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Irmãs Labèque hipnotizam platéia em São Paulo ao som de Mozart, Ravel e Bernstein
por
Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

m 2 de maio, a Sala São Paulo recebeu as irmãs francesas Katia e Marielle Labèque para uma apresentação em duo de pianos, acompanhada do percussionista Gustavo Gimeno e do baterista Pablo Bencid. O evento é organizado pelo Mozarteum Brasileiro, uma associação que promove espetáculos voltados para o desenvolvimento da cultura musical. Estão previstas diversas apresentações de orquestras durante o ano, inclusive gratuitas, a serem realizadas no parque do Ibirapuera e em outros locais.
As irmãs Labèque nasceram na costa basca da França. A entrada de ambas no mundo do piano se deve à sua mãe, uma italiana, professora de piano e musicista, que as iniciou aos 3 e 5 anos de idade. Elas são conhecidas pelo conjunto coeso de sua interpretação e pela versatilidade do repertório, que inclui Bach, Mozart e Schubert até Stravisnky, Gershwin, Bernstein e compositores de vanguarda do século 20.
Contrastes
Ao chegar no bairro da Luz, região central da capital paulista, onde fica situada a Sala São Paulo, antiga estação de trens, a sensação foi de temor, pelas ruas ainda se mostrarem perigosas e ameaçadoras, mesmo com um processo de revitalização iniciado há poucos anos. É um grande contraste com a imponência do lugar, muito maior que uma “sala” qualquer. Luzes, várias luzes, ambiente requintado, muito distante do que um cidadão comum está acostumado a ver, e que pouco nota quando passa durante o dia em frente ao local, normalmente fechado.
A apresentação se aproximava com uma novidade interessante. Uma hora antes de o espetáculo começar, ocorre a sessão chamada “Sala do Ouvinte”, em que um profissional da música erudita explica quais serão os temas executados pelos musicistas, focando seus autores, contando um pouco de suas histórias e chamando a atenção do público para certas passagens. “Isso é bom, pois pelo menos a gente já entra com algum conhecimento do que vai ser apresentado”, diz a publicitária Elaine Sodré, admiradora da música clássica e ópera, mas que afirma não possuir profundo conhecimento na área.
Após essa sessão elucidativa, todos rumam para a dita cuja Sala São Paulo, onde afinal, os músicos tocam, os artistas dançam, recitam, enfim, onde a arte erudita acontece. A primeira parte da apresentação é reservada somente às irmãs Labèque. E elas entram: Katia toda de preto e Marielle toda de branco, denunciando o que deve acontecer mais à frente. Elas começam simultaneamente e executam com fúria e doçura a “Sonata em Ré Maior”, de Mozart. A platéia parece hipnotizada pela execução das irmãs, pois elas tocam em tal sintonia que se aparenta ouvir um só instrumento. Kátia é a mais agressiva, triturando seu piano, parecendo “sentir” mais a música, enquanto que sua irmã executa as notas de forma mais suave, aproveitando cada momento do modo mais tranqüilo possível.
Depois de idas e vindas com Mozart e uma breve saída das irmãs, é iniciada a “Rapsódia Espanhola”, de Maurice Ravel, um francês cujos laços com o país basco influenciou frequentemente os temas de suas composições. Um som intermitente de dor e melancolia quebra a alegria apresentada na obra anterior de forma dramática, com rompantes de raiva e ardor. Os pianos duelam entre si, como se mostrassem algo mal resolvido nos sentimentos do autor da peça. Um trovão parece ecoar, fazendo a platéia sentir na alma cada tecla, cada nota.
Quarteto
Após um final estonteante, o público aproveita o intervalo para tentar digerir toda a emoção da seqüência Mozart/Ravel. Na volta, Bencid e Gimeno surgem e o que já parecia bom fica ainda melhor. O quarteto executa a peça “West Side Story”, do americano Leonard Bernstein. Há até um filme de mesmo nome, inspirado na obra, em que duas gangues se digladiam, enquanto um rapaz se envolve com a garota do grupo adversário. Os musicistas retratam exatamente isso, só que com uma harmonia de se espantar.
A bateria faz diversos solos durante a execução, depois pára e acompanha os pianos, enquanto a percussão passeia por outros ritmos, tudo devidamente sintonizado. Sons tribais provêm dos atabaques, contrastados com as sutilezas dos pratos e do vibrafone. Há partes em que uma levada jazzística é tocada por todos os instrumentos. Depois, na hora do “conflito” entre as gangues, os quatro concertistas gritam “mambo”, prevendo a sangria e a morte advindas da briga.
A música dessa parte tenta se mostrar alegre, antagonizando a profunda tristeza do trecho seguinte, finalizado de forma esperançosa, numa melodia melancólica, porém com notas altas. Aplausos e mais aplausos são a forma do público reverenciar o prodígio das irmãs Labèque, que voltam para um raro bis no mundo clássico, um duo de piano improvisado, alegrando ainda mais os que assistiram a um verdadeiro espetáculo musical.  |