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30 de maio a 11 junho de 2005

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A TRAGÉDIA REVIVE NO TEMPO?
Como o sentido trágico de As Horas e de Édipo Rei pode ser comparado aos dramas da nossa vida particular?
por Enéias Tavares ( eneiastavares@yahoo.com.br )

ão se pode ser feliz fugindo da vida”, diz Virginia Woolf a seu marido no filme As Horas . A frase expressa o conflito da personagem diante da sua existência, encerrada entre a coragem de enfrentar a depressão e o medo de se deixar consumir por ela. No filme do diretor inglês Stephen Daldry, Richard, o poeta interpretado por Ed Harris, enfrentou a vida e nem assim foi feliz, diferente da escritora inglesa interpretada por Nicole Kidman, cuja infelicidade consistia exatamente na fuga do mundo, ou da vida, devido a sua doença mental. Estaríamos então atados a um destino de tristezas e decepções, indiferente das escolhas que fizermos? Essa infelicidade diante das escolhas da vida não é um conflito moderno. Tragédias clássicas como Édipo Rei exemplificam com perfeição o sofrimento do homem, vítima ora de seus próprios erros, ora da vontade dos deuses. Assim, encontramos um paralelo instigante ao contrastarmos o filme de Daldry e a peça de Sófocles.

Em primeiro lugar, é necessário fazer essa comparação à luz de alguns elementos que Aristóteles, filósofo contemporâneo de Sófocles, apontou como particularidades gerais da tragédia. As duas obras se passam num curto período de tempo: algumas horas, no caso da peça, ou um pouco mais que isso, no caso do filme, que mostra simultaneamente um dia na vida de três mulheres – Virginia Woolf em 1923 ao escrever o romance Mrs. Dollaway ; Laura Brown em 1941, ao ler o romance; e por fim, Clarissa Vaughn, em 1999 ao viver a mesma história. Esse desenvolvimento da trama em uma duração abreviada reforçaria a idéia de “reviravolta”, na qual há uma revelação e depois uma completa mudança na situação dos personagens. Em Édipo Rei , isso ficaro no percurso do protagonista: de Rei Sábio, Édipo se torna um mendigo cego, devido ao esclarecimento da morte do antigo regente de Tebas, Laio.

Já em As Horas , essa revelação acontece quando descobrimos que o poeta aidético vivido por Harris é, na verdade, o filho de Laura (Juliane Moore). Na tragédia aristotélica, o passado sempre retorna para cobrar o seu preço. Percebemos isso na vida e na infância de Richard, cuja mãe em crise, dividida entre a vida familiar amorfa e a busca de uma liberdade fictícia, afeta-o até a idade adulta. Em Édipo Rei , há ainda mais evidências, pois o objetivo do protagonista é exatamente trazer de volta o passado, para explicar o miasma, ou a maldição, do presente, mesmo que isso arruíne seu futuro. Nos dois exemplos temos o sentimento catártico em sua mais pura representação.

É importante notar o quanto essa depuração dos sentimentos causada pela tragédia aproxima-nos hoje do mesmo sentimento vivido pelo antigo expectador no gênero grego. Sentimos medo e pena da loucura de Virginia tanto quanto sentimos medo e pena do destino de Édipo, que ainda criança é abandonado na floresta para morrer sem que cumpra sua sina. A mesma amargura que sentimos ao presenciar o fim de Richard, sua quase podridão mental e física devido à sua vida de entrega, é semelhante à amargura que sentimos ao ver Édipo cego chorando a sorte de ter matado seu pai e desposado sua própria mãe. Segundo Aristóteles, esses sentimentos são gerados no leitor ou no espectador devido à natureza dos personagens trágicos. Eles não são puramente bons ou maus, mas humanos, apresentando uma mescla de qualidades e defeitos que os definem. Choramos ao ver Édipo e Richard não por serem culpados ou inocentes, mas por serem humanos, como nós.

Outra questão importante a ser tratada é a dos paradoxos encontrados tanto em Édipo Rei como em As Horas . O sentido do trágico também está em desconhecermos o porquê do nosso destino. Não sabemos se Édipo é um joguete dos deuses ou se ele é senhor de seu futuro. Em As Horas essa contradição é ainda mais assustadora, pois o filme nos apresenta os destinos daqueles que enfrentam a vida (Richard e Laura) e daqueles que fogem dela (Virginia e Clarice), sendo que nenhum deles é bem sucedido. Assim, qual seria o sentido da existência humana? Saciar nossos desejos enfrentando as conseqüências ou esconder-se da vida encarando depois o eterno arrependimento? Em Édipo esse paradoxo também está presente no destino das suas escolhas: viver cego de respostas ou ver em toda a completude de seus próprios erros, mesmo que involuntários? Essas indagações atormentam-nos por se referirem a situações muito conhecidas, particulares e semelhantes de nossa existência, muitas vezes chamadas de trágicas.

É preciso também compreender que tanto em Édipo Rei quanto em As Horas encontramos elementos que simbolizam as vidas e as escolhas dos homens de seus respectivos tempos. Édipo é o ideal do antigo homem grego que procurava incansável as respostas das perguntas que lhe atormentavam a alma, por mais calamitosas que elas lhe resultassem. Sua maior qualidade tornou-se também seu maior defeito: seu espírito investigativo que o leva ao esclarecimento de todos os mistérios. Mas o que deveria ser bom, o conhecimento total das respostas, torna-se maligno. A verdade revelada é em tão alto grau terrível que mata sua mãe-esposa Jocasta; faz com que o protagonista fure os próprios olhos, cegando também seu orgulho humano; e, por fim, amaldiçoa o destino futuro de seus filhos. E é nesse sentido que se pergunta: não seria a tragédia de Sófocles um exemplar estudo sobre esse espírito desbravador humano, tão comum em nossa pós-modernidade desiludida? Afinal, quando todas as perguntas são respondidas, o que mais nos resta?

No filme , encontramos o eterno conflito do ser humano que sofre, indiferente do seu destino ou de suas escolhas. Deve ser ressaltado o belo trabalho de adaptação feito pelo roteirista, baseado no romance homônimo de Michael Cunningham, ganhador do Pulitzer. Além disso, As Horas também trabalha com a relação entre o Homem e a Arte. É a arte que permite a Virginia expressar sua dor e sua angústia. É a arte que liberta Laura Brown de sua vida detestavelmente perfeita. É a arte que aprisiona Clarice dentro de um mundo de aparências, onde ela “interpreta” um personagem da literatura: “Oh Clarice, sempre dando festas para encobrir o silêncio”, diz Richard. E é le, enfim, quem vive sua arte até o último suspiro. Nesse sentido, tanto o livro quanto o filme traçam um paralelo entre a relação de Virginia Woolf com a sua produção artística e o efeito que a verdadeira arte tem em seus apreciadores. Em Virginia, poderiam ser livros ao invés de pedras o que a personagem coloca em seus bolsos para afundar no rio e por fim morrer. Em Laura, são os livros que a fazem desistir da idéia de suicídio e assumir, pelo menos temporariamente, suas responsabilidades como esposa e principalmente como mãe. Já em Clarissa, é a arte e o fim dela que a faz soltar seus cabelos, que permaneceram presos durante todo o filme, e começar a viver. Isso é simbolizado pelo beijo apaixonado, único dos três mostrados na película, que ela dá em sua amante, Sally.

Por fim, percebemos enquanto leitores ou espectadores que tanto a tragédia Édipo Rei quanto o filme As Horas apresentam elementos trágicos que nos fazem pensar e sentir e chorar enquanto seres humanos escravos, seja do destino, dos homens, da sociedade, da arte ou, em último caso, das nossas próprias escolhas. Assim sendo, o que escolheremos? Morrer, como Virginia? Apenas fugir da morte e, portanto, da vida, como Laura? Ou viver, como Clarissa?