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30 de maio a 11 junho de 2005

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DE OLHOS BEM ABERTOS
O Lenhador deixa a hipocrisia de lado e aborda com louvor o tema pedofilia
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

o cinema, polêmica é sinônimo de dinheiro, vide o exemplo de A Paixão de Cristo , de Mel Gibson. Ainda assim, o cinemão hollywoodiano foge de temas espinhosos como o diabo da cruz. Mesmo abordando questões delicadas, a grande indústria cinematográfica prefere diluir o assunto e mudar o foco da produção, caso dos recentes Menina de Ouro e Reencarnação – que tratam da eutanásia e pedofilia, respectivamente. Resta então ao cinema independente dar a cara à tapa e mostrar enfoques mais realistas a tabus que dividem opiniões. O Lenhador , filme da diretora Nicole Kassell, é uma dessas produções, trazendo como tema principal a pedofilia.

Depois de passar 12 anos em uma prisão pelo assédio sexual de uma garotinha, Walter (Kevin Bacon) sai em liberdade condicional e tenta reconstruir sua vida. Ele passa a trabalhar em uma madeireira e envolve-se com uma colega se trabalho, Vickie (Kyra Sedgwick, mulher de Bacon na vida real). Mas a sombra da pedofilia não o deixa em paz, tanta que Walter escolhe morar na frente de uma escola primária, passando horas na frente da janela observando as crianças.

A trama, a princípio, parece batida e clichê. Walter tem dificuldade em se adaptar novamente à sociedade e esta não está muito disposta a lhe dar uma nova chance – basta reparar nas ações das personagens de Mary-Kay (a rapper Eve), secretária do local onde Walter trabalha, e do policial responsável pela sua condicional, Lucas (Mos Def), bem como da irmã de Walter, que se recusa a vê-lo. Mas a diretora sabe que está pisando em terreno arenoso e foca suas lentes na personalidade do protagonista. O Lenhador é, sobretudo, um estudo de personagem e ganha pontos ao não tentar enganar o espectador com truques baratos. O tema da produção é polêmico, mas Kassell o trata com sobriedade, preferindo abordar as questões psicológicas das ações da Walter, ao invés de suas conseqüências perante a sociedade.

A atuação de Kevin Bacon é, então, a grande força motriz do longa. Sua interpretação é silenciosa e comedida e o ator compõe um Walter fragilizado pela dúvida: seguir seus impulsos ou controlar seus desejos? Nesse ponto, Nicole Kassell não faz concessões e cria uma empatia impensável entre Walter e o espectador. O que seria moralmente questionável acaba sendo relevado na medida em que Walter sofre por sua condição, estando em permanente conflito consigo mesmo.

Claro que em um determinado ponto da narrativa, Walter terá que enfrentar seus demônios. Claro também que a diretora irá derrapar ao inserir uma subtrama de suspense dispensável. Pior é que tal subtrama trará a Walter a redenção tão cara ao cinemão americano. Certamente, O Lenhador sofre ressalvas por optar por um caminho tão óbvio, mas sua condução inteligente e de certa forma corajosa até o fraco desfecho o valida como uma obra relevante e ousada. Prova disso é que Kassell não se recente em soltar farpas ao deixar bem claro que a pedofilia – e outros desvios sexuais como o incesto – são muito mais comuns do que podemos imaginar. Apenas a sociedade hipócrita prefere fechar os olhos diante de tal realidade.