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14 a 28 de maio de 2005

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O INIMITÁVEL
Para Sempre Anos 70 registra o auge de Roberto Carlos em formato remasterizado
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

obertólatras de todo o mundo, uni-vos: a Sony Music está lançando no mês de aniversário do Rei a caixa Para Sempre Anos 70 , que reúne todo o trabalho do cantor entre 1970 e 1979. Como ocorreu na primeira edição, que compreendeu os anos da Jovem Guarda, os álbuns foram remasterizados de seus tape masters originais por Guto Graça Mello, que foi produtor do artista, e o pesquisador Marcelo Fróes. Da mesma maneira, o conceito de disco foi conservado, observando-se, no formato digital, a mesma estética dos velhos vinis, com capa e contracapa, sonegadas nos lançamentos anteriores em CD. Porém, há um adicional: todas as edições foram relançadas em estéreo completo e a caixa vem com uma raridade, há muito tempo disputada em sebos: o disco Roberto Carlos Narra Pedro e o Lobo .

Tida como controversa, a fase “romântica” dos anos 70 de Roberto Carlos vem sido contestada há anos, a despeito das constantes declarações de amor de seus milhares de fãs a velhos sucessos como “De Tanto Amor”, “Minha Senhora”, “Atitudes”, “Cavalgada”, entre outras. Parte dos seus detratores dizem que o Rei traiu o mesmo rock que o entronizou antes, ainda mais após ter ensaiado um namoro com o soul norte-americano, no fim dos 60; outros entendem que o novo estilo de Roberto consolidou toda a produção brega- kitsch que começara a minar as paradas de sucesso com cantores similares (Odair José, Márcio Greick, Antônio Marcos, Sílvio César, Nelson Ned, Reginaldo Rossi, Fernando Mendes), numa temática que se dividia em temas envolvendo (como sempre) o amor e suas variações, religiosidade, apologia (um tanto conservadora) à família (“À Janela”, “O Portão”, “Quando as Crianças Saírem de Férias”), a ecologia (“O Astronauta”), a amizade (“Eu quero Apenas”) e o culto à Jovem Guarda (“Jovens Tardes de Domingo”).

Controvérsias

Se nem tudo desta fase pode ser considerado como inatacável, o novo formato digital recupera o sofisticado lavor de maestros como Chiquinho de Moraes e mixadas pelo técnico Tim Geelel, em Los Angeles (ele só voltaria a gravar no Brasil em definitivo, em seu estúdio próprio, em fins da década de 90). Porém, se a carreira discográfica é considerada inatacável no período que corre da Jovem Guarda até o começo dos anos 70, muitos fãs e críticos entendem que, à medida em que ele se encastelava em arranjos sofisticados, os seus discos se tornavam, nos anos seguintes, um tanto irregulares, tanto na escolha de músicas quanto na qualidade das capas.

Muito acreditam que, talvez pela necessidade de transcender da imagem “rebelde” da Jovem Guarda, Roberto optasse por uma temática cada vez mais “caseira” (“O Portão”, “À Janela”) e religiosa (“O Homem”, “Jesus Cristo”, “A Montanha”), que tornava evidente a sua rendição ao establishment e ao conservadorismo do Brasil dos tempos da ditadura militar. Para outros, no entanto, as suas letras dessa fase primaram pela madureza das criações de sua idade adulta e consolidaram a imagem de “eterno romântico” — principalmente por criar o seu piéce de resistance do gênero: a imortal “Detalhes”, de 1971.

Nos anos 70, Roberto deixou de ser apenas o Rei das canções sobre carrões, garotas, o porta-voz de dúvidas juvenis do tipo “casar ou não casar”, o cantor de calhambeques, de brucutus, sósias, gênios e homens maus para entrar na história como O cantor. Coincidente ou não, esta fase compreende exatamente esta década, com produções de alto nível, embora alguns dos álbuns — em especial os de 1976 e 1977 — não marcaram época como os primeiros, mas mesmo assim estes discos estão longe de serem considerados “inferiores” em termo de qualidade.

Destaques

Do começo da década, vale a pena ouvir o álbum de 1970 — e apreciar sua belíssima capa com efeito de penumbra. Ainda tem relação com elementos da Jovem Guarda com “Ana” (como o inefável orgãozinho Lafayette), mas o cantor mostra a sua nova medida em “Uma Palavra Amiga”. Fala maliciosamente de amor com um appeal ao erótico num estilo vaudeville em “Vista a Roupa, Meu Bem”. Vira o rapsodo de sua terra natal em “Meu Pequeno Cachoeiro” (Raul Sampaio). Outro petardo instrumental: “Preciso lhe Encontrar”, com um belo efeito de cordas simulando a gradação do sentimento da letra. O disco traz, ainda, “Minha Senhora” e o hit “Jesus Cristo”. Vale ouvir as menos conhecidas “Se Eu Pudesse Voltar no Tempo” (Pedro Paulo e Luís Carlos Ismail) e “Maior que o Meu Amor” (Renato Barros, dos Blue Caps).

O disco de 1971 é antológico a partir da capa: ao invés de uma foto, uma pintura, sem o nome dele. O trabalho, aliás, também exibe requintes pictóricos nas letras (“Detalhes”, “Todos Estão Surdos”, “A Namorada”, “Amada Amante”, “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”). A metafísica e biográfica “Traumas” municia os conspiradores de plantão a respeito de que “pai” a letra se refere e prenuncia “O Divã”. O Rei funda a sua solidão com a antológica “Se Eu Partir” e “De Tanto Amor”, mas não sem antes imitar o mestre Orlando Silva numa interpretação de “I Love You”, um fox prá lá de humorístico, quebrando um pouco o clima soturno do disco.

Já no álbum de 1975, o cantor não conseguiu emplacar canções à mão cheia pela parceria com Erasmo como nos discos anteriores mas “recria” “Quero que Vá Tudo Para o Inferno” e estoura nas paradas com “Além do Horizonte”. A dupla Isolda e Milton Carlos (também autores de “Jogo de Damas”, entre outros) aparecem com “Elas por Elas”. O destaque fica por conta de covers interessantes de Roberto em espanhol: o bolero “Inolvidable” (Julio Gurierrez) e “El Humahuaqueño” (Zádivar), onde o Rei flerta com a música andina, cantando com um regional peruano e com direito a flauta e bumbo leguero. O grande destaque é “Mucuripe” (Fagner), uma das mais belas do álbum — se não a melhor.

Barroco

Capa noir , músicas idem, amalgamando tristeza e alegria ao extremo, a “barroca” edição de 1972, triste ao extremo, conceitual na forma, também conhecida como “o disco de ‘A Distância'”, representa a maturidade do compositor, à medida em que já revisita os seus melhores clichês — e os projeta para o futuro. É possível vislumbrar seus melhores “cacoetes” desde a “À Janela” (cujo backing vocal foi gravado nos Estados Unidos por coristas americanas, daí o sotaque estranho) até “Você Já Me Esqueceu” ou “Por Amor”. O Rei evoca a sua crônica melancolia. Grava a versão definitiva de “Como Vai Você”. A antítese do disco vai da egotrip “O Divã”(onde ele fala do acidente em que perdeu uma perna, quando ele tinha oito anos, numa letra emocionante) até a alegre “Quando as Crianças Saírem de Férias” e “Você é Linda”, e da bela versão de “Acalanto” (Dorival Caymmi) para o hino religioso “A Montanha”, que se tornaria mais um grande sucesso.

Diferente do “atípico” disco de 72, mais eclético e “pesado”, os álbuns de 1974 e 1975 mantém a mesma tendência apontada desde o começo, mas carregam mais na sobriedade dos arranjos (Jimmy Wisner, Jimmy Haskel e Chiquinho de Moraes). Buscam a regularidade a cada álbum, ao contrário dos primeiros discos, mais híbridos e com resquícios do ecletismo da fase “soul”.

No caso do lançamento de 74 (ou “O de ‘Proposta'”), vale o destaque para o trabalho especial em “A Cigana”, com um excelente violino solo, e para a versão bastante particular para o clássico de Gardel e Le Pera, “El Dia en Que Me Quieras”. O de 1975 (ou “O disco de ‘O Portão'”) prima pela escolha das versões, entre elas, “Resumo” (Mário Marcos e Eunice Barbosa), “Eu Me Recordo” (versão de Roberto para “Yo Te Recuerdo”, de Armando Manzanero), “Ternura Antiga” (de Dolores Duran, e que foi um grande sucesso com Tito Madi), “Quero Ver Você de Perto” (Benito di Paula) e a poética “A Deusa da Minha Rua” (clássico de Newton Teixeira e Jorge Faraj), onde o Rei manteve o mesmo clima original de seresta da canção.

Já a partir da segunda metade dos anos 70, a produção discográfica de Roberto Carlos abandona gradativamente arranjos meramente acústicos — com resquícios de uma sonoridade tipo Jovem Guarda em favor de trabalhos de sonoridade cada vez mais sofisticada (ou “hollywoodiana”) e arranjos para grande orquestra, e que durariam até o começo dos anos 80. Um exemplo deste modelo são os álbuns de 1977 (de “Cavalgada”, cuja introdução para piano lembra muito o primeiro movimento da “Sonata Ao Luar”, de Beethoven) e 1978 (“A Primeira Vez”, “Fé”). O disco que fecha a década (1979), serve também para consolidar o seu cânone do arranjamento arte pela arte, cumulando na virtual consolidação do seu conceito de álbum que, descontados alguns “acidentes de percurso”, vigora até hoje com sucesso.

A vaia e o aplauso

Da série de discos “Roberto Carlos” de 1970 a 1979, complementam a caixa ainda duas surpresas: a coletânea San Remo 1968 (com o encarte completo) e Roberto Carlos Narra Pedro e o Lobo (op. 67). Lançado em 76, o primeiro é a conhecida coletânea de compactos e de faixas avulsas (gravadas entre 67 e 72) que saíram apenas na série As 14 Mais. Pelo fato de ser uma seleção, o disco é uma colcha de retalhos. Para quem não conhece, vale pela curiosidade de ouvir o Rei cantando Ataulfo Alves (“Ai Que Saudades da Amélia”), Eduardo Araújo (“Com Muito Amor e Carinho”) e Martinha (“Eu Daria a Minha Vida”).

Fato curioso: o álbum San Remo 68 também celebra a façanha de RC tanto em conquistar o tradicional certame italiano quanto a ruidosa vaia no 3º Festival da Música Popular Brasileira, defendendo, respectivamente, a música de Sergio Endrigo e Sergio Bartotti e o samba do paulista Luiz Carlos Paraná, “Maria, Carnaval e Cinzas” (em 1967). Se foi uma unanimidade no cosmopolita San Remo, no ano anterior, ao participar do politizado FIC, Roberto, foi refugado pela parcela da audiência que não aceitou que o então rei do iê-iê-iê subisse ao palco dos mitos da MPB (?). “Maria, Carnaval e Cinzas” chegaria ao quinto lugar no 3º Festival. Roberto também foi vaiado no certame de 68, quando interpretou “Madrasta” (Beto Ruschel e Renato Teixeira).

Raridades

Para Sempre Anos 70 também traz a primeira reedição digital de Roberto Carlos Narra Pedro e o Lobo . Gravado em 1970, o LP foi o registro em estúdio de um recital do qual Roberto Carlos participara meses antes na sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. No álbum ele lê (acompanhado pela New York Philarmonic Orchestra, regida por Leonard Bernstein) o texto narrativo da história infantil escrita e musicada pelo compositor russo Sergei Prokofiev. Mantendo o mesmo conteúdo original, o disco vem com as aberturas instrumentais Seramide (Rossini) e Oberon (Weber), também executadas pela New York Philarmonic. Este sim um verdadeiro ítem de colecionador — agora integrado ao catálogo, e que vale a reedição digitalizada.