atatau , um prefácio explicativo sobre alguns pontos da obra. Em "Descordenadas Cartesianas", por exemplo, está a explicação da idéia central do romance.

Mesmo com todas as dificuldades que naturalmente o leitor encontrará durante a leitura do livro, Catatau é necessário. A obra é um desafio para quem gosta de ler. Tentar chegar ao final do livro é um exercício e tanto para qualquer pessoa que aprecie a narrativa experimental. Lemisnki sai da rotina, transforma a literatura em algo a ser descoberto, garimpado e, no caso específico do Catatau , decifrado. Mas o relançamento do livro traz mais do que a discussão sobre Catatau . O retorno do “filho” mais estranho do autor é um ótimo pretexto para falar do inesquecível Paulo. Mesmo quem só conheceu sua poesia, vislumbra o homem Leminski.

Assim como a obra em questão, o "maldito" não era desta galáxia. Alternativo em seus hábitos, Paulo Leminski já faz parte do seleto grupo de lendas curitibanas – e brasileiras, por que não –, encabeçado pelo introspectivo Dalton Trevisan.

Constantemente vinculado aos poetas concretos, Leminski, que escreveu verso, prosa, ensaio, roteiro e teatro, ficou conhecido nacionalmente pela sua poesia. O Polaco também teve uma carreira bastante produtiva na composição de letras musicais. Além de ajudar a curitibana Blindagem a dar vida a um dos discos mais brilhantes do rock paranaense, o compositor teve diversas de suas criações gravadas por artistas do cenário MPB do Brasil nos anos 1970 e 1980.

Leminski foi parceiro de gente como Moraes Moreira, Caetano Veloso e do grupo A Cor do Som. A pluralidade era sua marca. Autor de biografias de figuras emblemáticas da História, como Jesus Cristo e Trotski; e de outras personalidades menos requisitadas, tal como Matsuó Bashô, também fez traduções de escritores importantes. Passaram pela Cruz do Pilarzinho – bairro curitibano que acolheu o poeta durante longos anos – as traduções de Joyce, John Fante, Lawrence Ferlinghetti, Samuel Beckett, Petrônio, entre outros. Aliás, a casa da Cruz do Pilarzinho, ao longo dos anos se tornou mítica. Foi ali, próximo ao que hoje é a Pedreira Paulo Leminski, que grande parte da obra do poeta ganhou vida.

Por ali, além de diversos copos e litros de vodca, passaram alguns dos grandes nomes da literatura, música e artes plásticas do Brasil. Wally Salomão, Jorge Mautner, os irmãos Campos e uma miríade de cabeças-pensantes da época, deram o ar da graça. Foi ali também que o poeta intensificou o consumo de uma das coisas que mais apreciava: o álcool. Paulo ganhou fama de boêmio. Até hoje fãs do escritor procuram, nas madrugas curitibanas, vestígios de Leminski em bares com mesas melequentas e copos sujos. Sua vida etílica ajudou a reforçar a idéia do intelectual fantástico que procura na bebida o cano de escape ideal para despejar suas angústias.

Um sem número de pessoas ainda contam hoje histórias sobre alguma peripécia alcoólica de Leminski. E com certeza várias coisas estranhas aconteceram na vida do poeta. Desde os tempos em que era seminarista no convento de São Bento, Leminski demonstrava que era um "ser" de outra esfera. Aplicado nos estudos de português e história, foi no período em que ficou enclausurado que tomou gosto pela leitura, pelo Latim e outras línguas.

Viveu intensamente entre copos de cerveja no Bife Sujo – mitológico bar curitibano – e livros. Mesmo com a morte precoce do autor, a poesia sobreviveu. Principalmente na cidade em que morou por quase toda a vida. Os versos de Leminski estão em todos os lugares de Curitiba. Até onde não se vê nenhuma palavra do Polaco, ele está presente. Sua poesia é Curitiba. Cidade do vento que corta, do pinhão e, em muitas vezes, do silêncio; da cara fechada e do aborrecimento; do encolhimento de cada um no seu "eu". Desprezado e endeusado, foi a tradução mais perfeita da cidade em que viveu por toda vida. Com todas as contradições que se têm direito. O lançamento de Catatau é um ótimo “pretexto” para se ler e comentar Leminski. A obra, obscura e enigmática, é a mais pura tradução do autor.