| QUASE UM CLÁSSICO
Lúcia Murat busca as raízes do apartheid social brasileiro em Quase dois irmãos
por
Fernando Américo (
feramerico@yahoo.com.br )
 os últimos anos, o cinema brasileiro tem se debruçado sobre um fantasma que ainda assombra a sociedade brasileira: o golpe militar de 1964. A tendência começou com O que É Isso,Companheiro? , de Bruno Barreto, e Ação entre Amigos , de Beto Brant. No primeiro, a tentativa de fazer um suspense à americana esvaziava o conflito ideológico entre os sequestradores do embaixador americano e o governo militar. E em Ação, a ditadura era pano de fundo para uma história de vingança. Isto faz com que Quase Dois Irmãos , último longa-metragem de Lúcia Murat, seja o primeiro filme brasileiro do período da “retomada” em que os ideais da geração dos anos de chumbo têm importância real para a trama, e não são apenas pretextos para a ação desenfreada dos personagens.
Não é a primeira vez que Lúcia Murat se dedica ao tema: a diretora, que foi presa durante o regime militar, denunciou a tortura e suas implicações psicológicas no poderoso documentário Que Bom te Ver Viva. Através de depoimentos de mulheres torturadas, costurados por pequenas cenas interpretadas por Irene Ravache, Lúcia Murat acertava as contas com seu próprio passado. Em Quase Dois Irmãos, a diretora tem um objetivo mais ambicioso: fazer uma espécie de “afresco” histórico onde estariam representadas as raízes da divisão da sociedade brasileira entre brancos e negros, intelectuais e analfabetos, ricos e ladrões, mocinhos e bandidos.
A trama acompanha cinquenta anos da vida de Miguel, um intelectual que luta contra o regime militar, e Jorginho, um traficante de drogas. No início, o pai de Miguel leva o filho para rodas de samba no morro. É lá que, ainda criança, ele conhece Jorginho, filho de um compositor popular. Eles vão se reencontrar anos depois, na Penitenciária da Ilha Grande, Miguel como preso político, Jorginho como ladrão. Vinte anos depois, Jorginho é o chefe do tráfico de sua comunidade, e Miguel é um político que não consegue controlar a filha, uma garota que sobe o morro para consumir drogas e dormir com um traficante.
Quase Dois Irmãos é um projeto ambicioso como poucos; pena que o resultado final não corresponda às intenções dos envolvidos. O início e o fim da vida dos protagonistas não se justifica na história. As cenas das crianças têm um clima de conto de fadas; nesta parte, Lúcia Murat cai no mesmo esquematismo com que o Cinema Novo via as relações entre as classes no Brasil. Já as cenas atuais não conseguem mostrar a evolução das relações entre Jorginho e Miguel; na cena em que o deputado visita o traficante na cadeia eles parecem dois “representantes” de classes em um simpósio, falando por metáforas. A relação entre o morro e o asfalto mostrada através da paixão da filha de Miguel pelo traficante já teve melhores representações no cinema brasileiro – Cidade de Deus é um exemplo, tão marcante que já fez a situação virar quase um clichê cinematográfico. Estas duas fracas linhas narrativas diluem a força da principal história contada em Quase Dois Irmãos: a amizade entre Jorginho e Miguel na prisão. Paradoxalmente, é quando se passa atrás das grades que o filme de Lúcia Murat alça seus maiores vôos e nos faz refletir sobre as verdadeiras divisões da sociedade brasileira.
Estas divisões não aparecem no início: na Ilha Grande, os presos políticos são colocados nas mesmas alas que os presos comuns. É lá que Miguel vai encontrar Jorginho de novo. Junto com seus companheiros, o intelectual tenta continuar atrás das grades a luta política que travava no mundo exterior. Quando algum preso é maltratado, eles fazem barulho durante toda a noite até que ele seja solto da solitária. Fazem greve de fome para que suas reivindicações sejam respeitadas. E usam, na prisão, dos mesmos mecanismos democráticos que caracterizavam sua ação política: tudo é decidido em conjunto, em assembléias onde todos se chamam de “companheiro”.
Aos poucos, a utopia preservada por estes revolucionários na prisão vai definhando no contato com a realidade. Miguel, por exemplo, é abandonado pela namorada, que se cansa de esperar pelo paraíso prometido pelo socialismo em favor de uma vida mais segura. A união entre os “companheiros” é ameaçada quando o gato de um deles vira tamborim. Mas a principal desilusão de Miguel acontece quando seu amigo Jorginho se une a outros presos comuns, que não pensam na distribuição da riqueza, mas simplesmente na sua transferência: os ladrões começam a roubar os presos políticos, que se sentem ultrajados. Eles sempre pensaram no crime como uma das “pragas” trazidas pelo capitalismo, e que acabaria quando o socialismo fosse implantado definitivamente. Nunca em sua experiência política, eles tinham levado em conta que o povo poderia não querer o mesmo que eles.
A partir daí, Quase Dois Irmãos se transforma num jogo de perde-e-ganha: Miguel perde as ilusões de uma classe operária conduzida ao poder pelos intelectuais; e Jorginho ganha a consciência política da união como força, distorcida por um certo pragmatismo levado às últimas consequências. Ao final, a prisão é dividida, a pedido dos próprios presos políticos, para garantir sua segurança. Do outro lado da parede que está sendo construída, os presos liderados por Jorginho matam um dos presos comuns, “companheiro” que não quis seguir as ordens do novo chefe, Jorginho. A parede é um símbolo; ela significa que a linha que separa o morro do asfalto no Brasil não pode ser transposta apenas por gestos de boa vontade, pela música popular, pela solidariedade. Mais cedo ou mais tarde, estes mundos se separam de novo, como água e óleo.
A grande força desta linha narrativa vem do roteiro e seus significados, mas também do elenco. Caco Ciocler mostra mais uma vez que é um dos melhores atores de cinema brasileiros, dotando Miguel de uma força e dignidade incomparáveis. Mas é Flávio Bauraqui que carrega nos ombros toda a força das contradições do filme, construindo um personagem memorável e inesquecível. Seu olhar final, quando mata o amigo que não segue sua liderança, é quase o de um animal se refestelando diante das vísceras de sua presa, embriagado pelo poder que adquire sobre a cadeia. Embriagado pela idéia de que este poder pode se estender além dos limites dos muros. A ameaça da criminalidade, a idéia de que o morro pode se vingar do asfalto, nasce aí.
Quase Dois Irmãos tenta analisar este conflito em todas as escalas. Às vezes consegue, às vezes fracassa. Mas é um filme honesto, forte, e que merece ser visto. Através da história de Miguel e Jorginho, é possível olhar em perspectiva para a dolorosa diferença entre dois mundos que se tocam e se chocam com a intensidade de uma tsunami.
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