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30 de maio a 11 junho de 2005

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O MASSACRE DA CERA ELÉTRICA
O gênero de terror é mais uma das estátuas bonitas porém sem vida de A Casa de Cera
por Marcel Nadale ( mnadale@rabisco.com.br )

em sempre dizer que um filme “não envelhece” é um elogio. No panorama cinematográfico corrente em Hollywood, há um gênero que jamais envelhece não por méritos próprios, mas por coerção comercial: o terror. Antes destinado a todo tipo de espectador, o terror passou as últimas três décadas amarrado aos gostos do público adolescente. E a adolescência, a gente sabe, é uma fase em que se busca nada mais que o conforto da identificação, da inclusão, da reiteração. Daí se explica como um mesmo filme pode ser recontado inúmeras vezes, mudando muito pouco de seus detalhes, seja em séries longevas como Halloween e Sexta-Feira 13 , ou em remakes que prestam mais tributo ao gênero em si do que a um longa-metragem distinto. Neste último caso se encaixa A Casa de Cera , que entra em cartaz no país no próximo dia 3.

A Casa de Cera ( House of Wax , EUA, 2005) diz-se uma releitura do filme homônimo rodado em 1953, com o ícone do horror Vincent Price, em três dimensões. O original concentrava-se em um insano escultor de cera dado como morto no incêndio do último museu em que trabalhara, mas que depois ressurgia com sua própria atração turística. Seu assistente, contudo, começava a suspeitar que havia alguma ligação entre a inédita perfeição das novas estátuas e o desaparecimento de alguns cadáveres no necrotério local. A idéia central apelava à perplexidade sinistra que qualquer visitante do Madame Tussaud, independente da idade, poderia experimentar, diante esculturas tão verossímeis que parecem que vão ganhar vida e lhe pregar um susto.

Mas, nos 50 anos que separam a primeira e a segunda versão, tudo o mais amadureceu ou se renovou, enquanto o gênero de horror descobriu-se aprisionado numa síndrome de Peter Pan gerada pelo sucesso dos slash movies na década de 70. Assim, o novo A Casa de Cera remete muito mais ao molde-mestre de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, EUA, 1974) – um eco que se torna ainda mais agudo e incômodo dada à proximidade com que foi lançado atrasado, por aqui, também um remake de O Massacre , estrelado por Jessica Biel. Estão lá os mesmos elementos: um grupo de amigos que parte em uma viagem de carro, sofre um contratempo, busca ajuda numa cidadezinha isolada e passa a ser perseguido por um maníaco assassino.

A característica essencial na transição do terror para todas as idades da década de 50 e o terror adolescente atual é o deslocamento do foco da trama do algoz para as vítimas. Diz muito o contraste entre a figura fria, cerebral e um tanto sedutora do vilão de outrora (uma reminiscência de Drácula) com os personagens amórficos de filmes como A Casa de Cera e O Massacre da Serra Elétrica , a quem lhes é negada a identidade (ambos utilizam uma máscara), o diálogo (ambos são mudos) e a mais proverbial das motivações (ambos são crianças traumatizadas por suas famílias). Não obstante, são invariavelmente descritos como mulas de trabalho, capazes apenas de realizar pequenos labores manuais (em Massacre , com couro e ossos; em Casa , com cera).

Na verdade, para a dinâmica dos filmes de terror adolescente, os vilões não precisam ser muito mais do que já são. Basta-lhes representar uma pulsão de morte, inescapável, violenta, para que as vítimas (essas sim, importantes na identificação do público) possam se opor com a pulsão por sexo, na polaridade mais arcaica da psicologia freudiana. É tradicional que os mocinhos sejam todos jovens incrivelmente bonitos, mas A Casa de Cera vai além e emprega ninguém menos que a maior personificação do sexo na mídia americana atual: a loira Paris Hilton, herdeira da cadeia de hotéis Hilton, protagonista do reality show The Simple Life e de uma mal-fadada fita pornô caseira que vazou para a internet e causou o maior escândalo. Não há sutileza na referência: a personagem de Hilton prontamente se desfaz em insinuações quando descobre que um amigo da turma está tentando filmar sua transa com o namorado.

Há o torso nu de Chad Michael Murray e o corpo molhado de Elisha Cuthbert (que, não por um acaso, interpretou uma atriz pornô em seu filme anterior), mas os adolescentes estarão ocupados demais gritando, de medo ou de tesão, para notar que as mensagens desse tipo de filme são muito mais retrógradas do que “liberais”. Sexo continua equivalendo à morte. Uma idéia que, aliás, tem tudo a ver com a administração Bush e que obscurece as surpreendentemente boas direção de arte e trilha sonora de A Casa de Cera . E, assim, o gênero de terror continua agindo como o garotinho que tenta assisti-lo, enfiando-se clandestinamente em sessões proibidas, achando que um pouco de sangue, suor e seios vão torná-lo mais adulto.